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Comportamento

O convívio arrasta comportamentos

Você convive com gente que te arrasta para que tipo de comportamento?

Já diziam nossos pais “vê com quem tu andas, pois más companhias corrompem os bons costumes”, numa insinuação muito próxima de um versículo bíblico. Particularmente, essa coisa de “bons costumes”, “ser do bem” entre outros termos não me cabem. Acho que é uma caixinha extremamente relativa. Por exemplo, há famílias que abominam que seus filhos viajem com não-familiares, mas permitem toda sorte de ilegalidades e imoralidades desde que sob a ótica dos familiares. Portanto, não é sobre bom comportamento que quero falar, mas sim sobre comportamento, no geral, os bons e ruins, com o juízo de valor que cabe a cada um de nós individualmente.

Recentemente, comecei a trabalhar numa repartição do serviço público municipal de Unaí-MG. É a segunda vez que trabalho em instituições públicas, tendo sido a primeira no IBGE com contratação através de processo seletivo e passado por lá durante três anos. A segunda é agora, a convite da administração, para a assunção de um cargo comissionado, por tempo determinado e sem estabilidade. Minha passagem pelo serviço público federal me garantiu boas amizades e não cria que seria diferente no âmbito municipal. E não foi.

Muito bem recebido e querido pela equipe, pude conhecer pessoas que até então não tinha contato diário. E com isso, aprender coisas boas. Ainda estou aprendendo muito sobre a diligência, comprometimento e organização de alguns. Ao mesmo passo que também consigo compreender que tenho algo a contribuir, numa construção mútua. É, certamente, a melhor equipe com a qual eu poderia trabalhar neste momento. E falo isso com tranquilidade, dado que tento sempre me sentir bem antes de fixar bases num lugar e quando não me sinto mais, faço minhas malas e vou embora após tentar consertar.

O convívio, porém, vai além de aprender profissionalmente. Também promove aprendizados de nível superior: afetividades, conhecimentos gerais, humanidades. Numa das ações mais bem recebidas da equipe, na minha segunda semana de trabalho, comprei uma Coca-Cola. Nesta mesma semana, um colega comprou duas ou três vezes uma garrafa de 600 mL. Combinamos de nos ajuntarmos e comprar uma maior. E assim foi feito.

Dali pra frente, na semana seguinte, instituimos o “decreto interno de compramento da Coca” (numa linguagem coloquial mesmo, pois não é ato oficial e em se tratando de uma equipe predominantemente artística e de apoio artístico, as ideias fluem sem qualquer custo). Como o decreto foi impresso, assinamos. E colhemos assinaturas de quem o lia e concordava. Instituímos também, agora sem decreto, a “hora da Coca”. Das 13h às 13h30, logo após o almoço, tem uma Coca-Cola de dois litros aberta na sala central. Quem quer, pega o seu copo e se abastece. Mas até que a ideia pegou, foi necessário entregar um copo e oferecer no prédio inteiro. Nos comprometemos com algo que era restrito ao café: a comunhão pelo alimento.

Neste momento do refrigerante, trocamos alegrias, tristezas, preocupações, fazemos desse momento do expediente um verdadeiro brainstorming. É tudo sobre nossa atividade. Das últimas vezes até conseguimos tomar decisões sobre uma notificação administrativa ao termos convidado um advogado para compartilhar conosco da Hora da Coca. Hoje, exatamente 30 dias depois que eu cheguei, aconteceu o que eu chamo de “sinal de perpetuação” da cultura do convívio tendo como meio a Coca-Cola: no horário em que eu estaria habitualmente na sala central tomando Coca, estava em minha sala e uma pessoa que também chegou na mesma semana que eu, veio me chamar para tomar o refrigerante.

O convívio arrasta comportamentos. Eu já posso ir embora. O momento da Coca será lembrado e praticado. Pode ser que em algum momento a Coca seja substituída, o momento seja abolido e o “decreto” seja revogado. Mas por esse tempo, nestas pessoas, e neste ambiente, eu já estou pra sempre. Porque as memórias afetivas duram enquanto vivemos. Mas não quero ir, pelo contrário, quero permanecer. Continuar sendo posto à frente de desafios maiores que eu, errando, aprendendo e tentando todos os dias fazer melhor que ontem.

E é neste pensamento que eu proponho uma reflexão simples e, pode ser que pra você seja doída: você convive com gente que te arrasta para que tipo de comportamento? Que você conviva com pessoas otimistas. Para finalizar, indico trecho de palestra de Mário Sérgio Cortella, um dos maiores nomes da oratória brasileira, sobre pessimismo e otimismo.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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