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Comportamento

Os domingos são irresistíveis

No domingo há uma porção misteriosa de fracasso misturada com descanso e esperança. É neste dia que convém aprofundar-se sob o manto da melancolia.

Se você digitar a frase do título desse texto no Google, o primeiro resultado após os vídeos será o do meu blogue. Antes mesmo de escrever esse texto, já era assim. Porém apontava para o texto “Um momento inesperado de reflexão” que começava com esta frase. A melancolia tem me atacado com força. Meu comportamento é predominantemente fleumático, mas ultimamente a já presente melancolia está se tornando ainda mais visceral. E é neste tom que quero falar hoje.

Eu não tenho pretensões de sucesso numérico com meus textos, mas pretendo o sucesso subjetivo, aquele que se dá máxima importância: a de que pessoas específicas leiam o meu conteúdo e se envolvam com ele. Costumo dizer que quando meu conteúdo serve a pelo menos uma pessoa já valeu todos os anos de escrita. Há textos no meu blogue que não somam sequer 10 leituras. E outros que somam milhares. A diferença entre um e outro está no interesse dos leitores e leitoras. E por mais que os números falem, não é deles que se trata.

Um dos meus sonhos de amor enquanto humano, homem e romântico que sou, é que minha parceira possa ler os meus textos e se envolver com eles. Não é sobre parabenizar pela escrita nem tampouco sobre admirar e menos ainda sobre escrever também, é sobre se envolver. É sobre fazer perguntas, ir além das linhas e procurar no texto, parte de mim que pode não ter sido descoberta ainda no trato diário. Pra mim, este será um dos sucessos almejados. Por isso, embora eu me sinta grato às pessoas que leem meus textos e me parabenizam em tom de admiração, não é este tipo de validação que procuro.

Os domingos são irresistíveis. E há motivos para que essa frase ecoe e seja repetida. Nesta noite me peguei, como em várias outras noites solitárias, lendo os textos da Obvious. Pra quem não conhece, a Obvious propõe um olhar mais demorado a partir de escrita de gente como eu e você sobre coisas do mundo, das pessoas e das artes. Não dá pra descrever, você precisa ler e se encantar. Conheci há vários anos a Obvious e nunca parei de ler desde então. Devo muito da minha escrita a diversos autores que por lá já estiveram, entre eles Sílvia Marques que dentre outros tantos textos, escreveu este que é um dos mais marcantes. Ler esse tipo de conteúdo nos liga de volta à nossa humanidade e isso é magnífico.

Os domingos são irresistíveis porque no domingo há uma porção misteriosa de fracasso misturada com descanso e esperança. Fracasso porque nos percebemos sozinhos, deixados à sorte do desamor, da carência, da desimportância ou da nossa própria negação. Descanso porque após um dia inteiro sem fazer coisas corriqueiras, parecemos estar prontos para enfrentar uma nova jornada dura de trabalho. E esperança porque sabemos que amanhã será segunda-feira e não importa o quão horrível possa ter sido a semana anterior ou o próprio domingo, a segunda sempre nos dá chance de tentar de novo, e por isso eu amo as segundas-feiras.

Os domingos são irresistíveis porque neles habitam nossa carência espiritual por algo que nos faça sentido. Não é apenas porque nos convencionamos a estar numa celebração religiosa no domingo, é por causa do vazio existencial que é muito bem preenchido pela espiritualidade, em especial aquela saudável e o mais racional possível. Certa vez, ao conhecer uma pessoa que me disse não gostar e não ter interesse por Filosofia disse à ela que a vida dela deveria ser muito boa e alegre, já que ela não tinha preocupações com o sentido da vida, uma das propostas mais recorrentes de qualquer linha filosófica.

Os domingos são irresistíveis porque, faça você mesmo suas contas, é neste dia que afloramos nossos sentimentos mais intrínsecos. É neste dia que nos declaramos a quem amamos, que nos reunimos com gente que talvez nem seja tão querida assim porém estão conosco, que nos abrimos à afetividade. Por mais que pra muita gente como eu não há dia certo para sentir, é importante reconhecer o domínio do domingo sobre esta seara. É neste dia que a carência, a saudade, o peito aperta e autoajuda alguma funciona.

Os domingos são irresistíveis porque até o mais impossível dos amores se torna possível neste dia. Com suas longas horas, o domingo parece nos capacitar de um sentimento masoquista, shakespeariano, de procurar quem está longe, de tentar atingir as impossibilidades a partir de uma ação, um gesto, uma palavra. É neste dia que tentamos agradar, fazer recomeçar um relacionamento que nunca existiu ou que deixou de existir, tentar apaziguar uma situação familiar ou regenerar uma relação perdida com um terceiro. Escolhemos o domingo porque é mais certo que o outro também estará mais sensível – porém nem sempre isto é verdade.

Os domingos são irresistíveis porque nossas preocupações financeiras e todo o tempo do “ainda não” que vivemos em relação aos nossos sonhos parecem crescer com fermento. É desesperador. Parece faltar o ar e para não ficarmos loucos, nos refugiamos em forçados programas de auditório, notícias alarmantes ou entretenimento de baixa qualidade. Para alguns, o refúgio em terras distantes, o contato com a natureza, entre outras escapatórias pode ser trajado de rotina, mas nada mais é do que fuga de uma realidade desesperadora.

Os domingos são irresistíveis e eu poderia continuar a escrever sobre os domingos neste tom de melancolia porque estou no processo de um luto emocional dos bravos (sim, já é o segundo em um ano) e parece que, quanto mais perto eu chego do fim, mais infantil estou e pareço recair e voltar ao início, à negação. Por sorte, minha terapia cognitivo comportamental, muito bem guiada por uma psicóloga, está funcionando e tenho tentado canalizar minhas forças ao invés de colocar pedra sobre pedra e construir um bloqueio aos nobres sentimentos. Lágrimas rolaram enquanto eu escrevia e também enquanto lia textos mais cedo na Obvious. Sinto saudades de um ser feminino que jamais me abraçou com seus braços, mas que com minha estrita permissão e convite invadiu minha alma sem pedir permissão e aos poucos, se tornou a razão final de boa parte dos meus pensamentos – é, a paixão tem dessas.

Hoje eu também me peguei pensando sobre algumas coisas que aprofundam a irresistibilidade dos domingos: será que eu não estou sendo muito seletivo? Será que não estou sendo exigente demais? Após quase um mês de insistência dos meus pais, fui almoçar com eles hoje com as devidas precauções de segurança para não passá-los nem sequer a possibilidade mental de infectarem-se com o coronavírus, já que vivem numa paranoia parecida com a minha. Essa decisão, simples para você, foi um jogo de dúvidas e certezas para mim, uma decisão difícil de tomar. O meu distanciamento familiar não ocorre apenas devido à pandemia, mas também a uma necessidade pessoal devido ao processo de amadurecimento pelo qual passo.

Os domingos são irresistíveis e não sei se é só porque eu complico demais as coisas, mas hoje eu não resisti. Com isso, posso ter perdido minha dignidade perante a quem me orienta sobre autoestima e amor próprio, mas dentre todas as perdas, houve um ganho: me tornei um pouquinho mais humano, mais sensível, mais gente. Que os domingos continuem me moldando.

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Foto de Capa: Nappy/Reprodução

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