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Parar e silenciar – uma reflexão sobre “Você me bagunça”

Mas e depois que a bagunça está feita e só nos resta parar e silenciar? Essa música também nos traz a certeza de que, embora não seja tão confortável a afirmação, a bagunça faz parte de nossas vidas como incerteza.

Ao me propor a esse desafio de refletir sobre uma música de O Teatro Mágico, me invisto de audácia. A banda é dona de canções fantásticas e que já têm um enredo próprio. “Você me bagunça”, por exemplo, é uma dessas músicas. Antes de continuar a reflexão, é importante que você ouça, diferente do que proponho em outras reflexões, quando ouvir a música vem depois da exposição.

“Para! Silencia”… Parece que enquanto humanidade, foi esse o imperativo que tivemos ao longo de mais de um ano de pandemia. Precisamos nos afastar fisicamente e muitas vezes até emocionalmente de pessoas com as quais convivíamos diariamente. Nossas amizades foram provadas no fogo da distância, as relações amorosas foram postas à prova da intimidade escancarada. Nossos trabalhos foram mudados, as formas de atendimento, de comunicação e de consumo também foram alteradas. Uma verdadeira bagunça, já que estruturalmente tudo era diferente há pouco mais de um ano.

No meio disso tudo, há gente que conseguiu encontrar tempo para se redescobrir. Outras pessoas estão aproveitando esse tempo de bagunça para se prepararem. Outras ainda não puderam ter tais pausas e continuam diariamente lutando pelo sustento próprio e de suas famílias. Com muito privilégio em relação à essa situação toda, eu fui uma das pessoas que tive o tempo da pandemia como um tempo de reconhecer-me e de fazer filtros importantes na minha vida. Sair de uma paixão súbita onde eu era escorraçado para cair nos braços de alguém que, embora não tivesse reciprocidade sentimental, me fez sentir coisas lindas e maravilhosas e me deu espaço para reconsiderar uma série de coisas sobre como reajo a situações adversas. Sair de um lar cujo eu não me sentia valorizado para começar a construir uma vida com minha escolhas. Sair de amizades superficiais e aprofundar relações.

Mas chega uma hora que as coisas ficam nebulosas demais. Seja nas relações trabalhistas, familiares, amorosas, afetivas como um todo, enfim. Uma hora a confusão é maior que a certeza. Tudo foge ao nosso controle e nem a nós mesmos conseguimos controlar. Neste momento, precisamos de uma pausa. Um momento a sós com nosso coração, com nossa mente, com nosso corpo. Gosto de metáforas e abaixo faço três.

É como se ao final de um dia de expediente tenso, com várias reuniões, vários momentos de agonia emocional, chegássemos em nossa casa ou apartamento, fechássemos a porta, desligássemos as luzes, fechássemos as janelas, desligássemos o interfone e o celular. Abrimos o chuveiro e deixamos a água cair sobre nós e nos prometemos de só sair dali quando nos sentirmos um pouco mais relaxados. Então vamos para a cama e começamos a tentar organizar a nossa cabeça. É como se as memórias, as palavras, os pensamentos, as ideias fossem dispostas sobre um grande lençol e agora você ali, diante daquela imensidão de fatos, fosse uma pessoa obrigada a montar um quebra-cabeça e, o pior, devolver toda essa bagunça, agora organizada, à sua mente e ao seu coração para no dia seguinte tomar novas decisões e, se necessário, repetir o mesmo processo no dia seguinte.

É também como se após duas propostas dicotômicas, com pesos diferentes e consequências completamente opostas, você precisasse sair de sua casa e ir até um lugar vazio, preferencialmente, longe de todo barulho para conseguir sentir a si próprio. Então você entra no carro, acelera em marcha lenta e quando entra na rodovia, sobe o som do carro e vagueia sem direção até que seu coração sente paz e você resolve acostar. Por ali, você silencia o som, sai do carro e parece que começa a vislumbrar você naqueles dois futuros possíveis e começa a pesar as coisas com a clareza de quem observa por perspectiva, em terceira pessoa, e não como quem é autor das decisões. Parece que olhar de longe dá uma visão mais segura do melhor caminho. Você consegue vislumbrar o futuro cheio de incertezas, todavia com mais segurança do que escolher. Então você começa a sentir frio e retorna para o carro com menos dúvidas e mais paz.

A hora do silêncio, desse retiro temporário para a organização da mente, pode ser também similar àquele dia em que brigamos com nosso amor e tudo parece ter acabado. Num primeiro momento, quando os nervos ainda estão acirrados, paira ainda uma sensação de superioridade e de orgulho. Mas nos minutos ou horas seguintes, queremos adentrar um banheiro e desabar em lágrimas, queremos abraçar o nosso desafeto a qualquer custo, sentimos o medo da perda (ainda que estejamos plenamente certos numa discussão), sentimos a dor da incerteza. Como tudo é nebuloso, procuramos por algo que nos dê a sensação de tranquilidade. Alguns fumam, outros bebem, outros comem, outros ainda vão atrás de outras pessoas, outros apenas choram e dormem para tentar fugir daqueles sentimentos ruins. Em qualquer uma das situações, essa necessidade desse espaço conosco mesmo é algo comum. Não há reflexão sem pausa. Me estranha quem não erra ou quem faz crer sempre estar certo. A mim, me estranha porque eu quase nunca estou totalmente certo em nada. E sou da mesma espécie que meus companheiros de jornada.

