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Pra você que já foi trouxa

No final, você terá acumulado amores que marcaram a sua vida e estará pronto para amar direito – se é que isso é possível. Estará seguro de si. De quem é, de seus defeitos tratáveis e dos suportáveis. Se você foi trouxa, resolva seus erros e siga. Um dia dá certo!

Numa das minhas tantas sextas-feiras pouco agradáveis, resolvi dar uma respirada e comemorar uma das melhores semanas desse meu 2021 – afinal todo dia é tragédia no mundo, desgraça no Brasil e isso acaba se reproduzindo também nas nossas vidas. Fui para o chafariz de uma praça tradicional da cidade e por ali permaneci pensando enquanto deliciava-me com um sorvete e, posteriormente, com um refrigerante.

Algumas cenas neste dia me fizeram tomar a rédea de alguns pensamentos que, até então, se situavam em um espectro de vitimismo. É infrutífero, porém, o vitimismo porque ele não produz mudança, no máximo algum tipo de afago externo (quando existe!). Mas o que é o contrário do vitimismo?

Tive que aprender, graças a um bom amigo doutor em Computação que havia lido isso de outra pessoa, que se há dor legítima, ainda que imotivada, não é murmuração, é lamento. E, portanto, eu lamento que em algum momento nós sejamos trouxas em alguma situação na vida.

Enquanto escrevia este texto, uma pessoa que teve uma passagem marcante na minha vida, dialogava comigo no WhatsApp. Ela argumentava, entre outras defesas, de que apenas o conjunto de roupas deveria ser considerado trouxa, não as pessoas.

Ao escrever o título deste texto, eu penso no uso mais popular da palavra trouxa e não no seu significado literal. Portanto, trouxa, para a definição deste texto é o termo para uma pessoa que passou por situação de engano, de triste perda, de ação ineficaz numa relação que poderia ter funcionado bem se ambos estivessem jogando limpo.

Eu sei que é horrível quando passamos por uma situação de crise emocional na qual nos vimos enganados por outras pessoas ou tomando atitudes desconcertadas ou descabidas com alguém que não merece nem está na mesma sintonia que nós. Todavia, sempre temos alguma parcela de culpa. E ao contrário do que parece, conhecer a nossa parcela de culpa também é necessário para que consigamos entender a parcela de culpa do outro e, balizar de forma justa, o quão edificante aquela situação foi nas nossas vidas.

Já marquei encontro e levei um bolo. Já pedi em namoro e fui negado. Já achei que alguém gostava de mim sem que, de fato, gostasse. Já tratei pessoas cujo me interessava como se fossem pessoas que já estivessem comigo. O resultado dessas desastrosas histórias que, numa roda de amigos, parece ser bastante alegre, pode ser um comportamento depressivo e vitimista, conforme anunciei no início do texto.

Tendemos a dizer e achar, de pronto, que toda a culpa é da outra pessoa. E há razão para isso: geralmente nos entregamos de forma inteira e dedicada e esperamos que a outra pessoa se posicione com o mínimo possível para que a coisa ande. Mas tem gente que sente a conta-gotas e aí, pronto, está feito o ambiente propício para o lado mais fraco, mais vulnerável, se tornar o lado trouxa.

Se, porém, ficarmos dedicados somente a pensar no ‘nós’ contra ‘eles’, enlouqueceremos sozinhos, ilhados e totalmente incapazes de nos relacionarmos novamente. É preciso aprender a reconhecer a derrota, os erros e principalmente a parcela de culpa própria. Só podemos lidar com o que está sob nosso controle – e é muito pouco.

Por isso, onde há uma pessoa que se julga trouxa, há também alguém que se entregou demasiadamente a um amor mirim (veja bem, não se julga se é amor ou não, parte-se do princípio que é, apenas não é amadurecido). Há alguém que acha que todo mundo é igual a si – e não reconhece as diferenças da espécie humana, tão diversa em seu âmago. Onde há um trouxa, há um homem que acha que sabe tudo sobre as mulheres. E onde há uma trouxa, há uma mulher que acha que sabe tudo sobre os homens. Onde há uma pessoa que se julga trouxa, há alguém que não sabe ou que foi displicente nas interpretações necessárias dos comportamentos humanos.

Mas não é o fim. Não há pessoa que tenha sido trouxa que tenha culpa total em tudo. Por isso, com algum esforço é possível identificar a culpa do outro. Mas eu vou insistir que evite e foque nas coisas boas que viveu e que fortifique as qualidades da pessoa que colaborou para você ser trouxa (isso tem um motivo que você descobrirá ao fim deste texto). É importante tratar apenas e somente da sua culpa. Você terá muito trabalho a fazer, se concentre nisso.

