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A despedida é um ato de coragem

Talvez eu tenha tomado uma decisão acertada. Talvez errada. E eu só vou descobrir lá na frente. Porque agora, ainda permaneço caminhando, e nesta jornada, não consigo enxergar muito além do meu nariz e do caminho que está debaixo dos meus pés.

Eu lembro bem do dia que você chegou. Lembro exatamente qual foi o momento exato que lágrimas de emoção jorraram nos meus olhos e do nada meu coração palpitou. Foi intenso, súbito. Eu não sabia de nada do que estava acontecendo e muito menos do que iria acontecer. Também lembro do dia que fui embora. Embora com muito menos romantismo e detalhes que o dia em que você chegou porque naquele dia ainda doía.

Eu também me lembro de cada recaída desde que tomei a decisão de me despedir. Eu, com minha mala pelo caminho, vez ou outra dava alguns passos atrás e via ali, por orgulho ou por carência, uma chance de te chamar pra saber se você estava ainda ali. E sim, na maioria das vezes, você estava. Algumas vezes me tratara mal, mas na maioria foi educada.

Me lembro que em algum momento do caminho ouvi um grito seu. Na ânsia de ser um “não vai, volta!”, acabei voltando sem saber o que era. Quando cheguei até você que já tinha caminhado um pouco do caminho, encontrei-te tomada de razão e, na busca da paz, aceitei suas palavras de raiva. Isso aconteceu mais vezes e eu sempre queria que você dissesse “volta”, mas a cada discussão, a cada revirada de olhos, mesmo que por mensagem, a cada situação em que você me limitava, eu estava mais longe. A cada “não quero conversar” que não vinha explicitando o “com você”, mas que eu sabia que era comigo, meu desinteresse foi aumentando.

A cada confissão descabida, cada mentirinha boba que você mesma ia desmentindo pra mim, meu desinteresse aumentava. Quando você jogava com as emoções, limitava de eu vê-la ou de conversar com você, isso era mais um impulso para ir embora, era como se eu ganhasse cada vez mais força pra seguir. A cada mensagem não respondida, eu prosseguia com alívio pelo meu caminho. A cada situação de estresse e sua total ausência de preocupação comigo, eu ia embora mais rápido. E, por fim, sua desconfiança era como acionar o modo turbo na minha caminhada. Me chancelava: eu estava indo para o lado certo, por mais que lá você não estivesse.

Não é que não doía. Pelo contrário, doía muito. Não é que você fazia isso pra me machucar. Eu tenho certeza que não, eu não consigo acreditar que sim. E não, não é que você simplesmente estivesse me testando. Eu realmente acreditei em cada palavra que você disse, mas também precisei acreditar em cada atitude diferente das palavras que havia dito. E assim eu seguia.

Cada vez que eu estava mais longe, a dor parecia maior. Os espaços que eu tinha reservado para você agora estavam, novamente, vazios. Minha preocupação com você parecia aumentar, num esforço de tentar te manter perto, mesmo que virtualmente. Mas eu continuava caminhando. De vez em quando eu mesmo voltava uma milha e tentava insistir um pouco, mas acho que você já estava treinada em mim e conseguia me fazer lembrar da minha decisão de despedida.

E bom, possivelmente, você tenha muitos motivos para dizer que não me escolheu como eu te escolhi. E sim, eu aceito todos os seus motivos. Eles são seus. Só não aceito que queira mandar no que eu sinto ou duvidar do que sinto. É melhor cada um ficar com suas concepções, já que não escolhemos andar juntos.

Talvez eu tenha tomado uma decisão acertada. Talvez errada. E eu só vou descobrir lá na frente. Porque agora, ainda permaneço caminhando, e nesta jornada, não consigo enxergar muito além do meu nariz e do caminho que está debaixo dos meus pés. Pode ser que eu olhe mais adiante para trás e não sinta saudades – isso já aconteceu antes. Mas pode ser que eu também fique remoendo cada pedacinho da minha ignorância ao não insistir mais – isso já aconteceu antes.

Para evitar o remorso, tomei algumas precauções, entre elas: dizer sempre o que sinto e o quanto sinto por você, não esperar de você nenhuma ação para demonstrar o que sinto por você e não incorrer em limitações comigo mesmo. É certo que você deve pensar que sou louco e deve me mandar voltar à terapia. É natural que você não entenda, afinal se realmente quisesse entender, teria observado o mapa que deixo em cada pergunta que respondo, em cada texto que te mando, em cada música que te recomendo, em cada palavra que te digo. Mas isso não está nos seus planos para agora. E tudo bem.

Doía muito mais alguns metros atrás. Ainda vai continuar doendo. E enquanto estiver doendo, há chance de eu voltar se você pedir. Porém chega um dia que a chuva desce pelo caminho e leva embora toda a dor. Não é daquelas chuvas anunciadas com ventos, trovões e pequenos chuviscos. É aquela chuva que cai enquanto ainda é sol, que não faz sentido, mas molha a terra e deixa sua marca. É a chuva do renovo, da esperança, do embalsamamento do luto e do sepultamento emocional de uma paixão que passou à História. É algo que acontece e só.

Neste dia em que tudo passar, eu certamente vou me perceber diferente. E vou novamente blasfemar contra as paixões irrecíprocas e os amores mirins, mas certamente no mesmo instante, estarei pronto a me entregar de novo. E de novo. E se nos encontrarmos um dia pelo caminho, quem sabe, as coisas não se acertam? Mas pra isso a gente terá que ter mudado muito porque se você continuar a mesma pessoa e eu a mesma, não há Jesus que ressuscite paixão morta dentro de um coração que já a sepultou.

Pode ser que você até me chame de frio, grosso ou de mentiroso apenas por não corresponder a absolutamente nada do que você esperava de mim mesmo tendo ciência de que o tempo do sentir passou, mas saiba que enquanto entreguei-me, fiz isso de coração e de peito aberto à você para que jamais precisasse me entregar por remorso. Se eu me apaixonei por você, você é uma raridade e seu corpo pode nem ser tão lindo, mas eu te enxerguei como a mulher mais linda desse planeta e o ser mais especial que poderia me acompanhar pelo resto dos meus dias. Acontece que, embora você seja raridade, eu também tenho valor e se você não enxergou esse valor em tantas e insistentes tentativas, talvez agora só esteja enxergando meu preço ou minha utilidade. E por preço, eu dispenso sua preferência. Por utilidade, nosso limite é a amizade. Obrigado.

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