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O beijo como símbolo de compromisso

Considerar o beijo a partir da ótica do compromisso pode nos levar a relações mais sérias, a menos experiências com gente que não tem compromisso com nossos sentimentos e a mais prazer em cada momento.

É tempo de relações líquidas e expressas. O beijo, união carnal e temporária entre duas bocas, há muito tempo deixou de ser um símbolo de compromisso entre duas pessoas e passou a ser apenas o que realmente é: um toque de lábios entre dois seres humanos. Mas e se a gente lançasse um olhar para além do que o beijo é? Longe de qualquer revisionismo ou mesmo de saudosismo do passado, quero te convidar para uma reflexão sobre o ato de beijar como um símbolo de compromisso entre duas pessoas.

Beijar é bom. A troca das salivas fortalece a imunidade quando as duas pessoas são saudáveis e higiênicas. O beijo alimenta também outras reações nervosas, ativando alguns dispositivos de satisfação e prazer. Beijar, logicamente, é também um exercício físico. Envolve não somente a boca, mas toques, carícias, movimentos corporais e outras incursões quanto ao corpo do parceiro. Para quem nunca beijou, meu conselho é que experimente o beijo sem pressa e sem medo. Não há jeito certo de beijar, mas existem técnicas que facilitam o momento e o deixa mais gostoso. Pesquise a respeito, converse, sem medo.

Excepcionalmente hoje, porém, quero lançar o farol sobre o aspecto do beijo como símbolo de compromisso. Embora em tempos de nossos bisavós isso era algo comum – o beijo simbolizar um compromisso entre duas pessoas – hoje a tradição nos mostra que esse aspecto de compromisso ficou relativizado. É possível beijar várias pessoas numa festa e não ter compromisso afetivo algum com nenhuma delas. E é possível também usufruir do beijo dentro de um relacionamento monogâmico como o casamento. Quem beija é quem dá o significado do beijo.

Exceto quando estou dentro de um relacionamento amoroso, eu não beijo sem pedir. Geralmente eu peço o beijo, deliberadamente. Ou peço permissão para fazê-lo. Isto porque o beijo, ainda hoje, tem um significado para além do que ele é. Eu não gosto de beijar pessoas desconhecidas. Talvez pela minha característica demissexual, o beijo acaba sendo restrito a alguém com quem eu tenha já um nível de confiança maior que o habitual. Isso não me torna melhor que ninguém, só reforça que eu tenho como contar em pouco mais de uma mão a quantidade de pessoas que eu beijei, ou seja, as minhas experiências com o beijo também dependem de algum nível de afetividade.

Hoje abro uma caixa da minha vida que nunca escrevi aqui no blogue: o meu primeiro beijo. Há exatamente cinco anos da data em que escrevo este texto, eu tive minha primeira experiência de tocar os lábios de outra pessoa. Fora uma experiência que marcou para sempre a minha vida. Apesar de tudo, o meu sonho de beijar apenas uma pessoa na vida não se concretizou. Deste sonho, agora impossível de ser realizado, outros foram nutridos. E vida que segue.

Mas aquela noite de seis de maio de 2016 foi épica. No dia seguinte, mandei um e-mail para meu então melhor amigo contando tudo. Reproduzo abaixo parte do e-mail onde descrevo o acontecimento:

