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Comportamento

O aperfeiçoamento pelo estresse

O estresse é, portanto, na pior das hipóteses, um mal inevitável. Podemos abreviar o estresse. Não há gente perfeita e enquanto humanos precisamos tirar o melhor do inevitável estresse para nos aperfeiçoarmos.

Andamos diariamente estressados com toda a correria. A pandemia tratou de potencializar ainda mais o estresse. É preciso tomar cuidado com o que falamos, a forma como falamos e principalmente como agimos, pois isso pode ser um fator de estresse para nós mesmos e para outros ao nosso redor. Entretanto, existe um outro tipo de conceito importante para o estresse: aquele que acontece quando o limite é tocado, quando o melhor é feito e quando o condicionamento físico e mental alcança seus melhores níveis de uso.

Antigamente, era muito comum os carros precisarem ter os seus motores ‘amaciados’. Isto por um motivo simples: enquanto não estivessem amaciados, eles gastavam mais e andavam menos – pelo menos foi isso que ouvi de todo mundo ao meu redor ao longo do tempo. A propósito, sempre achei que essa história era conto de quem gostava de carros carburados e acabava reproduzindo o mesmo em carros de injeção eletrônica. Mas um dia eu tive um carro. E parte da minha percepção mudou.

Quando comprei o carro, fiz uma revisão inicial nele. Foi cara, mas valeu a pena. Depois troquei os pneus. Agora ele estava 100%. Porém quando eu o colocava na rodovia, sentia algum engasgo, alguma dificuldade na subida. E como nunca tive pé leve, pisava ainda mais. Passei a estressar o motor do carro, levando ele à alta rotação. Motores Fiat trabalham em baixa rotação e tendem a gastar menos. Eu colocava ele em alta rotação e isso fazia ele gastar mais. Todavia, o resultado era um veículo que me dava o que eu pedia no pé. Com um pouquinho de esforço, aprendi a trocar todas as marchas levando em consideração apenas a rotação: foi o caminho sem volta para hoje dirigir somente assim. Mais adiante eu capotei esse veículo e não foi – pelo menos não na totalidade – culpa da velocidade. Entretanto, nesse breve período de tempo que tive um veículo, o estresse do motor me fez tirar algumas conclusões.

No resto da minha vida, levei muitas situações a ponto de estresse máximo. Algumas involuntariamente, outras voluntária e decididamente. De algumas situações, me arrependo. De outras, pelo menos até o momento, não. Em todas elas, no entanto, notei um aperfeiçoamento. E é sobre aperfeiçoamento por meio do estresse que eu quero discorrer nos próximos parágrafos.

Cada pessoa trabalha de uma forma, mas é possível colocar as pessoas em grupos. Há quem trabalhe melhor sob pressão e quem trabalhe melhor com entregas flexíveis. Eu tenho capacidade de trabalhar sob pressão de meta e em situações de crise, todavia tenho dificuldade imensa com cobrança, sobretudo quando o assunto é prazo. Trabalhar com prazos é algo que me gera uma ansiedade muito forte, pois ou eu vou fazer na primeira hora e entregar com muita antecedência ou vai ser feito no último minuto. Em contraponto, flexibilidade é uma armadilha pra mim: se eu não tiver liderança para apontar o caminho e poder discutir os limites da flexibilidade, isso pode significar mudanças bruscas de rota. Descobrir essa minha impulsividade foi um achado e devo isso à observação, mas também e principalmente a um mapeamento de perfil sociocomportamental que fiz, um presente do CEO da MineraRH Talentos Geniais.

E trabalhando sob pressão, muitas vezes em eventos, eu aprendi algo fundamental: se algo é responsabilidade sua, não há outra pessoa que possa tomar decisões sobre o que você irá fazer. À você será dado o crédito do fracasso ou da vitória. Portanto, se algo é total responsabilidade nossa, isso está literal e totalmente sob nosso controle. Sei que às vezes assusta pensar isso, mas também nos dá uma certa paz. Se o computador não funciona, por exemplo, quem manda nele somos nós. Ele não tem opinião própria, por mais que às vezes pareça querer ter.

Ter as coisas sob nosso controle também pode nos levar à uma ansiedade. Desconfio, verdadeiramente, de quem diz que leva uma vida despreocupada. Não porque eu não acredite em você que diz levar a vida assim, mas porque eu não acredito, do meu ponto de vista, isso ser possível. E se já estamos incapazes de responder de forma eventualmente diferente, é hora de calcular o que fazer para melhorarmos as nossas capacidades.

