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Conexões raras: sensibilidade, devoção e intimidade

Eu tenho total certeza de que não tenho certeza alguma sobre o que esse amor traz. O amor acontece.

Há algum tempo eu vinha esperando que o amor batesse à minha porta novamente. Depois de muito sair e procurar por todos os cantos, eu resolvi, meio que sem outra saída, esperar. E ele chegou. Esse amor não veio a galope nem tampouco veio de foguete espacial. Mas é engraçado falar sobre esse amor que chegou porque ele não chegou, propriamente dito, mas ele está aqui.

Dentre tantas conexões que fazemos com novas pessoas, algumas são raras. Raríssimas, para ser mais assertivo. É fácil encontrar gente com as mesmas ideias que a gente? Relativamente, sim. Com os mesmos objetivos? Relativamente não. E com a mesma sensibilidade? Muito dificilmente. Pois é, mas às vezes isso acontece. E quando acontece, é súbito. É maior que a gente. Chega fazendo estragos.

Quem já experimentou o amor sabe que essa coisa toda que a gente fala aqui cai por terra na primeira ação. A gente volta a ter cinco anos de idade. Se infantiliza. Faz birra. Chora. Se emociona. O coração palpita. As mãos tremulam. A razão fica distante. Até os corações mais congelados derretem em tempo recorde. O amor constrange e eu creio fielmente nisto.

Desde que meu primeiro e único namoro se findou, eu conheci outras pessoas, mas nunca passei mais que meio dia com essas pessoas. No último ano, me envolvi em paixões irrecíprocas que me custaram várias sessões de terapia, mas acabaram sendo motivo pra sorrir depois que tomei a decisão de ir embora. Não ser correspondido foi horrível, mas também me permitiu que eu me conhecesse melhor e me preservasse um pouco mais.

Mas o amor chegou de novo. E o homem que mora em mim, novamente tremeu as bases. Esse amor chegou brigando. Metendo o pé na porta, levantando toda a poeira do tapete, lavando toda a roupa suja e, por vezes, descendo o cacete. Entretanto, a gente sempre sabe quando é amor. É um jeito diferente. Inexplicável, mas é diferente. Não tem jogo de interesse, não tem jogo emocional, são duas pessoas de verdade sendo elas, visceralmente e inteiras. “Conversa de manicômio e de baixo calão”, conforme assinalou um amigo para quem contei sobre essa situação.

O amor, todavia, não chegou querendo me mudar. Aliás, até quis, mas se arrependeu. E também não aceitou ser mudado. Porém ao invés de manipulações, uma conversa franca. Dura, mas franca. Parecia mais uma negociação de sequestro de tão forte que foi. E concessões feitas, aceitações decididas e o milagre acontece: o que incomodava já não incomoda mais. O diálogo salva relacionamentos. Confesso que no auge da minha imaturidade meu desejo e minha escrita penderam a fugir, mas respirei e suportei. Valeu a pena.

Porque quando é amor, vale a pena. Esse amor não tem nada de bobo e imaturo, mas por outro lado, é tão pueril que parece algodão doce. E acho que essa é a grande graça do amor: é ser tão indescritível que só resta a nós, que tentamos materializar os sentimentos e visões em palavras, as comparações ou metáforas. Esse amor parece novela mexicana, não tem um dia sem drama e todo dia é um episódio diferente. Tudo é exagerado, é transbordante, desde o estresse ao êxtase.

Há gente no mundo que não nasceu para se comportar bem e eu acredito muito que sou uma dessas pessoas. Comportar, significa, no mínimo portar-se de acordo com um padrão. E longe de ser o “desconstruído” ou “antissistema”, mas eu me vejo às vezes deslocado da maioria. Já me senti muito mal por isso, mas hoje não mais. Hoje tento enxergar as particularidades de cada um dos meus pares e, de alguma forma, me igualar a eles nas excentricidades diversas que cada um tem. Talvez enxergar a diversidade no amor tenha me feito encontrar alguém que seja tão parecida comigo e ao mesmo tempo, tão diferente, e mesmo assim darmos certo.

