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Sobre o dia em que meus pais tiveram razão

Eu gostaria que eles não tivessem razão, mas se têm, me resta agradecer a eles pelo quanto tentaram abrir meus olhos. Ainda que de modo grosso e equivocado, muitas vezes.

Eu começo explicando que este é um texto de desabafo. Ao final de um dia massivamente estressante, após uma noite completamente mal dormida, com vários e malévolos calafrios de incompreensão, eu me sento numa mesa de um lanche que gosto e me ponho a desabafar na tela de um celular com meus dedos já cansados.

Eu estou cansado. Exausto emocionalmente. Não é de hoje. Essa exaustão tem muito tempo, mas ela atingiu seu ápice em vários momentos. Talvez agora tem sido um desses. E eu tenho parcela razoável de culpa nela. Mas antes de me debruçar sobre isso, preciso contextualizar algumas questões que rondam o título deste texto.

Desde que comecei a fazer terapia, nunca vi meu dinheiro ter tanta utilidade. Resolver problemas do meu passado, enfrentar traumas e me reconstruir tem um valor impagável e um preço que pagaria uma moto ao menos, se somados os três anos de terapia.

Ainda assim, eu tenho alguma dificuldade com algumas coisas. Dentre elas, a relação com meus pais. Tivemos uma relação muito conturbada no fim da minha adolescência e início da vida adulta, relação essa que só foi ficar pacífica há pouco menos de um ano, quando saí de casa aliando essa necessidade do distanciamento para amadurecimento a uma necessidade profissional urgente.

Desde que entendo o Português falado, ouço meus pais dizendo que eu era muito besta, que era facilmente trapaceado e usado pelas pessoas. Em alguns momentos eles repetiram com ênfase de que eu era usado por mulheres de quem eu gostava, de forma que eu fazia tudo e era por elas preterido indiscriminadamente. Cheguei a ouvir, dolorosamente, que eu era uma espécie de pessoa que preparava a mulher para outros caras terem bons momentos com elas. Por vezes, chorei copiosamente e reverberava dentro do meu ouvido tudo isso enquanto eu jogava pra fora palavras de ordem dizendo que aquilo não era verdade. E não era mesmo, ou talvez não fossem naquela proporção.

Acontece que de 2020 pra cá eu adotei um estilo menos apegado aos traumas e mais aventureiro quanto à entrega emocional. E de lá pra cá, só tenho levado bordoadas fortes. Eu tenho um histórico de trauma emocional já superado, mas ao passo que sofro coisas iguais ou piores, penso que talvez esse trauma possa reviver. E se isto acontecer, eu realmente não sei como lidar.

E na primeira segunda de maio, na sétima das sessões em que venho tratando o complexo de rejeição e a minha incapacidade em decifrar corretamente sinais afetivos e emocionais de outras pessoas, ao me ouvir novamente sobre uma situação emocional que tenho vivido, falei sobre algo que jamais havia falado com ela e, talvez, a ninguém de forma tão escancarada.

De posse de todas as informações que precisava, ela me pediu para pausar enquanto falava e me disse exatamente, porém com palavras profissionalmente educadas, que eu estava sendo trouxa com todas as últimas garotas com quem tive algum tipo de envolvimento emocional. Mais que isso: que eu estava sendo enxergado apenas por minha utilidade, logo quando eu deixava de ser útil, eu era deixado de lado.

Fora um tapa. Mas não um tapa qualquer. Foi um tapa daqueles que deixam a vermelhidão estampada. Doeu. Eu tive vontade de chorar, mas as lágrimas não saíram. Pela primeira vez, em toda a minha vida afetiva, meus pais tinham razão. Eu estava sendo usado. Clara e escancaradamente. Eu gostaria que eles não tivessem razão, mas se têm, me resta agradecer a eles pelo quanto tentaram abrir meus olhos. Ainda que de modo grosso e equivocado, muitas vezes.

Reconhecer isso, porém, me deu condições de tomar algumas decisões. Eu tenho trabalhado a recuperação da minha autoestima e a agregação do meu valor humano. Aos poucos, isso vai vociferando contra meus traumas e afastando a negatividade presente em minha visão própria de mim. Não se trata, porém, de uma construção rápida, nem baixa, nem evidente. É algo subjetivo.

Eu gosto de ser uma pessoa útil. Gosto de ser chamado para resolver problemas. E gosto de ser disponível. Porém existe uma linha tênue demais entre ser útil e ser usado emocionalmente. Quando as emoções entram em jogo, eu deixo tudo claro e peço e espero que a outra pessoa tenha um pouquinho de sensibilidade pra entender que, diante de uma paixão, fica difícil separar as coisas. Que a outra pessoa consiga respeitar o tempo e jogar limpo também.

Mas às vezes não é assim. Às vezes, quanto mais envolvido, mais usado você é. Porém o curioso é que sabemos exatamente que estamos sendo usados, mas não temos condições de sair. Então nos resta tempo e juntar forças pra sair à francesa, com calma, sem qualquer pressão. Porque depois que a gente sai, a gente não volta nem se o bezerro for pintado de ouro.

E vai, sim, chegar um dia em que reencontraremos quem um dia nos usou e abusou de nossas emoções. Neste dia, abraçaremos essa pessoa porque sabemos exatamente que o que ela precisa é o afeto que não soube receber genuinamente da gente. Agora, porém, sem a magia da paixão. Apenas o afeto do companheirismo humano, o afeto que não se nega, o serviço que não se nega.

Pensando assim, parece que essa pessoa terá tudo de volta… Mas não é. As coisas sem paixão não são iguais. Quem desperdiçou a sua chance conosco merece ser feliz também, mas possivelmente não será com quem elas feriram. A vida costuma agir em favor da evolução humana ao dar distância necessária a alguns.

E, por mais que eu quisesse, eu não poderia deixar de afirmar: só reconheço os abusos porque eu também já fui abusador. Mas a melhor forma de dizer que mudei é agindo diferente. Coisa que só dá pra saber convivendo. Eu espero que alguém venha pra ficar.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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