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Sobre verbalizar o que se deseja e sente

Se você quer algo, diga. Se você sente algo, diga. Experimentamos do arrependimento de uma vida medíocre e vil e assumimos portanto, nossa mediocridade e vileza e a partir dela é que conseguimos falar, mudar e sentir. Tudo de novo. Com mais intensidade e honestidade.

É minimamente um ato de coragem tornar em palavras o que fulmina em nossas mentes. Para além de coragem, é também um ato de transparência. Mas nem sempre encontramos terrenos aptos a serem semeados com palavras sinceras. Por vezes, as sementes parecem não frutificar. É aí que precisamos parar e pensar: essa verbalização é boa pra quem?

Um mundo ideal para mim seria um mundo em que a paz reinasse em meio às diferenças. Um mundo em que a capacidade de ouvir e de falar fosse mesclada, de forma equânime, com a capacidade de se perceber no lugar do outro e entender o ponto de vista do outro. No mundo real, isto não é possível. Na minha vida, isto não é possível. Por vezes me vejo assumindo exclusivamente uma postura minha e excluindo outras visões. Outras vezes, pior ainda: me pego nem sequer me interessando pelo ponto de vista alheio.

Porém não existe outra forma legítima de assumir a responsabilidade do diálogo se não for dialogando, exercendo força pra que isso aqui aconteça. E para esse diálogo acontecer, tornar palavras os sentimentos é algo fundamental, já que não há comunicação humana isenta dos sentimentos.

Nem sempre, porém, despejamos palavras organizadas quando o assunto é falar sobre sentimentos. Falamos muito, de forma desorganizada, repulsiva e truncada quando falamos de nossos sentimentos. O mito da pessoa ‘good vibes‘ dura até um fim de expediente de um dia terrível no trabalho, de uma desestabilização emocional ou de algum incidente que nos tire algo.

E ainda assim, este é o único jeito de falar sobre o que sentimos. É deixando fluir pela boca as poesias desordenadas de nossos sentimentos. Por isso, de algum modo muito especial, a escrita é algo que acalma. Ela tem em si a capacidade de transcrever os sentimentos para uma folha de papel ou uma tela de computador. O que antes era imaterial e abstrato agora é palpável ou visível.

Por muito tempo, eu me prendi ao não falar sobre meus sentimentos. Mas foi tendo contato com alguém que sabia verbalizar seus sentimentos que eu tive condições de aprender a importância disso na minha vida. E nos últimos cinco anos, com ênfase nos dois últimos, falar sobre meus sentimentos se tornou uma obrigação iminente, um ato de responsabilidade emocional comigo mesmo, ainda que de forma desordenada.

Nem sempre é possível encontrarmos paz para falarmos sem sermos julgados e também sem uma sessão fajuta de coaching ao final de uma exposição de sentimentos. É por isso que a maior parte dos meus melhores amigos são sempre elogiados pela capacidade de escuta que têm: me sinto bem ao contar para eles o que não contaria da mesma forma e sem o mesmo medo de julgamento para outras pessoas. Acredito que todo mundo tem isso, tem essa necessidade de ser escutado sem o dever de se posicionar ali num papel, como um personagem, mas sim de ser escutado como humano.

E eu tive a oportunidade de trazer isso para a minha experiência com a espiritualidade. Quando falo com Deus, exponho-me. Quem ouve minhas orações possivelmente deve achar que eu sou alguma espécie de blasfemador. Porque eu simplesmente me sinto à vontade para falar tudo que sinto e penso, sem qualquer filtro de linguagem. Sem qualquer restrição quanto ao que devo ou posso pedir.

Eu acredito muito que quando a gente fala o que a gente quer e quando a gente diz exatamente o que sentimentos há possibilidades envolvidas por parte de quem escuta. Uma delas é o acolhimento integral, sem julgamentos ou ressalvas, algo raro. Outro é o acolhimento parcial, recheado dos protocolos e dos códigos morais e éticos, até comum porém não dominante. Outro acolhimento ainda existente é aquele que ouve e, no fim, emite uma opinião distante, uma opinião que não busca se envolver ou se prontificar, uma opinião que na melhor das hipóteses confortará por alguns minutos. E outra reação possível é o uso indiscriminado de suas vulnerabilidades expostas para o ataque, para a crueldade emocional.

Não existe outro meio, porém, de ser gente sem sentir. É verdade que há muita gente que não fala através de palavras, mas sim através dos gestos. Mas é essa verbalização real que é importante: não há como não sair algo de nós, seja através da fala, da escrita, dos gestos, dos gemidos, dos gritos, do que quer que seja!

Verbalizar o que se deseja é uma coisa muito legal para quem precisa de algo. É difícil, mas é legal. Quem pede, recebe. Quem busca, encontra. Às vezes, num primeiro momento, até recebemos um “não”. Mas é melhor a certeza que a dúvida, por isso, até nisso verbalizar o que se quer ajuda: muitas vezes o nosso “não” chega antes de sofrermos tanto.

Mas sempre tem também o “sim”. Pedimos e recebemos. Dizemos que gostamos ou que queremos algo. E recebemos. E ganhamos. E temos. É tão gostoso quando somos atendidos. E além disso, não nos recai sobre nós qualquer culpa quando pedimos errado: podemos assumir.

Se você quer algo, diga. Se você sente algo, diga. E se você ainda acha que isso te tornará vulnerável, eu te desejo que nunca experimente da hora escura da alma em que tudo que você queria era ter sido diferente. É nesta hora em que mudamos. Experimentamos do arrependimento de uma vida medíocre e vil e assumimos portanto, nossa mediocridade e vileza e a partir dela é que conseguimos falar, mudar e sentir. Tudo de novo. Com mais intensidade e honestidade.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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