[…] Até então eu não pensava em beijá-la. Eu ia me soltar dela quando tentei beijá-la, mas ela abaixou a cabeça. Tentei novamente do outro lado e agora ela olhou nos meus olhos e eu toquei os lábios dela. Que estranho e ao mesmo tempo, novo! A língua dela procurava de forma veemente a minha. E eu liberei a minha para ela. Naquele momento que ela me liberou a boca a primeira vez, mordeu um pouquinho dos meus lábios. Ela era totalmente experiente e eu nunca tinha nem dado um selinho. Era natural que eu não a satisfizesse ali. Mas continuei. Ela soltou a boca da minha e disse: “eu sonhei tanto com isso” e gemeu. Eu continuei a beijá-la. E depois eu disse que eu ainda achava que não deveria fazer isso.
Segundos depois, segurei a cabeça dela e falei várias frases olhando em seus olhos. Falei que eu queria e esperava ser o último, falei que daqui pra frente tudo precisava ser diferente, e pausadamente, falei que eu tinha dado aquilo que eu tinha de mais importante para ela – a virgindade bucal – porque eu aprendi a amá-la. Num dos beijos, deitei a mão sobre a nádega esquerda dela trazendo-a mais junto de mim. Ela correspondeu passando a mão sobre minha cabeça. Eu beijei o pescoço dela repetidas vezes e, num dos beijos, fui até a orelha, mordendo-a. Para finalizar, dei uma sequência de beijos: “eu” (beijo) “te” (beijo) [e ela terminou com] “amo” (beijo). Quando me despedi, de fato, olhei fundo nos olhos dela até que ela fechou o portão.
Olhei no relógio. Era 22h15. Desde a hora em que havia iniciado o abraço, 15 minutos tinham passado, então eu havia beijado-a no mínimo cinco minutos seguidos. Subi na moto e, em um passe de minutos, estava no [oculto]. Desci da moto com dois pensamentos: ou eu fiz a pior burrada da minha vida ou eu marquei para sempre a minha vida. Ambos teriam marcas e memórias. Consequências? Qualquer que seja o pensamento válido, viriam à tona mais do que eu já tinha planejado. […]

Trecho do e-mail enviado à um amigo contando sobre o meu primeiro beijo

Como já deu pra perceber, a minha primeira experiência com o beijo foi repleta de inseguranças, incertezas e muita confusão da minha parte. Eu imaginava “consequências” por um beijo. Muita paranoia, pensando hoje, com um sorriso no rosto ao lembrar. Mas por um outro lado, é completamente entendível. Sempre quis ter, talvez influenciado pela convivência com muitas pessoas que tinham relacionamentos, apenas um único relacionamento na vida e casar. Seria minha vida ideal: conhecer alguém, me apaixonar, beijar, casar e viver feliz até o final da minha vida.

Disney, TV Cultura e outros estúdios de criação artística fizeram parte do meu ideário. Mas talvez a ausência de qualquer referência próxima sobre relacionamentos reais e funcionais baseados em genuíno amor tenha me feito me apegar à ideia da perfeição. Não obstante, sempre busquei gente mais experiente que eu em situações amorosas para que eu pudesse me relacionar com alguém que, entendendo e conhecendo minha fragilidade emocional, pudesse me ajudar a melhorar isso. Apesar de mais nova que eu, minha então quase namorada já tinha tido namorados, ficantes e outras várias experiências amorosas. Era a pessoa ideal para me ajudar com isso. Talvez tenha sido pela sensibilidade e paciência que ela demonstrou, ao esperar quase sete meses após me conhecer para termos então o primeiro beijo, que fez também com que o momento tenha sido especial para mim. Em algum momento da nossa história, nos apartamos e, grato por tudo que vivemos, seguimos cada um em sua rota, distantes um do outro.

Por ter tido essa história, hoje eu aprendi a não relativizar quem alimenta expectativas e espera por um momento bacana para se relacionar com alguém. Mas por outro lado, também sempre deixo claro que às vezes as coisas não acontecem como queremos e prevemos e o sonho não deve ser incompatível com a realidade existente. Se pra você, o beijo tem aspecto importante, ótimo. Se não tem, se outras coisas valem mais, tudo bem também.

Repito, porém, que considerar o beijo a partir da ótica do compromisso pode nos levar a relações mais sérias, a menos experiências com gente que não tem compromisso com nossos sentimentos e a mais prazer em cada momento. Finalizo com uma música reflexiva e romântica a respeito do beijo, “Me beija”, de GMeyer. Que você beije com amor!

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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