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Tentou de tudo e não deu? Respira e tenta só mais uma vez

A gente precisa tentar de tudo que é possível, lançando fora muitas vezes o nosso orgulho, mas ao ter tentado tudo, a gente deve apenas respirar e tentar só mais uma vez. Às vezes tentar só mais uma vez e dar errado vai te libertar para encarar um novo problema. Ou quem sabe, uma solução.

A chave enguiçada, o carro que não pega, o relacionamento que não evolui, as brigas que volta e meia se repetem, a meia que insiste em castigar o pé, o tênis que entra água, a bicicleta que faz barulho, o computador que só dá trabalho. Frequentemente coisas chatas acontecem nos nossos dias. Algumas têm proporções maiores, outras menores. Todas incomodam porque não saem como planejamos ou ao menos como queríamos.

Quando se trata de coisas pequenas, a troca pode ser fundamental para economizar tempo. Por exemplo, se você tem um carro que muito frequentemente te dá trabalho no mecânico mesmo com você mantendo as revisões em dia, está passando da hora de você trocá-lo, ainda que por um de menor ano ou maior rodagem, trocar mesmo para ter um problema novo na sua mão (sim, um problema, pois de vez em quando as coisas enguiçam mesmo) e neste novo problema dedicar-se com mais energia e atenção.

Mas quando se trata de coisas grandes, a tentativa é importante. E ela vale muito mais que o êxito. Há gente que, em relações pessoais, não se importa em tentar de novo porque na primeira vez deu errado. Todavia, o que realmente importa é a tentativa e não o êxito, é a sensação de ter feito tudo que poderia ser feito naquela circunstância. Por exemplo, se alguém da sua família tem um comportamento abusivo com você uma vez, é importante demonstrar que aquilo te incomoda. Se isso se repete, fazer o mesmo. Com algumas vezes, é necessário definir um limiar e tomar uma atitude mais séria: um distanciamento temporário, uma oferta de um tratamento psicológico, algo do tipo. Se nada disso adiantou, respirar fundo e tentar só mais uma vez é importante. Pra ter a certeza de que aquela pessoa não mudou e que a convivência com ela é impossível para você sem que haja ferimentos.

Gosto de falar sobre mim porque não preciso de licença de terceiros, portanto, é natural que meus textos contenham boa parte de insucessos. Eu, particularmente, não sou uma pessoa de poucas relações. Dada a facilidade com a comunicação, tenho conexões facilitadas. Porém na maioria dos espaços em que frequento eu prefiro ter o mínimo de exposição possível, embora eu não me considere mais antissocial. Nutrir relações, sejam elas quais forem, com outros humanos é um desafio absurdo. Começa pela fala, que precisa conseguir (e quase nunca consegue) passar o que está em nossa mente e chegar até a mente da outra pessoa. Depois vem a interpretação, que é dificultada porque todos nós somos diferentes e temos bagagens culturais diferentes, o que nos desapropria de uma possível visão de mundo comum. E por fim, estão as emoções como um grande elemento de comunicação. Se por um lado, as emoções falam, por outro elas quase nunca dizem exatamente o que querem dizer.

Nesse emaranhado de possibilidades nas relações humanas, já tive muitos momentos tristes em que tive frases mal interpretadas ou ainda que foram mal feitas mesmo. Precisei voltar atrás, pedir desculpas, muitas vezes tentar reaver a confiança da pessoa. Quando se trata de atitudes desrespeitosas ou inadequadas, também já fui autor delas. E não diferente, precisei também me mobilizar para resolver esses problemas. Quem se relaciona comigo sabe que eu sou alguém dado a palavras e que não entendo silêncios ou gestos ou ainda ações sutis. Ou precisa ser uma ação muito escancarada ou então precisa ser dito para que eu entenda. Isso me traz dificuldades em relações mais íntimas nas quais eu deveria apreender os trejeitos de alguém e com isso lidar. Como sei dessa dificuldade, todas as vezes que estou conhecendo alguém com intenções de nutrir um relacionamento mais íntimo, tento saber o máximo sobre essa pessoa pra abreviar o tempo de aprendizagem e, portanto, evitar rasgos nas relações. Nem sempre funciona.

Situados os problemas e características das relações humanas, resta concluir que quando as coisas importantes não estão funcionando nós precisamos tentar. Tentar e tentar. Mas não indefinidamente. A gente precisa tentar de tudo que é possível, lançando fora muitas vezes o nosso orgulho, mas ao ter tentado tudo, a gente deve apenas respirar e tentar só mais uma vez.

Se você está numa relação em que você só se machuca e você já tentou de tudo para evitar isso, é hora de tomar algumas decisões. Primeiro analisar se tudo realmente foi feito. Se a resposta é não, faça mais. Se a resposta é sim, afaste-se por algum tempo. Tome distância da situação, respire, se reorganize. E tente só mais uma vez. Fundamental enfatizar o “só”. Porque quando a gente tenta de tudo, não adianta tentar de novo indefinidamente. Isso é insanidade e não fazer jus ao processo evolutivo que a humanidade naturalmente passa. É preciso definir limites. Por mais que você ainda sinta, tente só mais uma vez. Às vezes tentar só mais uma vez e dar errado vai te libertar para encarar um novo problema.

Ou quem sabe, uma solução.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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