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Até quando menos é mais? Reflexões sobre minimalismo gráfico, arquitetônico e emocional

Para cada um dos tipos de minimalismo que narrei, trouxe uma condição básica da existência do conceito e a condição de perda ou de desfragmentação do mesmo com o passar do tempo. Menos é mais até quanto? Até que ponto o minimalismo é minimalismo?

O minimalismo foi um padrão gráfico muito presente nos anos de 2019 e 2020 no marketing a nível mundial. Menos elementos, uma até três paletas de cores somente, elementos em menor escala gráfica, pouco texto. Mas em algum momento, o minimalismo das artes gráficas parece que se perdeu do seu objetivo que era falar o necessário com o mínimo de elementos. Em algum momento, o minimalismo gráfico se tornou: falar nada e deixar dúvidas. Pipocaram, portanto, as dúvidas, as perguntas e um sem-número de gente ficava criando outras peças minimalistas para explicar coisa que numa peça só daria para ser explicada.

Outra aplicação do minimalismo que ainda tem garras fortes é na arquitetura e design de interiores. Menos elementos à vista, transição suave entre cores, elementos embutidos, compactos ou multiuso, uso da luz e do vidro como fator de facilitação da transição suave entre ambientes. Porém, novamente, em algum momento, o minimalismo do design de interiores perdeu-se do seu objetivo. A tendência que buscava oferecer o máximo de utilidade ao lar com o mínimo de elementos se tornou uma busca incessante por padrões essencialmente quadrados (no sentido geométrico e no sentido emocional da palavra) e deixava toda casa com cara de Instagram da Kardashian. Aí veio muita gente criando elementos que serviam a finalidades mínimas, enchendo o lar de itens que, juntados, encheriam um quartinho de despensa, coisa que o minimalismo visava exterminar.

E, não diferente de outros tipos de minimalismo, há uma aplicação desta tendência aos relacionamentos: é o que vou apelidar de minimalismo emocional, apenas para os fins deste texto. Menos ligações emocionais, menos pessoas sabendo de tudo sobre nós, poucas informações nas mídias sociais ou às vezes nenhuma mídia social, menos emoções e mais racionalidade na escolha de quem fica ao nosso lado. Só que, também, em algum momento, esse minimalismo emocional que ficou mais fortalecido a partir das implicações que a internet promoveu nas conexões entre pessoas, se perdeu de seu objetivo. Ter menos ligações emocionais significou frieza, desinteresse e utilitarismo, menos informações sobre nós significou a instalação da paranoia sobre o outro e um terreno fértil para os relacionamentos abusivos, e a racionalidade exacerbada fizeram tolher as emoções. Para suprir essa carência emocional que o ser humano tem, valeu-se de tudo: pessoas preteridas em detrimento de animais de estimação, trabalhos e realizações profissionais imergidas em emoção, substituição parcial ou total dos relacionamentos profundos por relacionamentos superficiais.

Para cada um dos tipos de minimalismo que narrei, trouxe uma condição básica da existência do conceito e a condição de perda ou de desfragmentação do mesmo com o passar do tempo. Menos é mais até quanto? Até que ponto o minimalismo é minimalismo?

Certa vez escrevi aqui sobre minimalismo. “Minimalismo não é ter pouco, é ter o necessário”, defendi no título. Para mim, que estou tentando vivem em parte este conceito, acredito que o minimalismo é sobre ter o necessário não se importando exatamente com o quanto o “necessário” significa.

Um exemplo simples e prático são as roupas. Há quase um ano atrás, quando me mudei para morar sozinho, trouxe mais de 50 peças de roupa entre peças íntimas até calças, blusas de frio, etc. Quando ficamos adultos, roupa passa a ser o único presente que ganhamos por ocasião de datas especiais, então com meu aniversário e o Natal, acumulei novas peças de roupa. Antes disso, porém, já havia feito um desfazimento de algumas peças de roupa que não usava mais – por estarem rasgadas, por estarem pequenas ou ainda por serem blusas de campanha não úteis mais.

Mas esse ano resolvi fazer uma nova alteração no meu modo de lidar com as roupas. Após observações constantes, percebi que não usava mais que cinco conjuntos de roupas durante a semana, com raras exceções. E estava lavando duas vezes na semana. Sendo assim, uma boa parte de minhas roupas ficavam paradas, sem uso. Então resolvi deixar uma peça de cada tipo de roupa para cada dia da semana. O excedente, que não foi muito, mas foi considerável, doei. Haviam ali peças relativamente novas, sem qualquer avaria, mas que estavam um pouco justas para mim ou ainda peças que eu não tinha muito apreço visual. Reduzi as minhas roupas e na primeira semana já percebi uma coisa bem legal: pelo fato de ter muitas roupas à disposição, mas quase não variá-las, eu usava quase sempre a mesma roupa durante a semana. Com essa redução, passei a variar mais. Mais estilo, mais beleza, mas rotatividade. Nesse caso, o menos foi mais.

Há quase um ano morando num apartamento de cerca de 29m², minha expectativa inicial era de que eu o consideraria pequeno após um tempo. Mas a verdade é que se eu pudesse viver num apartamento com metade da área deste, seria melhor. Menos espaço para limpeza, menos espaço para circular ar, menos espaço para iluminar. Comentei isso com uma conhecida que mora em São Paulo e ela afirmou: “você iria adorar o quarto em que moro”. No quarto dela, que é uma suíte, ela mora em um espaço de 11 m². Tudo bem que há cozinha compartilhada em outra área da casa e tal, mas imagino que mesmo que tivesse que ser nesse espaço pequeno, não seria tão ruim. Afinal, o nosso tempo na terra é finito e a conservação de espaços toma tempo.

O minimalismo, seja ele gráfico, arquitetônico ou emocional, não pode nem deve consumir a humanidade dos espaços e dos processos. E tampouco deve deixar de obedecer e servir ao seu objetivo principal. Se aplicar o conceito do minimalismo é dizer tudo, fazer tudo e ser tudo com menos, que assim seja. É totalmente nefasta a ideia de usar o minimalismo como pretexto para criar mais, trabalhar mais, comprar mais, ocupar-se mais, desligar-se mais. O minimalismo serve para nos ligar ao que realmente importante, ao que é essencial.

E essencialidade é um conceito individual quando se trata do que uma pessoa precisa. No contexto coletivo, em meio à pandemia, vemos uma discussão muito forte sobre o que é e o que não é essencial. Não é de meu mérito entrar nessa discussão. Mas deixo registrado que o que é essencial a cada um de nós é algo extremamente pessoal, que deve ser levado em consideração. Para algumas pessoas, é essencial ter um carro. Para outras, andar à pé supre a necessidade de mobilidade.

O minimalismo precisa e deve caminhar nesse âmbito da especialização, de existirem coisas para pessoas, para finalidades específicas. Todavia, especializar demais, segmentar demais, poderá levar a uma criação desenfreada que desemboca num sem-número de estruturas cansativas e em lixo absoluto. Se o minimalismo significar mais, é preciso que seja por ser menos e não por ser mais. Reforço: minimalismo não é ter pouco, é ter o necessário.

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