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Comportamento

A companhia no caminho sempre ensina

Às vezes precisamos ser impulsionados e acelerar mais. Às vezes precisamos que tenham calma e paciência conosco. Cada pessoa está num passo e, mesmo com todas as diferenças, é possível caminhar junto.

Há algum tempo me peguei pensando sobre tudo que sou, que fiz e que passei até aqui. Cheguei a contar isso aqui no blogue. Quem me conhece mais de perto sabe que às vezes eu tenho algumas atitudes um pouco deslocadas em relação ao rolês e atividades que faço: sou bastante individualista em muitas coisas. Recentemente, numa das minhas sessões de terapia com a psicóloga, refletimos sobre essa minha dificuldade quando dependo de outras pessoas e me frustro – frustração é um dos piores inimigos para quem é fleumático e é por isso que estou tentando rascunhar um livro sobre a importância da frustração na minha vida.

Mas o fato é que, na sinceridade total, a gente não existe pra viver sozinho. Nem isolado. Entretanto, precisamos da nossa individualidade. Esta, pois, que acaba sendo um produto das experiências que tivemos e das pessoas que nos rodeiam. “Gente precisa de gente pra ser gente”, cantou Hamburgada do Bem. A referência é ao Ubuntu, termo africano que tem muita história e remete ao conceito de essência da humanidade.

Enquanto nesta vida temos a certeza de que a melhor analogia é a de uma estrada, caminhamos em alguns momentos sozinhos, em outros acompanhados – com maior ou menor número de pessoas – e, por vezes, precisamos estacionar, fazer algumas trocas de peças e avançar. Em relacionamentos amorosos, raramente encontramos alguém no mesmo ‘time‘ que nós.

E nesta caminhada pela vida, somos inicialmente acompanhados por nossos pais ou, em casos não tão raros, por avós, tios, cuidadores, etc. que suprem a ausência dos pais. Logo que a infância fica mais colorida, vêm os primeiros amigos da escola, os professores e a nossa vida começa a ficar mais povoada de gente que é estranha por não ser consanguínea, mas é extremamente próxima por compartilhar os mesmos espaços que nós. Na adolescência, um fenômeno acontece: tomamos distância considerável de nossos consanguíneos e nos aproximamos emocionalmente de pessoas alheias à nossa família. É um desprendimento necessário e você já passou – ou vai passar por isso.

Quando vem a juventude, muitos companheiros de caminhada são substituídos por outros. Parece grotesco e frio, mas é exatamente isto que acontece. Cada pessoa começa a trilhar seu caminho e, muitas vezes, não estamos seguindo para o mesmo destino. Há gente que está indo a norte enquanto há gente indo a sul. O que houve foi um encontro repentino e temporário, mas que não significa que não tenha sido importante. Na vida adulta, o afunilamento vai acontecendo e um retorno aos consanguíneos acontece. Na idade mais idosa, os companheiros de caminhada diminuem consideravelmente até que a rota final, essa individual, seja traçada e o GPS aponte que o destino chegou.

Na minha caminhada de vida, eu tenho muita alegria em compartilhar o fato de que tenho dezenas de pessoas ao meu lado. Muitos têm um caminho de longa data, outros cruzamos caminho agora, mas isso não importa, o que importa é o nível de ombro a ombro. É o quanto realmente nos entregamos ao longo do pedaço de caminho que nós percorremos juntos.

Todavia, nem sempre é assim. Às vezes temos alguns momentos mais sombrios e solitários. Às vezes alguém nos acha perdido pelo caminho e nos conduz muito bem até uma trilha mais visível. Gosto de considerar que a caminhada da vida envolve também os turnos: manhã, tarde, noite e madrugada.

Eu tenho amigos para depois da zero hora. Gente com quem posso contar. Gente que guarda sua dor no bolso e vem me ajudar na minha. Gente que dispõe de si, dos seus recursos e do seu precioso tempo para me ouvir, me orientar e me lapidar. Gente que acredita não somente em mim como também em meus sonhos. Gente que compartilha da sua vida comigo sem um pingo de interesse na minha utilidade, mas sim na minha importância. Gente que sabe que na hora que a coisa apertar, eu vou procurá-los. Gente que escancara a porta de suas vidas para mim. Gente que não ignora uma mensagem minha porque sabe que, se os procurei, é porque preciso de uma resposta. Gente que é gente como eu e que me constrói, me ajuda a ser gente. E não, essas pessoas não estão comigo todos os dias. Cada uma delas tem um caminho próprio e às vezes nem os enxergo na minha visão imediata, mas basta tocar a seta e entrar na primeira saída e lá os encontrarei.

Mas eu também tenho gente que está comigo todos os dias e são pessoas muito importantes. São pessoas com seus próprios caminhos, mas que neste espaço das suas vidas, resolveram compartilhar um pouco dos seus caminhos comigo. E às vezes, especialmente quando estamos próximos, eles precisam abrandar a sua caminhada para que eu possa acompanhá-los e outros eu preciso desacelerar os meus passos para poder ir junto. Porque a velocidade também importa. Não dá pra ir a cem por hora enquanto o outro vai a quarenta, e vice-versa.

A companhia no caminho sempre ensina, seja ela mais calma ou mais acelerada. Às vezes precisamos ser impulsionados e acelerar mais. Às vezes precisamos que tenham calma e paciência conosco. Cada pessoa está num passo e, mesmo com todas as diferenças, é possível caminhar junto.

Quando olho para trás, sinto saudades de muitas pessoas que hoje estão longe. Mas uma das coisas mais importantes que precisei aprender foi sobre a importância da impermanência em nossas vidas. Cada pessoa tem um caminho e precisamos escolher, no hoje, compartilhar ou não o caminho, pois amanhã pode ser tarde demais. Se alguém te chamou pra caminhar junto e você quer, vá. Afinal, toda companhia no caminho ensina, inclusive aquela que nos atarraxa os parafusos da cabeça por um tempo devido às diferenças.

Contudo, em especial quando o assunto é missão de vida, precisamos fazer algum filtro sobre quem nos acompanha, pois é como afirmei: tem gente que vai a norte enquanto outra vai a sul. Quando se tenta caminhar junto, há um choque e ninguém sai do lugar. Enquanto isso, o tempo passa. E o tempo não tem dó, ele é feroz, ele tem fim.

Que você escolha caminhar com muita gente ao seu lado, em especial, com aquelas pessoas que percebem sua importância além da sua utilidade. Fique com a edição “sad” de trechos do filme Sonic, que inclusive já escrevi sobre aqui no blogue, e reflita sobre a importância de caminhar com pessoas em seu caminho.

2 respostas em “A companhia no caminho sempre ensina”

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