Categorias
Relacionamentos

Uma carta sobre o amor

E por fim, eu diria que você jamais desistisse do amor. Porque vão acontecer dias em que esta parece ser a única solução pra uma vida possível. Mas é ledo engano. O amor sempre ganha. Sempre.

Antes de mais nada, esse é um produto de uma das tarefas mais difíceis que eu já tive nas sessões de terapia. Já precisei enfrentar muitas situações que doíam e me paralisavam, mas essa talvez seja a pior: falar sobre o amor como se eu estivesse falando a mim enquanto criança. É o que vou tentar fazer.

Eu começo dizendo que o amor não deve ser entendido apenas racionalmente e que ele seja separado da paixão e do afeto. Afeto a todos, paixão a muitos e amor a poucos. Nem afeto nem paixão nem amor são proibidos, mas à medida se avança há consequências. Jamais negue-se afeto nem negue a outro. Saiba viver as paixões com uma boa dose de lucidez. E viva o amor com calma porque a paciência é um de seus pilares.

O amor não é sobre um toque de mãos, um beijo quente ou uma noite de sexo. Não é sobre estar disponível sempre nem tampouco sobre dizer sim sempre. O amor também não é sobre ter, fazer, conquistar, merecer. O amor é sobre o inexplicável e quando lhe faltar palavras para tamanha alegria, conforto ou disposição, pode-se então denominar isso de amor.

Eu diria ao Bruno, criança, que o amor não é o que você vê na tela da TV nem o que você vê na casa dos seus pais. Também não é sobre o que falam. É sobre o que vivem. O amor também não é sobre um casal, mas sim sobre o que esse casal produz a partir de sua união. O amor não é sobre riqueza abastada nem tampouco sobre pobreza orgulhosa.

Diria que não se assustasse quando visse o amor se fantasiando de briga. Pois logo em seguida ele deveria tirar sua fantasia e voltar a ser doce, pedir desculpas e reconhecer que errou. E se não tirasse sua fantasia, que já não o considerasse amor. Porque o amor busca acertar tudo antes de dormir, mesmo quando os humanos que permeiam uma relação estão totalmente errados.

Diria também que se emocionasse a cada casamento que fosse e que desejasse com todas as forças viver aquilo, pois você é melhor acompanhado que sozinho. Diria que tapasse seus ouvidos quando te dissessem que o amor está falido ou que não vale a pena compromisso nos dias de hoje, pois quem fala contra o amor tem boca satânica – e não precisa ser cristão pra achar isso.

Eu diria que se concentrasse em entender que o amor da sua vida não é uma pessoa, mas sim um conjunto de características essenciais e outras acessórias. Também diria que não se exasperasse nem que também fosse letárgico demais quando uma oportunidade de conhecer alguém nova batesse à porta. Diria para esperar com paciência, mas sem perda de tempo.

Diria que você poderia, sim, ter tido seus primeiros relacionamentos amorosos na adolescência, que não precisasse esperar a vida adulta para começar a tê-los. Mas também que não teria problema algum se fosse tocar os lábios de uma garota aos quase vinte anos ou até mais que isso. Diria que você poderia ir no seu tempo, sem pressa e sem pressão.

Também diria que o amor tem algo que, embora não seja explicável, é sentido: a gente sempre sabe quando a outra pessoa não quer nada. E eu diria que fosse sensível consigo mesmo quando encontrasse esse tipo de gente pelo caminho. Sensível para saber se resguardar e não sofrer tanto, mas também para dar amor de forma que ninguém nunca deu à essa pessoa, assim de forma tão gratuita.

E por fim, eu diria que você jamais desistisse do amor. Porque vão acontecer dias em que esta parece ser a única solução pra uma vida possível. Mas é ledo engano. O amor sempre ganha. Sempre.

***

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Comente! Aqui é o lugar!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.