Esse amor que temos cultivado não tem nome. É uma amizade, mas não é colorida no termo padrão. É um namoro, mas não é bilateral. Não dá pra saber ainda que forma esse amor tem ou terá. Aliás, as coisas parecem ter parado no tempo. É uma das coisas maravilhosas que o amor faz: ele consegue causar letargia e ao mesmo tempo criar um senso de urgência. Letargia para aproveitar o momento e cada fase do processo. E senso de urgência para estar mais próximo, mais junto, mais comprometido, mais ‘inside of life‘. Esse amor não tem limites. Quando eu acho que ele está indo por água abaixo, ele ressurge num aceno transbordante. Quando eu acho que ele está se apagando, um vulcão se acende. Sem joguinhos, esse amor tá mostrando que dá pra sermos tudo que somos dentro de uma relação honesta.

Outra característica desse amor que advém de uma conexão rara é que ele não tem dia. Odeio profundamente quem tem dia certo de ser feliz, portanto, pra mim, se numa segunda-feira quisermos nos transbordar, iremos. Porque pra esse amor não precisamos escolher o dia. Estamos deixando fluir – não nesse sentido frio que a maioria acha que deve fluir. Às vezes a gente dá dez passos pra frente e vinte pra trás. E depois dá outros pra frente, e assim por diante. O amor está fluindo na sua ordem natural com total intervenção de nossas ações.

E sobre ações, o amor é ação. Por isso é tentar todo dia. Falar todo dia. Fazer dar certo. Entender as limitações. Falar o que incomoda e o que deixa de incomodar. Subir o tom quando precisar e pedir desculpas quando errar. Não há culpa nem medo. Mas mesmo assim, rolam lágrimas, gritos de raiva, xingamentos e tudo mais. Por quê? Porque somos gente. Podemos perfeitamente viver esse amor e ainda assim termos momentos de tensão.

Esse amor que chegou não me pediu nada, mas ao mesmo tempo me implorou. Esse amor não me fez requerer nada, mas ao mesmo tempo criou uma necessidade absurda dentro de mim que faz crer que é insuportável não saná-la. Eu jogo pesado no campo do amor desde sempre. A minha característica demissexual me permite ter menos curiosidade visual com corpos e mais curiosidade intelectual. Então eu pergunto e observo muito, gerando mais envolvimento emocional. Num primeiro momento, parece obstinação, doença, psicopatia. Mas num segundo momento, o amor se entrega, se rende e faz render.

De tão imponente que o amor é, ele se estabelece sem pedir permissão. Ele invade. Permeia o não dito. Permeia o dito. E permeia até o pensamento. Num primeiro momento, ele chega a sufocar. O amor das conexões raras não precisa de tempo. Em um dia ele é capaz de aprender mais que em um ano, se dedicado. O amor é constantemente refreado pelo ambiente externo – são os amigos, a família, o trabalho, os estudos. De alguma forma, isso é muito positivo, afinal: já imaginou se o amor se entregasse de forma mirim sem nenhum tipo de filtro? Não seria legal – e não é legal.

Mas o amor traz um contexto de segurança. Ruim com ele, pior sem ele, é o que se estabelece. Mas logo as coisas vão se ajeitando e torna-se mais aceitável a ideia do amor permanecer. Se realmente ficará, eu realmente não sei. Mas o amor que chega e faz uma limpeza, uma devassa, não procura ir embora logo, eu imagino. Esse amor pode ser capaz de quebrar muros e fazer coisas impossíveis se tornaram possíveis. O amor não precisa ser difícil, mas enfrentar as dificuldades do amor é a primeira prova que separa o amor das paixões.

Eu tenho total certeza de que não tenho certeza alguma sobre o que esse amor traz. E por mais que eu queira que ele fique, não forçar faz parte do processo. Por isso, me entrego em devoção absoluta. Porque se não ficar, eu já sei o caminho a ser feito. E se ele resolver ficar, meu sonho terá se completado novamente após anos na espera de poder amar direito e completamente. O amor que vem da raridade é sensível, devoto e íntimo, sem preço e sem mentiras. O amor acontece.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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