É hora do estresse. Aqui lembro de um treinamento que fiz com a pequena e adolescente equipe de comunicação que eu coordenava numa igreja em que congreguei por quase uma década. Trabalhávamos o procedimento de troca de pilhas, eventual troca de cabos, substituição de microfones, ajuste de retorno de som e outros procedimentos corriqueiros que aconteciam nos cultos. E eu cronometrava. Fazia uma vez. Ensinava. E havia ali um momento de pressão porque o relógio corria, mas ao mesmo tempo, um procedimento operacional padrão a ser feito. Nenhuma etapa deveria ser anulada. Os procedimentos eram feitos de forma padronizada para economizar tempo e diminuir o impacto sobre as cerimônias. O templo era grande, o equipamento de som era de razoável qualidade e agilidade era uma palavra-chave. Todo mundo já sabia como fazer, mas estavam ali treinando para fazer melhor. Em algumas vezes, alguns chegavam a suar naquelas simulações. Estavam ficando prontos para atuarem em tranquilidade na hora em que a coisa estivesse acontecendo de verdade. Até hoje pessoas que ensinei estão nesta igreja. Se funcionou o treinamento, é melhor ver com elas.

Mas para mim, é assim que podemos fazer: treinar. Só que diferente da situação que elenquei acima, na vida prática muitas vezes não temos um espaço e momento de treinamento. O treinamento já é, em si, a própria situação prática. As escolas brasileiras, em especial algumas privadas, levam em consideração alguns poucos conceitos do método Montessoriano, que acho bem bacana e pode concorrer com o método Freireano sem qualquer problema. E dentre os conceitos está a simulação, em sala de aula, com o objetivo de promover o aprendizado lúdico, de situações corriqueiras da vida de um adulto, como por exemplo, lavar roupas, organizar e guardar brinquedos em um armário ou ainda fazer comida, tudo isso sem distinção de gênero, o que é muito importante. Seria bom que tivéssemos um bocado de situações que levassem em consideração os conflitos e outras coisas muito comuns que temos na vida.

Se a própria vida é um treinamento, infelizmente a verdade é que podemos – e provavelmente vamos – errar muito até acertar. Em relações interpessoais de qualquer natureza, a fala é um instrumento de construção das ações, do entendimento e da própria relação de confiança estabelecida entre um e outro agente da comunicação. Se não há fala, o elemento observador supre de modo inconsciente e muito incapaz de alcançar níveis satisfatórios. Há espaço então para a suposição. A dúvida que uma pergunta não feita deixou existir ou que uma pergunta não respondida fez criar pode prejudicar a construção de uma relação verdadeira e sincera. Desde pequeno, eu sempre gostei de falar muito. De conversar demais. Lia muito, era curioso e observador. Esse ímpeto, no entanto, escondia algumas situações hoje bem claras: sempre falei muito sem profundidade, poucas vezes conseguia falar de meus sentimentos e quase nunca conseguia ter conversas profundas. Se há algo que mudou a minha vida com relação a isso foi o meu primeiro e único namoro.

Embora eu fosse um algoz na relação, tenha tido comportamentos abusivos e muita imaturidade emocional para lidar com tudo, foi antes, durante (principalmente) e depois dessa relação que eu tive condições de enfrentar todas as situações indelicadas apontadas acima. Antes do namoro, eu precisei quebrar a barreira da fala sobre os sentimentos – simultaneamente devo isso a um processo de recuperação espiritual em que balizei melhor minha vida e encontrei-me com um eu um pouco menos arrogante. Durante o namoro, precisei enfrentar as conversas profundas por horas, com silêncios, pausas, abraços, lágrimas, beijos, gritos de raiva, olhares furiosos ou carinhosos, conversas que por mais infrutíferas que pareciam ser já que eu não mudei meu jeito de ser com minha então namorada e o namoro não evoluiu para o casamento como desejávamos, estavam me construindo humanamente falando. Não era um teste, porém, era a própria vida me treinando. E após o namoro, precisei encarar as coisas na sua profundidade. Precisei ouvir, olhos nos olhos, minha ex-namorada detalhando os motivos que levaram à derrocada do nosso relacionamento e precisei vê-la apartar-se de mim para sempre, tendo como certeza de que aquilo era o melhor para ambos. Precisei reconhecer muitos fracassos, derrotas, e ao mesmo tempo vitórias também. Precisei passar a dominar melhor alguns assuntos e a saber mais que boa parte dos que já “ouviram falar”, estudando, aprofundando a materialização do conhecimento teórico e prático, além, é claro, de ensinar, o que faz com que a profundidade comece a ser mais sentida.