Eu poderia escrever um texto só sobre parar e silenciar, uma partícula mínima da música de O Teatro Mágico, mas a bem da própria reflexão, quero expandir para outros trechos tão importantes quanto este.

[…]
Lapida-me a pedra bruta, insulta
Assalta-me os textos, os traços
Me desapropria o rumo, o prumo
Juro, me padeço com você
Me desassossega, rega a alma
Roga a calma em minha travessia
Outro “porquê”
[…]

Trecho de “Você me bagunça”, O Teatro Mágico

Apesar de a bagunça ser totalmente desconfortável, já escrevi aqui que o estresse pode nos aperfeiçoar se for bem aproveitado. Esse desconforto proposto pela bagunça pode ter a função de lapidação em nossas vidas. Quando encontramos uma situação de desconforto, não enfrentá-la pode ser sim uma saída, mas nem sempre é a melhor. Porque somos “pedra bruta” em lapidação. A vida é o instrumento de lapidação. As pessoas são lapidadoras de outras pessoas. Claro que isso não pode ir para o lado da manipulação danosa, mas que aceitar a lapidação como uma forma de avançar na própria humanidade é algo fundamental.

A bagunça também nos incapacita a ação. Nos tira do nosso equilíbrio, da nossa tão dita “zona de conforto”. É na bagunça que sentamos à mesa para escrever e não há uma palavra que consiga ser transmitida para o papel. É na bagunça que nos sentamos à mesa para comer e não desce um grão de arroz. É na bagunça que a louça fica na pia por dias. É na bagunça que nem nossos melhores amigos conseguem nos evoluir para alguém sorridente – e eles nos aceitam assim, isso os fazem ser os melhores. A bagunça causa o padecimento. É como se na bagunça houvesse uma força depressiva tragando nossas forças.

Porém vai ainda além. A bagunça tira a paz, a bagunça desassossega. A bagunça causa insônia. “Rega a alma” com iodo efervescente e eu já falei do iodo aqui. A bagunça implora por seu fim, pela calma, pelo fim da travessia, pela chegada, pelo estabelecimento. A bagunça é a incerteza!

Se embrulha e se embaralha
Reconsiderar o ar, o andar
Nossa absolvição, a escuta e a fala

Nos amorizar o dia, a pia, o corredor
A calçada, o passeio e a sala
Se perder sem se podar e se importar comigo
Aprender você sem te prender comigo

Difícil precisar quanto preciso

Trecho de “Você me bagunça”, O Teatro Mágico

Mas e depois que a bagunça está feita e só nos resta parar e silenciar? Colocar as peças no tabuleiro, reorganizar tudo é fundamental. E como se faz isso? O Teatro Mágico responde: “se embrulha e se embaralha”. A partir daí é possível “reconsiderar o ar, o andar”, é possível se livrar de parte ou de toda a culpa (“nossa absolvição”), é possível ter momentos de “escuta” e de “fala”.

E a continuidade é receita: amor próprio. Não esse fajuto que se reveste de ignorância e arrogância, mas aquele de entender que você merece amor de si próprio primeiro. E é a partir de como você se trata que irá tratar os demais. É necessário se reconhecer, reconhecer os espaços e ressignificar tudo. Só assim é possível “aprender você sem te prender comigo”.

Relações, trabalhos, pessoas, títulos, tudo isso passa. E a gente vai ficando. Uma hora estamos com a casa cheia, outra hora estamos solitários. Uma hora estamos sob holofotes, outra hora estamos nos bastidores, outra hora ainda na plateia e algumas outras horas ficamos de fora do espetáculo, à mercê de quem passa na rua e descobre nossas vergonhas expostas na sarjeta.

Ainda assim, ainda que tomada essa distância emocional de tudo, ainda que distante da bagunça, ainda que sob o silêncio constrangedor da organização, é “difícil precisar quanto preciso”. É difícil tomar proporções exatas do que sentimos. Por isso, essa música também nos traz a certeza de que, embora não seja tão confortável a afirmação, a bagunça faz parte de nossas vidas como incerteza. Não saber exatamente o que vai acontecer, ter pouca coisa sob nosso controle, não ter certeza alguma sobre nosso futuro é algo que carregaremos enquanto respirarmos. Se você ainda acha que é possível ter controle sobre tudo, lembre-se de como pensava que seria o setembro de 2020 (com tudo aberto, todo mundo vacinado) e se situe em como você está agora em maio de 2021 (vacinação lenta, tudo fechado e você há mais de um ano com restrições de movimentação).

Ao escutar “Você me bagunça”, embora a conotação da música esteja totalmente voltada à uma relação amorosa, é possível conectar a experiência trazida pela música ao contexto humanitário como um todo. Músicas que fazem pensar como esta são a causa de ainda termos alguma experiência de que somos entendidos. De que, ao nos expormos vulneráveis, não somos únicos nisto. De que quando tiramos um tempo para parar e silenciar isso pode não ser o fim, pelo contrário, pode ser um começo.

Algumas relações precisam de um ponto de parada e de distanciamento. Às vezes para que nunca mais voltem a ser o mesmo. Às vezes para que recomecem de forma correta e decidida. E louvado seja quem entende esses processos necessários e os aceita sem surtar porque não são nenhum pouco fáceis. Que você viva os seus processos. Pare. Silencie. Se amorize. E aprenda a viver sob o risco da incerteza. Uma vida organizada também passa por momentos de bagunça.

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Foto de capa: Youtube/Reprodução

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