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Comportamento

Só fazemos parte da solução se nos entendermos como parte do problema

Quando nos percebemos parte do problema, somos investidos de vontade para mudar e transformar a situação. É aí que nasce a solução.

Não tem como. Nossa humanidade nos puxa a enxergar problema em tudo. E na maioria das vezes a solução é mudar tudo, todos, menos nós mesmos. É sobre entender-se parte do problema que quero conversar com você hoje.

Seja no trabalho, em casa, na escola, faculdade, ou em qualquer lugar que você costume ir com frequência, os problemas passam a ser mais claros e mais vistosos. Embora com o passar do tempo geralmente nos acostumamos ao ambiente porque somos serem extremamente adaptáveis, no hiato que separa o vislumbre da aceitação há um incômodo. Esse incômodo é tratado, na maioria das vezes, como problema.

Lembro-me de todos os lugares em que passei: a ausência de placas de identificação e sentido me davam agonia. Cheguei a escrever um manifesto pela presunção da ignorância em espaços públicos aqui no blogue. Meu primeiro impulso sempre foi: vou reclamar com alguém que manda nesse espaço para que coloque as placas. Aí vinha a primeira conversa, a pessoa entendia e recebia com agrado minhas palavras, mas obviamente, eu estava fazendo algo que a gente faz todo dia: aponta o problema, não se vê parte dele e, consequentemente, não se vê parte da solução.

Depois de muito incômodo e como as plaquinhas não apareciam, pensava: e se eu for lá e pedir autorização para mapear o espaço e fazer as plaquinhas? E assim fiz. Foi assim que entendi que eu poderia ser parte da solução daquele problema. E eu era parte do problema porque enquanto apontava o problema sem me envolver para que ele deixasse de existir, mantinha sua existência e, portanto, o silêncio, a inação, era também parte do problema da ausência de identificação nos espaços.

Dei o exemplo mais simples e objetivo possível para que possamos ir para termos mais subjetivos e mexer com coisas do coração agora. Nos relacionamentos interpessoais não é impossível – pelo contrário, é comum – ver alguém dizendo: “mas o problema é que fulano é assim e assado”, “ah, eu já falei, mas nada de ciclano resolver o problema”, “se fulana mudar, o problema acaba”. Tendemos a encontrar bodes expiatórios para nossos problemas e quando analisamos os relacionamentos interpessoais, uma pessoa ou um grupo sempre serão considerados os bodes expiatórios por quem não quer se integrar ao problema e fazer parte da solução.

Eu tenho uma relação muito honesta e próxima com meus amigos mais próximos. Quem olha a nossa relação de perto jamais acha que somos melhores amigos pela forma visceral como os trato. O que acontece é que quanto mais próximo sou, mais visceral sou. As muitas obrigações da vida em sociedade não permitem que nossa autenticidade seja mostrada, e por um lado, essa civilidade é importante para permitir a convivência entre os diferentes. Mas retomo: é importante que tenhamos com quem ser totalmente nós mesmos. Isto porque poderemos ter opiniões e conselhos mais assertivos quando nós estamos tomados pela ignorância de não nos vermos como parte de nossos problemas.

Hoje, ao me conhecer mais usando as ferramentas possíveis e ao meu alcance, vou aprendendo que não há como solucionar problemas sem o envolvimento de corpo e alma, com a percepção própria de participação no problema. Excluem-se dessas premissas as situações de violência. No mais, tudo geralmente tem um dedinho de participação nossa no problema. E a não tomada de decisões em situações que incomodam já se configura como uma decisão também.

Se o pai enxerga que o filho é muito incoerente, mente e esconde informações, dever-se-ia avaliar se o ambiente que ele oferece ao filho o ensina isso ou se o reprime tanto que a única forma de ele se sentir validado é mentindo. Se a mãe enxerga que a filha se entrega demais a amores mirins e abusivos, sem qualquer chance de futuro, dever-se-ia perguntar se não é esse o ambiente familiar ou se há opressão contra relacionamentos duradouros que possam emancipar a condição da filha para esposa. Se o filho enxerga que seus pais são o pior problema de sua vida e que seria melhor se eles não existissem, dever-se-ia avaliar se seus comportamentos não estão sendo uma reprodução exata dos seus pais ou se o ambiente que ele se encontra seja hostil à formação de relações transparentes.

Quanto mais nos distanciarmos do problema, melhor é. Quando o caos parece gigante demais, é importante a distância. Tomar distância do problema e analisá-lo. Escrutiná-lo mesmo. Partindo desse escrutínio, é possível se inserir e perguntar, em cada bloco do problema: “qual é minha parcela de culpa?” Enxergada, percebida e aceita a parcela de culpa, é hora de agir. Em tudo? Não! Apenas na sua parcela de culpa. Nesse processo, você enxergará que algumas coisas não são problema, são característica e cabe a você apenas aceitar. Depois disso, é esperar que as coisas aconteçam e quando não acontecer, pratique a lei dos dois pés: vá embora.

Parece contradizer o que eu disse recentemente aqui no blogue sobre “retirar-se da equação”. Mas não. Retirar-se da equação, como mencionei no parágrafo anterior, é um passo dentro do processo. Apenas para cessar o processo de negação do problema ou a ignorância cega de enxergar o problema como objeto alheio à sua presença ou participação. Quando nos percebemos parte do problema, somos investidos de vontade para mudar e transformar a situação. É aí que nasce a solução, esta que poder ser ótima, a melhor ou fácil, conforme escrevi aqui.

Em termos políticos, toda a sociedade, todos os setores da sociedade brasileira, fazem parte do problema que temos hoje. Não adianta mais tentarmos encontrar um bode expiatório. Quando o PT queria ser eleito, o bode expiatório era o PSDB. Com a direita conservadora representada por Bolsonaro, o bode expiatório era o PT. Mas agora estamos de novo perto de uma convulsão social, com uma pandemia que arregaçou a economia mundial e já traz sinais de uma década sem crescimento para o Brasil. O que faremos? Qual nossa parcela de culpa nisto? E como vamos nos articular para fazer parte da solução?

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