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As sutis e tênues diferenças entre utilidade e importância

Na tentativa de uma dicotomia entre utilidade e importância, esse texto tenta ser apenas um norte – afinal ao se falar de sutilidade, tudo é muito sutil e ao se mencionar o que é tênue, torna-se tênue definir também.

Na tentativa de uma dicotomia entre utilidade e importância, esse texto tenta ser apenas um norte – afinal ao se falar de sutilidade, tudo é muito sutil e ao se mencionar o que é tênue, torna-se tênue definir também. Ademais, utilizaremos conceitos fechados e depois os ampliaremos.

Utilidade

A própria definição de utilidade subestima os detalhes. Útil é aquilo que serve. Útil é aquilo que é obrigatório, que deve existir. Seja pelo conceito filosófico e universalista da palavra ou seja pela sua compreensão mais imediata das lojas de utilidades, útil é tudo aquilo que serve à algum fim e que, de alguma forma, vale a todos. Não obstante, é fácil encontrar na maior parte das lojas de preço fixo e qualidade questionável um similar: “loja de utilidade”, “loja de utensílios”, “tem de tudo”, entre outros títulos.

Importância

Este tem sido um tema que tenho trazido com frequência aqui no blogue. Foram reflexões sobre a importância no século XXI e sobre a relevância e importância de nossa humanidade perante o nosso mundo. Mas, em síntese, importância é o que trazemos conosco, é aquilo que ajuizamos valor no hoje. Portanto, há coisas importantes hoje que podem deixar de ser importantes amanhã. Importante é aquilo que tendemos a levar conosco, a escolher quando temos mais de uma opção. Importância é um conceito subjetivo, próprio, individual, que acaba por beneficiar a coletividade, mas está centrada no ser.

Proximidades

É possível traçar uma série de proximidades entre utilidade e importância. Se algo é útil quando se torna necessário, não seria também importante devido à sua necessidade? Por vezes, sim. Da mesma forma, se a utilidade é algo universal, mas também acaba por ser um juízo de valor, não seria a importância também universal ao ser que ajuíza o valor? Não é incompreensível que essas proximidades existam.

Assim como na maioria das filosofias nascidas da observação e crítica às teorias da imagem, do pensamento, da existência – um salve especial para o Existencialismo de Sartre -, a análise da importância e da utilidade sob o prisma do anseio da alma, da forma como ajuizamos valor sobre o que nos cerca, em especial, sobre como sentimos em relação a uma situação ou coisa percebida, as proximidades são o elo que universaliza tudo. Se por um lado, colocar tudo sob um mesmo teto pode ser bom, a necessidade da diferenciação grita por outro lado.

Diferenças

É na sutilidade da diferença que mora o belo, o próprio, o indizível sentimento de propriedade. É por isso que diferenciar a utilidade da importância é mais que um simples exercício muitas vezes solicitado pelos terapeutas nos divãs psicológicos, é uma necessidade humana.

Especialmente nos últimos dez anos, em que o mundo inteiro vive uma overdose de informação potencializada em muito pela internet diariamente presente em nossas vidas, surgiu um movimento muito contrário à criação: “e se a gente descriasse?”, urgia o movimento. Não é necessário não criar ou fazer um movimento para não criar. Isso seria, por si só, uma criação. A criação, em especial a artística, é uma forma de dispensar psicologicamente os dramas que sofremos diariamente simplesmente por existirmos. Há gente que lida melhor – ou finge melhor, não sei – com a vida e suas diárias montanhas-russas de afeto, humor e prazer.

Portanto, um fato é que realmente estamos diariamente muito expostos à informação, e muitas vezes, informação de péssima qualidade ou sem qualquer crise – porque ninguém terá uma overdose de textos científicos, afinal, não é fácil produzir textos científicos e muito menos ainda lê-los. E não, não sou academicista, embora pesquisador. Também é extremamente difícil ter uma overdose de leitura de textos de profundidade escritos pelas estrelas contemporâneas dos relacionamentos, a saber Murillo Leal, Sílvia Marques, Rafa Magalhães e Iandê Albuquerque. Os textos são bons, mas como se requer, para cada frase, uma leitura do mundo ao seu redor, não é possível se embriagar com facilidade. Quando falo de overdose, cito textos extremamente feitos para ganhar cliques, curtidas ou acessos, feitos exclusivamente para o volume, sem qualquer chance de atacar o fundo de nossos corações sem utilizar de técnicas psicológicas feitas apenas para nos vender uma ideia ou produto. Texto que sai do coração dificilmente causa overdose. Mas texto que sai do bolso, esses sim. Esses cansam. Não é toa que os coaches são quase todos rasos e profundamente irritados com tudo que sai de sua caixinha, com tudo que não vai do ponto A ao ponto B, com tudo que não significa um processo fácil e que um curso comprado não resolva a vida desgraçada de alguém.