Em todas as situações acima, o estresse foi algo constante. Precisei chegar ao cúmulo de uma depressão aliviada com remédios para aprender a demonstrar e falar sobre meus sentimentos. Precisei acumular quatro términos numa relação de praticamente quatro anos para mergulhar em profundidade quanto a assuntos necessários. E precisei me encontrar falido financeiramente, em desordem mental e com muita desesperança emocional para encarar a realidade como ela era e passar a falar em profundidade. Foram situações que exigiram de mim o limite físico, emocional e circunstancial. Nesse processo todo, pessoas seguiram seus caminhos longe de mim, outras se agregaram e ainda outras seguem seus caminhos paralelamente a mim.

O estresse tem todo o seu lado ruim e não deve ser estimulado quando sentimentos e pessoas estão em jogo. Entretanto, quando a situação está posta, precisamos pelo menos tentar tirar algo de aprendizado da desgraça em que estamos imergidos. E dessa desgraça toda, eu entendo que, apesar de tudo, o estresse aperfeiçoa.

Tolstói disse que “aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. Eu compactuo com a frase do autor russo. E shakesperiano que sou, acredito que situações levadas ao limite, como revela a tragédia romântica de Romeu e Julieta, são um traço de loucura, mas ao mesmo tempo, uma marca irrevogável do que é viver ao máximo, no limite. Parafraseando Tolstói, poderia dizer que “uma pessoa que deu o seu melhor e foi até o fim em alguma situação sabe mais sobre essa situação do que aqueles que, cautelosamente, tentaram em várias e nunca fracassaram”. Corroboraria para isso uma frase minha que diz: “apenas quem não tem nada a perder tem tudo a ganhar”, logo, ao que está fracassado, só lhe resta a morte ou a vitória e enquanto há vida, há esperança.

Tenho insistido, com algum grau de repetição, aqui no blogue sobre sermos intensos e irmos até o fim com as coisas. E isso nada tem a ver com não desistir e sim com dar o melhor. Privilegiado que sou, costumo estar rodeado de gente que entrega o seu melhor em tudo: na vida profissional, amorosa, espiritual, familiar, etc. Mas há um de meus melhores amigos que esses dias me deu uma fagulha muito significativa de esperança sobre o quanto essa coisa de dar o melhor é importante. Isso me deu um gás, inclusive, para seguir com algumas situações no meu trabalho aguardando que o resultado seja similar.

Esse amigo trabalha numa empresa de desenvolvimento de software. Já havia sido estagiário, se tornou trainee e logo em seguida, assumiu um cargo de terceiro nível. Seu salário, comparado o de estagiário para o atual, é quase cinco vezes maior. Comemoramos muito quando ele conseguiu esse cargo. Era um passaporte para que ele pudesse se organizar financeiramente e ajudar sua família, que precisava muito do suporte dele. E com o bom trabalho que ele vem desenvolvendo, ele foi notado por uma outra empresa. Fez os testes e recebeu uma proposta boa. Trabalharia para uma empresa internacional. Me contou isso e fiquei muito feliz, mas argumentei: “você é muito bom funcionário, sua empresa atual não vai querer te deixar sair”. Quando ele foi conversar com a chefia para pedir contas, ficaram desesperados. E na ânsia de mantê-lo, revelaram e-mails trocados pelo chefe da sua unidade com a sede da empresa: a promoção dele estava garantida antes mesmo de ele pensar em ir embora. Ele vai ficar na empresa. Consequentemente, seu valor para a empresa sobe não só financeiramente, mas de prestígio também. E isso é um dos fatores muito importantes para a satisfação do funcionário na empresa. É importante frisar que ele começou nessa empresa como estagiário. E com certeza, ele passou por muito estresse e situações de desconforto. Mas foi exatamente por dar o melhor e por ser referência, por buscar estudar e aprofundar-se mais e mais, é que foi reconhecido. E ele reproduz essa capacidade de dar o melhor em tudo: no seu namoro, é um exemplo; em casa com a família, dá o melhor suporte possível; na sua relação com os amigos, é cuidadoso e generoso; nos rolês, é sensato e topa tudo que é lícito e possível.

O estresse é, portanto, na pior das hipóteses, um mal inevitável. Podemos abreviar o estresse. Há situações que demandam de nós coragem para agir e abreviar o estresse. Há outras em que o estresse pode ser instrumento de construção e, por isso, torna-se possível deixar que as coisas fluam. Há discussões que precisam ser travadas e adiá-las ou adiar o confronto verbal é algo totalmente nefasto conosco mesmo e com os outros. Há situações que precisam ser enfrentadas de frente, mesmo com medo. Há abusos que precisam ser parados, há comportamentos que precisam ser confrontados e erros que precisam ser aludidos. Nossos e dos outros. Não há gente perfeita e enquanto humanos precisamos tirar o melhor do inevitável estresse para nos aperfeiçoarmos.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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