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A espera que constrói

A espera que constrói reconhece o medo. Reconhece a angústia, o desejo de morte, a ansiedade, reconhece tudo. Mas reconhecer não é sobre desistir. A espera que constrói é sobre fazer o que é certo, mesmo quando isso não dá certo, e ainda assim, continuar fazendo.

Não há nenhum dia desde que a pandemia se instalou no Brasil que eu não tenha pensamentos ruins. Acho que com você não é diferente. Mas se a pandemia trouxe luz à isso, me deparei com outra verdade: eu já era assim, já tinha isso, só ficou mais claro. Logo, passei a pensar no passado como uma referência e me encontrei com algumas verdades muito relevantes, mas uma delas é que há dois tipos de espera: aquela que destrói e aquela que constrói.

A espera que destrói é a procrastinação, a preguiça, o medo, a angústia, a ansiedade e o desejo de morte. A espera que constrói é a procrastinação, a preguiça, o medo, a angústia, a ansiedade e o desejo de morte. Não, você não leu errado. Não tenho muito gosto pelo niilismo, mas em parte parece ser isso. Pra mim, a espera não tem a ver com o momento, a situação, o que ocorre, mas como nós lidamos e tratamos essa espera.

Não sei se você passa por um tempo de esperas na sua vida ou se tudo já está acertado. Mas eu vivo um tempo de esperas. Chamei em outro texto esse tempo de “ainda não”. Tenho vivido solitariamente (o que não significa que eu não tenha família, amigos, pessoas que me amem, companheiros de caminhada, etc.) esse tempo sem enxergar além da penumbra. É tempo de incertezas.

No alto da minha juventude, eu queria muito estar vivendo uma vida mais tranquila. Eu realmente queria. Às vezes eu oro, como ontem à noite, pedindo que Deus me ouça e me indique um caminho na área mais desgraçada que ando tendo na vida (ainda mais que as finanças). E eu tenho certeza de que minhas orações chegam aos céus porque quem ouve é um Pai amoroso. Por mais que eu queira uma direção de Deus, eu seria hipócrita se dissesse que queria não ter passado pelo que passei e nem também que não quisesse estar onde estou.

Parece incongruente. A angústia, a ansiedade e a vontade de chegar logo numa vida mais diferente, mais organizada, mais segura e menos turbulenta. E ao mesmo tempo, a certeza de não querer estar em outro lugar e de ser feliz por ter passado tudo que passei. Se nem eu entendo, quanto mais você que lê. É aqui que se situa a espera que constrói.

Construir é aproveitar o tempo da espera para se conhecer, para comemorar as pequenas conquistar e para chorar todas as lágrimas. Construir é trazer pra dentro do sofrimento e da angústia algumas certezas sobre a impermanência e a necessidade das transições na nossa vida. A espera que constrói é sobre fazer o que é certo, mesmo quando isso não dá certo, e ainda assim, continuar fazendo.

A espera que constrói reconhece o medo. Reconhece a angústia, o desejo de morte, a ansiedade, reconhece tudo. Mas reconhecer não é sobre desistir. É sobre trazer pra conversa, pro diálogo, tudo isso. É sobre falar com o seu par sobre isso e ouvi-lo também. A espera que constrói nos torna mais humanos.

Como eu falo muito sobre relacionamentos aqui, faço uma metáfora para finalizar. A espera que constrói é reconhecer que ao se entregar numa relação para o outro significa precisar sofrer uma série de situações que, possivelmente, você não sofreria estando sozinho. É saber que tudo isso pode acontecer e ainda assim continuar. Porque a construção final é o amor. E a espera são os tijolinhos. Agora faz sentido usar aquela frase: junte todas as pedras que encontrou pelo caminho e faça um castelo. A espera pode ser construtiva. Continue.

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