Após toda essa explanação retomo ao tema da importância e da utilidade. Precisamos priorizar o que é importante ou o que é útil, questiono-me há alguns anos. Descobri que priorizar o útil pode até ser bom por um tempo, mas em algum momento, nos perdemos de nós mesmos e aí é necessário fazer algum caminho de volta e começar a reconsiderar a importância. Há pessoas que são extremamente ligadas à utilidade das coisas: compram um carro pela sua utilidade, compram uma casa pela sua utilidade, mas no fim, ensimesmadas pela utilidade, acabam nunca se respondendo: eu realmente me importo com isso?

Assim sendo, tentei considerar a aplicação do conceito de importância na minha vida por algum tempo. E confesso que, apesar dos pesares, gostei. Tem sido uma sensação diferente. Por vezes, me vejo com a sensação de estar à beira de um precipício. Esses dias, mesmo estando desempregado, recusei uma oportunidade de trabalho. Não tive dúvidas quanto à importância do meu ato, mas me vi contestado pela minha necessidade imediata. Priorizar o que realmente me compete como humano, o que entendi que é preciso fazer, pode ter me levado a muita angústia, confesso. Entretanto, a angústia de tomar as próprias decisões, de tentar em algum nível ser dono da vida e pôr em prática a noção de que somos aquilo que decidimos me deixou interessado por novas decisões que urgissem o juízo de valor e de importância.

E o que aprendi até aqui foi que há sim diferenças sutis e tênues entre utilidade e importância. Vou aqui compartilhar um exemplo. Eu tenho amigos. E melhores amigos. Pessoas que fazem parte da minha caminhada de vida, alguns há pouco tempo, outros há um quinquênio ou mais. Alguns destes meus melhores amigos, em situações de tensão financeira na minha vida, me abençoaram emprestando dinheiro ou limite de cartão de crédito.

Esses amigos já eram importantes por conta da ligação emocional que eu tinha com eles. Agora, para além da amizade emocional, a amizade financeira caracterizava a utilidade da relação. Mas me peguei esses dias perguntando: “e quanto à utilidade da amizade em si?”. Talvez porque eu tenha crescido sem muito essa noção de amizade alheia à família, não entendia bem que a amizade em si desempenha um papel extremamente útil às nossas vidas. A amizade colore, permite que possamos crescer enquanto humanos, é um terreno seguro para que possamos desvendar segredos e desmontar farsas que, socialmente, construímos acerca de nós mesmos. A amizade, em si, é muito mais útil do que qualquer utilidade de ação que ela desempenhe. Portanto, apenas a existência da amizade já caracteriza a sua utilidade sem mesmo que haja qualquer ação que garanta sua prova.

De alguma forma, levei isso para o divã da minha terapeuta. Indignado com situações emocionais que vivia onde as pessoas que eu conhecia reclamavam da minha personalidade, soltei: “descobri que amar é tipo uma amizade, a gente está com a pessoa do jeitinho que ela é, sem tirar nem pôr e é isso que caracteriza o quanto gostamos dessa pessoa, o quanto a aceitamos em sua totalidade e eu desejo que a outra pessoa também me aceite como sou”. Sob protestos de raiva, eu refleti: “não necessariamente é porque eu só tenha tido experiências mal sucedidas com essas paixões que não exista alguém que vá se comportar com esse nível de relação similar à amizade que tenho com meus melhores amigos, que não faça frente aos joguinhos relacionais e que se sinta à vontade para ser tão louca quanto eu”.

