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Comportamento

Sobre a sensação de ser aguardado

É gostoso demais saber que alguém brilha os olhos ao nos ver. É muito importante também que seja verbalizado quando esperamos alguém, quando fazemos questão de alguém.

Esses dias ao chegar ao trabalho, a faxineira ouviu meus passos e veio ao meu encontro dizendo: “estava esperando você chegar”. Argumentei com ela que era muito bom ter a sensação e saber que alguém me esperava. Como essas viagens de frases simples e corriqueiras podem render boas reflexões, resolvi trazer isso para cá. O que se segue é uma reflexão sobre algo que estava muito presente nos tempos pré-internet e agora, com o imediatismo provocado pela conexão de ponta a ponta do mundo em milissegundos, praticamente não se vê mais.

Tradicionalmente, em tempos medievais, os ritos de passagem eram muito aguardados pela família, pelos filhos e por toda uma comunidade. Com a ausência de registros escritos ou audiovisuais sobre as tradições, a maioria dos ensinamentos eram feitos de forma oral e por isso era necessário que um conjunto organizado de ensinamentos formassem um indivíduo para dar continuidade à tradição que, geralmente, era o motor de algum negócio. Não à toa ainda nos dias de hoje, se buscarmos famílias mais conservadoras, veremos que receitas que nossas mães fazem foram passadas pelas avós, bisavós ou tataravós.

Entretanto, essa formação não era coisa de um único dia, mas de anos. Por isso, os ritos de passagem eram aguardados. Numa sociedade em que o casamento era arranjado pela família, havia também uma expectativa pelo noivo ou pela noiva. Afinal, nenhum dos dois sabiam exatamente quem seria o parceiro escolhido pelos pais. Quando se vai para os negócios, filhos eram treinados por seus pais para assumirem os negócios a partir da morte ou incapacidade de seus pais. E estes também criavam seus filhos naquele mesmo sistema para dar continuidade. É possível ainda hoje encontrar famílias inteiras que mantenham negócios familiares há quase ou mais de um século.

Partindo para os dias atuais, a espera passou a ser algo que nos dá ansiedade. A espera deixou de ser um tempo de preparação e passou a ser um tempo de angústia. Não há como lutar contra isso nem querer reproduzir os modelos medievais em nossa sociedade. É irritante quando alguém defende isso. Mas é possível lançar-se num olhar mais demorado sobre esse assunto. Por que a espera nos angustia? E por que não esperamos mais?

Há algum tempo me mudei da casa dos meus pais e no apartamento que aluguei não tinha nada de benfeitoria. No contrato com a dona do imóvel, fiz um ajuste: pagaria menos pelo aluguel e em contrapartida faria algumas benfeitorias. Contratei um armário de pia para a cozinha e para o banheiro. O marceneiro me prometeu entregá-lo em menos de 30 dias. Já são 5 meses e até hoje não está instalado. Até o segundo mês de espera eu estava angustiado. Cobrava o marceneiro pelo menos duas vezes na semana. Mas eu parei de cobrá-lo. Comecei a me perguntar se eu realmente precisava daquele armário naquela hora e a conclusão foi que não. Portanto, eu estava fazendo pressão desnecessária sobre um profissional que tinha tido sua equipe quase que toda afastada devido a contaminação com o coronavírus.

Por mais que queiramos demais algo, nem sempre o teremos. Apesar de não ser nem um pouco místico, eu acredito que o mundo é misterioso. E algumas coisas simplesmente estão totalmente fora de nosso controle. E nos resta lidar com isso. E acredito que é justamente aqui que mora a chave de tudo isso que estamos falando: ao requisitar para nós um controle absoluto, inclusive sobre o que sabemos ser incontrolável, perdemos o gosto, o interesse e consequentemente tudo que a espera traz de bom.

Ninguém gosta de ser feito de besta. E não é sobre isso que eu falo. É sobre se sentir privilegiado porque alguém o espera. É como se esse alguém dissesse: olha, eu posso fazer sem você, mas prefiro fazer contigo. Ou ainda que dissesse: eu até consigo fazer sem você, mas com você é melhor. Daí renasce a esperança no afeto e na capacidade inclusivista que a colaboração, o fazer juntos, oferece.

É bom saber, por exemplo, que somos aguardados em um evento. Tem gente que gosta de fazer sentir a ausência. Eu gosto de fazer sentir a presença. Se eu pudesse estaria presente em todos os lugares a que me convidam a estar. Mas em alguns lugares não posso ou não devo ou ainda é melhor não estar. E dizer que não vai e não deixar alguém esperando faz parte da transparência necessária.

É gostoso demais saber que alguém brilha os olhos ao nos ver. É gostoso demais sentir aquele abraço quente e caloroso. É muito importante também que seja verbalizado quando esperamos alguém, quando fazemos questão de alguém. Dizer: “olha, eu te espero lá”. Ou ainda: “eu conto com sua presença”. É bom se sentir aguardado.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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