Categorias
Comportamento

A verdade tem preço e às vezes preferimos economizar

A boa notícia é que a verdade cobra, sim, caro, mas quando o que temos é insuficiente ela aceita como pagamento desde que seja tudo que temos. Vamos tentar pagar o preço da verdade hoje?

Na minha jornada enquanto humano, pude me deparar com dezenas de situações em que a verdade era muito cara. Como todo ser humano, imperfeito e falho, em algumas destas vezes não encontrei valor suficiente para manter a verdade e menti. Não carece estender muito para afirmar que, mais adiante, não foi a mentira que se tornou cara, foi a verdade que veio cobrada com juros.

Tenho lido com afinco a obra de Sartre nos últimos meses. Sou admirador do filósofo do Existencialismo que teve como esposa Simone de Beauvoir, que além do Existencialismo, defendeu também e ajudou formular o que se chama de feminismo contemporâneo. Convém constar que o relacionamento de ambos era considerado aberto, uma inovação subversiva à época. Eu não fui feito para relacionamentos abertos e, embora uma de minhas melhores amigas diz que isso é uma construção social, não consigo me ver fora da monogamia, talvez por orgulho e necessidade de posse mesmo.

Uma das premissas do Existencialismo enquanto filosofia é a escolha como fator determinante para o ser humano. Para Sartre, o ser humano estaria condenado a ser livre porque a sua liberdade o colocava em total responsabilidade por sua vida, fazendo com que suas escolhas o fizessem. Em suma, o ser humano é suas escolhas, na visão de Sartre. Isso faz bastante sentido para mim devido à minha crença de que as pessoas podem mudar, inclusive drasticamente, com o passar do tempo, bastando que alterem suas atitudes.

Retomando a verdade como assunto principal desse texto, quando escolhemos falar a verdade, isso nos faz verdadeiros. E quando escolhemos falar o que não é verdade (seja através da omissão, distorção ou manipulação da verdade), isso nos faz mentirosos. Para ambas as etiquetas, há consequências. No entanto, de acordo com nossas escolhas, as etiquetas de verdadeiros ou mentirosos podem se alterar. Podemos ser integralmente verdadeiros numa relação de trabalho, por exemplo, e contarmos algumas mentiras em nosso ambiente acadêmico. O único problema é que não estamos numa bolha. E uma hora, a verdade cobra seu preço com juros onde ela não está sendo fielmente depositada.

De vez em quando o bolso parece estar muito vazio. São inúmeras as cobranças que temos da comunidade em que vivemos, dos meios de comunicação, dos governos, das autoridades a quem servimos ou devemos algum tipo de satisfação. Constantemente, nos sentimos pesados. E falar a verdade parece ser caro demais. Embora geralmente seja.

Há alguns dias, um amigo me questionou se haveria problema em mentir um determinado ponto num exame que ele faria. A pergunta veio porque ele soube que poderia ser prejudicado financeiramente se falasse integralmente a verdade. Resolveu confirmar comigo. Insisti que financiasse a verdade, mesmo que com um custo maior. Em algum outro período da minha vida, faria uma série de concessões e daria saídas possíveis por medo de ser taxado de chato ou de perder a amizade, mas estou me cansando disso. Tenho sido um pouco mais direto, embora ainda muito prolixo e cansativo em minhas falas.

Aos poucos, tenho aprendido a jogar mais limpo. A falar o que penso, o que sinto e principalmente como enxergo as coisas. Isso é libertador no longo prazo, embora o preço seja um pouco caro demais no curto prazo. Confesso que estou endividado. E talvez por isso eu esteja esgotado emocionalmente. Às vezes dá vontade de economizar e deixar o bolso encher, mas aí me lembro das consequências e de que sou as minhas escolhas, repenso bem e, no auge da minha humanidade, sou posto à escolha: pagar à vista ou à prazo com juros?

Tenho escolhido pagar a verdade à vista. E neste processo, aprendi que, por mais que exista um ditado que diz que “a mentira tem perna curta”, o mais importante é saber que não temos como financiar a mentira integralmente. Porque existe um momento em que a mentira nos cobra coisas não financiáveis. E aí precisamos retomar de bolsos cheios e oferecer à verdade tudo que temos para reiniciar do zero.

A boa notícia é que a verdade cobra, sim, caro, mas quando o que temos é insuficiente ela aceita como pagamento desde que seja tudo que temos. Outra boa notícia é que verdade paga à vista vem com desconto, embora num primeiro momento, pareça mais cara que sua concorrente. E a última das boas notícias é que verdade vem com cashback, porém, não desses imediatos. É tipo um cashback já integrado: enquanto a mentira requer manutenção diária e custos recorrentes, a verdade é paga uma só vez e não requer manutenção, pois o seu cashback já trabalha automaticamente para sua manutenção sem necessidade de aportes adicionais.

Vamos tentar pagar o preço da verdade hoje?

Comente! Aqui é o lugar!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.