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A imperfeição humana na afetividade – uma reflexão sobre “Bilhetes”

Essa música é sobre a imperfeição humana. Escancarada. Absurdamente falada. E poeticamente composta. A imperfeição que ajuda a não sermos piores que ontem nem melhores que ninguém.

Em mais uma das madrugadas insones, dentre inúmeros títulos possíveis e textos que são maturados diariamente nas minhas entranhas cerebrais, eu me ponho a escrever sobre a minha música favorita do meu cantor favorito: “Bilhetes” de Tiago Iorczeski (ou Tiago Iorc).

Antes de falar sobre a música em si, é importante falar sobre imperfeição. A perfeição tem me enojado de algum tempo para cá. E os motivos são claros e óbvios: eu ficava o tempo inteiro à busca de uma perfeição inalcançável, por vezes me achava “o cara” e nunca entregava nada além de atitudes irresponsáveis e pouco coerentes com o que eu defendia ser. Fato é que eu não me conhecia e essa é uma característica central de quem afirma ou tem busca incessante pela perfeição inalcançável: o profundo desconhecimento sobre si mesmo leva à vontade imediata de falsear isso com uma suposta identidade autoconhecedora, forte e, por conseguinte, inabalável e muito próxima da perfeição. Ainda bem que a vida geralmente se encarrega de colocar a gente com o rosto em terra pra entender que “tudo que chega no fundo do poço, inevitavelmente melhora”, conforme preconiza uma música da Banda Tópaz.

Eu tenho várias distorções quanto à afetividade. Às vezes “frio” demais. Às vezes “quente” demais. Essas distorções, no entanto, são comumente encontráveis em outros seres humanos. O que torna isso algo tratável. Não é à toa que nos últimos anos tenho feito terapia e tenho evoluído – com algum grau de lerdeza, mas tenho.

O meu último romance que acabou não se tornando nenhum relacionamento (mas que é digno de adaptação para formato de novela mexicana) expressa rapidamente o que quero dizer. Recentemente, numa daquelas conversas de lavação de roupa suja mais de quatro meses após o êxtase da história, a pessoa me disse: “você precisa dosar sua intensidade”, e entre outros argumentos que ela usou, ela disse que as atitudes que tomei com ela a assustaram. Essa pessoa chegou a cogitar que eu quisesse roubar os órgãos dela (sic) ou que a estivesse perseguindo. Cogitou uma medida protetiva em seu favor ou um boletim de ocorrência se eu aparecesse na casa dela de surpresa, como na última vez em que levei um açaí no fim de uma noite. Guardados os exageros da fala e dos momentos de estresse, essa história chegou a um tom claramente perigoso e desagradável e fiz questão de me afastar, deixando claro que era exatamente essa tônica do medo que justificava esse afastamento. Antes de se cogitar que isto é fuga: mandei à ela algumas informações pessoais minhas como uma forma de deixar claro que eu não pretendia nenhuma maldade com ela e que se ela precisar, de fato, acionar os órgãos protetivos, tem tudo que precisa sobre mim. A intenção com ela era contrária: queria namorá-la com pleno e anterior conhecimento da família.

O parágrafo anterior, numa primeira leitura é engraçado, mas depois ele fica triste. É alguém assustada comigo. E como já escrevi aqui sobre o medo ser uma forma de manipulação, a decisão do afastamento pós-diálogo é a única possível para evitar que o medo tenha esse poder de manipulação. Numa terceira e última leitura, você pode enxergar que eu tenho reais distorções quanto à afetividade, à forma como demonstro o que sinto e a forma como tomo atitudes em relação à isso. Não fosse essas distorções, a história acima não teria chegado ao ponto em que chegou. E não fosse também essas distorções acredito que já teria conhecido alguém que me quisesse após meu primeiro e único namoro, quase 3 anos atrás. Talvez não fossem essas distorções eu poderia até ter tido um caminho mais longo e menos doloroso no meu primeiro namoro. Mas ao invés de ‘talvezes’, tenho aprendido a enfrentar de frente os lutos emocionais e avançar sem culpa, sem medo e sem dor, apenas com respeito pelas histórias que aconteceram e buscando aprender pra um banquete novo do amor.

E acho que aqui já dá para iniciarmos a falar sobre a música “Bilhetes“. Essa música tem um efeito muito forte em mim desde o seu lançamento, em 2019. Eu estava sentado à frente do computador quando uma amiga, que merece citação aqui (Talita de Souza), postou no Twitter sobre o novo álbum do Tiago Iorc. Naquela mesma hora eu fui olhar. Meu Instagram se inundou também com alguns prints indicando as músicas. Não restou outra coisa a não ser abrir o Youtube e deixar o álbum “Reconstrução” rodar inteiro. E no primeiro momento eu me prometi, após o sumiço de Tiago Iorc: “eu vou no primeiro show que eu puder ir esse ano”. Tinha Brasília e Belo Horizonte com diferença de dois dias. Aproveitei que tinha um treinamento na capital mineira um dia antes e escolhi lá – de novo, pois em 2017 eu tinha comprado um par de ingressos, mas acabei não indo. Eu estava financeiramente quebrado e, na ânsia de conseguir um lugar bem perto do palco, queria comprar com antecedência e quem emprestou o cartão para pagar esses ingressos foi um amigo, que também merece menção aqui (Luiz Gustavo Santos). Naquele 23 de novembro de 2019, data que marcava quatro anos desde um momento decisivo da minha vida e que estava também sendo um momento decisivo na minha vida pelos acontecimentos do dia anterior, eu assisti ao show ao lado de Agda Andrade, uma bacharel em Direito que começou a conversar comigo na fila do show e que compartilhou seu ombro comigo durante o show para que trocássemos lágrimas em determinadas músicas que mexiam conosco e que faziam parte da nossa história de vida pessoal. Os detalhes sobre isso estão neste post em que conto sobre o dia em que assisti ao show de Tiago Iorc. Quando tocou Bilhetes, eu me emocionei.