Porque a pessoa que é trouxa é uma perdedora. Mas só é perdedor quem disputou, lutou e perdeu. Quem desiste é desistente, não é perdedor. A pessoa trouxa perdeu, mas foi até o fim e, como em outros textos, tenho sido enfático sobre a necessidade de irmos até o fim em tudo que é possível. E por fim, apenas quem não tem nada a perder, tem tudo a ganhar. Quem já perdeu parte do princípio que ganhar é a única mudança possível e que perder é aprender e ficar melhor.

Mas por outro lado, se tem alguém trouxa que é perdedora, há outro alguém que, em princípio não é trouxa, que venceu. Em mundos ideais – como é pensado o mundo romântico – se espera o ganha-ganha e não o ganha-perde. Acontece que nem sempre o mundo ideal se parece com o mundo real e, apenas os anos e as experiências vividas, nos permitirão ter a certeza de que às vezes vai rolar um ganha-ganha, mas em outros momentos vai ser uma relação de ganha-perde. Retomo, porém, a ideia da pessoa ganhadora, afinal, o que pensa alguém que ganha pela derrota de outrem quando o objetivo era chegar junto?

Sim, o objetivo era chegar junto. E eu vou responder o que a gente ganha fazendo outra pessoa de trouxa porque eu também já fui algoz de relações: ganhamos uma sensação temporária de poder e controle seguida de forte vazio e de arrependimento. Talvez seja um vazio tão inexplicável que a descontinuidade desse parágrafo consiga reproduzir.

Lembro-me, neste momento, de um TED da Rafa Brites sobre amores mesquinhos, que reproduzo abaixo e considero fundamental sua atenção antes de continuar esse texto. Se ficar pelo vídeo, também está ótimo.

Agora se você foi trouxa e já resolveu o que errou, deixa o resto rolar. Tá, vai doer. Você vai ficar sozinho e vai desejar demais ter alguém do seu lado. Mas como você está vacinado contra a carência desesperadora que cega o seu filtro, você fará qualquer outra coisa pra aguentar até passar porque não se permite se apaixonar ou se dedicar a alguém que não valha a pena. Você vai ser considerado, muitas vezes, infantil. Irão te dizer que você acredita demais nas pessoas e que deveria ser mau com quem te trata mal. Você vai dar de ombros e pode até tentar ser o que não é: não vai dar em nada. Você pode até aprender a jogar os joguinhos emocionais, mas vai ser infrutífero. E logo você vai se reconhecer novamente uma pessoa perdedora – mas diferentemente de outras, não uma pessoa perdida. Você sabe para onde vai, o que quer e como quer. Trabalha por isso. Você é do clube dos que dizem: “eu tenho um plano, você vem comigo?”.

No final, você terá acumulado amores que marcaram a sua vida e estará pronto para amar direito – se é que isso é possível. Estará seguro de si. De quem é, de seus defeitos tratáveis e dos suportáveis. Chegará na primeira conversa e jogará tudo na mesa. Não se desesperará quando o seu amor quiser ir embora, pelo contrário, ficará de pronto com a porta aberta para que o amor volte e não sairá à busca de amores antigos e já cicatrizados. Outrossim, você também poderá ser uma boa amizade. Considerar sempre as qualidades das pessoas que te fizeram trouxa irá te conduzir a um processo de reconhecer, na produção da dor, alguma virtude. E essa virtude se tornará em reconhecimento para o outro de quem ele é. Há pessoas que são raras, importantes e especiais. Isto precisa ser verbalizado. Pode ser que você seja a única pessoa, em toda a existência humana delas, a dizer isso de forma clara à elas. E aí, eu te pergunto: quando o amor que vale a pena chegar, ver você com todo esse know-how e com esse histório, o amor vai se sentir seguro e em paz ou ele vai achar uma casa bagunçada, cheia de traumas e de arestas a aparar? Segurança e paz tem algo a ver com paciência e bondade, os pilares do amor. E construção que se constrói junto… Termina mais rápido. Talvez isso justifique muita gente que foi trouxa em vários relacionamentos e com seis meses de namoro já se casou com uma pessoa que a levou a sério e aceitou o pacote completo do outro. Porque o amor, quando encontra casa, não suporta esperar. Se você foi trouxa, resolva seus erros e siga. Um dia dá certo!

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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