Após tais reflexões, notei que existem pelo menos quatro configurações possíveis para nós, enquanto humanos, em relações interpessoais, consideradas a partir da ótica da utilidade e da importância:

  • Úteis e importantes;
    • Gente que a gente precisa, que é imprescindível, que quando a gente fala sobre pessoas insubstituíveis, está falando delas – ainda que no fundo saibamos que ninguém é insubstituível. Gente que quando for embora de nossas vidas será como perdermos uma parte de nossos sentimentos. E mais que isso, será também uma desinstrumentalização de nossas vidas. Gente que vale a pena manter por perto, no mais alto nível de confiança e proximidade possível.
  • Úteis e desimportantes;
    • Gente que faz as coisas que a gente não sabe ou não pode fazer, mas que não temos ligação emocionais. Precisamos tratar essas pessoas com educação e carinho, mas sem forçar amizade ou qualquer outra coisa além disso. Se uma pessoa não é capaz de fazer você sentir falta dela, significa que há um nível de importância muito baixo atribuído por você à ela. Não é possível criar importância no outro. Ou ela é percebida pelo outro ou não é e ponto final. Gente como essa vale a pena ser bem paga e nunca deixarmos de retribuir, ainda que de modo não financeiro, o que nos fora feito. Tem gente que é extremamente útil porque nos ouve em uma situação de crise e dois dias depois, essa pessoa nos parece um estranho. Mas é importante que você saiba: há dívida com essa pessoa. Acerte logo.
  • Inúteis e importantes;
    • Há gente que não tem utilidade alguma para nós. Não precisamos pedir nem confidenciar nada a essas pessoas. Elas não desempenham nenhum papel relevante nas tarefas do nosso dia a dia. Entretanto, a vida sem elas seria diferenciada. Elas fazem falta. Aliás, elas são pessoas que parecem ter um pedaço de nosso coração. Podem ser pessoas que estão diariamente em nossas vidas, como também podem ser pessoas que já passaram por elas um dia e hoje estão de longe. Pessoas importantes merecem ser mantidas, mas é preciso troca de importância. Você precisa, também, ter um nível similar de importância para esse tipo de pessoa. Assim, as relações fluem, independentemente da distância. Alguns bons e melhores amigos se situam aqui. São pessoas para quem podemos nos derramar, sem nos importarmos se passou um ou cinco anos desde que nos vimos a última vez.
  • Inúteis e desimportantes.
    • Há gente que não tem utilidade e nem importância. Parece grosseiro, assim como as outras divisões que fiz acima. Mas é verdade. Há gente que não fede nem cheira. Gente que é morna. Gente que parece ser máquina, que não demonstra sentimentos, gente que só te procura pela sua utilidade e que não te oferece nada de volta, nem sequer atenção. Talvez você se ache melhor falando com um call center do que com esse tipo de pessoa. Gente assim merece de nós respeito e educação, mas não merece nada mais. Porque isso seria equivalente a estarmos dando pérolas aos porcos. Gente assim, repito, merece educação e respeito.

Assim como a matriz de Eisenhower versa sobre priorização, considerar a utilidade e a importância para definirmos ou compreendermos a profundidade e a tonicidade de nossas relações pode ser algo fantástico para que possamos ser relevantes nessa terra.

Agora vem a parte pior. Depois que você tiver feito toda a sua priorização, está na hora de ser útil e importante para outras pessoas. E isso precisa ser feito com doação. No meio do caminho, você encontrará pessoas que apenas vão querer sua utilidade e não agregarão importância a você. Você, possivelmente, irá chorar ou se sentir em um complexo de rejeição. Mas lembre-se: se você tiver aprendido bem o conceito de utilidade e de importância, saberá que você também prioriza e quando uma pessoa não te escolhe, ela apenas está não priorizando você. Isto nada tem a ver com quem você é, mas sim com o juízo de valor atribuído pelo outro a você.

Nesse processo, te desejo muita sorte e muita confiança em si mesmo. Mas além disso, coragem para a entrega, para se sujeitar à utilidade sem importância, para ser uma pessoa que entra e sai sem ser percebida nos ambientes e ainda, assim, dar o seu melhor. É difícil. Eu tenho dificuldades em permanecer em ambientes ou organizações em que não sou valorizado e falo por mim mesmo, é um processo longo, mas assim como eu estou no processo, só te convido a se jogar. Que você seja importante e útil à pelo menos uma pessoa na vida pelo máximo de tempo que puder ser, ainda que não seja importante ou útil a ninguém. Uma hora as coisas acontecem. Esteja sensível.

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Foto de Capa: Nappy/Reprodução

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