Um tiro à queima roupa
Outra cicatriz
Senti a dor na pele
Por tudo que eu não fiz
O aperto aqui no peito
Me roubou o amanhecer
Eu dei meu melhor
[…]

Bilhetes, Tiago Iorc

Cada frase é, em si mesma, uma poesia própria, um decálogo sobre a vida humana e sobre a forma de lidar com a afetividade. Comecemos por “um tiro à queima roupa”: não há como levar tiros à queima roupa se não estivermos próximos de outra pessoa armada. E é exatamente aqui que mora uma chave sobre essa música: tudo é sobre estar perto, vulnerável, junto. É sobre afetividade humana.

“Outra cicatriz”. Se um tiro emergido de alguém próximo ou talvez até de nós mesmos é apenas mais uma cicatriz, não estamos mortos ainda. E aquilo que não nos mata nos deixa mais fortes. Uma cicatriz significa passado.

“Senti a dor na pele por tudo que eu não fiz”. Eu creio que em algum momento você já se sentiu assim: “podia ter feito”, “podia ter ido”, “podia ter falado”, “podia ter perdoado”, “podia ter deixado pra lá”. Isso me despertou pensar sobre o quanto estamos sendo negligentes com os nossos sentimentos sob o manto do “amor próprio”. Quando você ainda pensar que pode fazer algo, faça. Porque senão a dor sobre o que não foi feito é muito intensa. Eu já senti demais esse tipo de dor, hoje tento me antever à ela.

“O aperto aqui no peito me roubou o amanhecer”. A angústia pode nos fazer perder o sono e, muitas vezes, precisar acordar tarde. Quando o peito aperta, podemos não ver o amanhecer. Mas vai bem além disso. O amanhecer pode ser, também, interpretado como o início, a sensação de começo, de reinício, de uma nova chance. A angústia pode nos roubar essa visão de que uma nova chance se apresenta diariamente a nós.

“Eu dei meu melhor”. Neste ponto, Tiago Iorc parece declarar a si, com considerável bom senso: ele reconhece que deu seu melhor. E é importante saber que dar o melhor num cenário de imperfeições, de erros, é ter feito tudo que fez da forma como dava para ter feito, com o coração naquilo. Os erros que poderiam afastar o conceito de “melhor” são apenas um produto da própria afirmação de ter dado o melhor dentro, é claro, das limitações existentes.

[…]
Tem dias que parece
Que não vou conseguir
O medo me persegue
Me impede de sentir
Eu só quero amar direito
E ser tudo que eu puder
Seja o que for
Venha o que vier
[…]

Bilhetes, Tiago Iorc

“Tem dias que parece que não vou conseguir, o medo me persegue, me impede de sentir”. Tiago Iorc demonstra suas vulnerabilidades. Dizer, falar, verbalizar fraquezas tem sido algo defendido por profissionais que analisam a mente humana. Para boa parte destes, isso é a única coisa capaz de nos humanizar e criar condições de existir empatia. Todavia, sabemos que vulnerabilidade não é um tema barato e ser vulnerável, declarar as fraquezas, pode parecer absurdo demais.

“Eu só quero amar direito e ser tudo que eu puder, seja o que for, venha o que vier”. Quando colocamos a palavra “direito” adjetivando outra palavra, queremos dizer que isso seria o certo. Se há certo, há uma noção do que é errado. Considerando a vulnerabilidade apresentada nos versos anteriores, Tiago Iorc parece demonstrar que pra amar direito a vulnerabilidade é um caminho, talvez até o único enxergado para si. E eu concordo que a vulnerabilidade tem a capacidade de aproximar e fazer conhecer gente legal que se importa com a gente e, ao mesmo tempo, de afastar e fazer descobrir gente à toa que usa dos seus pontos fracos para crescer sobre você ou para te machucar. Se aos primeiros é importante manter, aos segundos é importante ter respeito e mantê-los longe. Pois é só com os primeiros que dá para sermos tudo que somos, tudo que podemos ser, “seja o que for, venha o que vier”.

Portanto, até aqui já dá para perceber que essa música é sobre a imperfeição humana. Escancarada. Absurdamente falada. E poeticamente composta. A imperfeição que nos caracteriza num plano único. Que deixa viva em nós nossa humanidade. A imperfeição que ajuda a não sermos piores que ontem nem melhores que ninguém.

E eu gostaria muito de continuar essa análise, mas muito além do sono que já bateu aqui, tem um aspecto importante de qualquer análise musical: sua própria audição, sua própria conclusão e sua própria aplicação de acordo com sua bagagem e seu conhecimento de mundo. Por isso eu te convido a ouvir a versão original de Bilhetes, degustar a música e tirar suas próprias conclusões. Se você tiver o desejo de compartilhar essas conclusões nos comentários, fique à vontade!

Bilhetes, Tiago Iorc (Fonte: Youtube/Reprodução)

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