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Entre o início e o fim de um amor há uma história

Escrevo aqui como parte de uma história, mas também como sendo a própria história. Eu sei que depois de uma história, a gente encerra o capítulo e pode começar um novo.

A gente sempre sabe quando é amor e, por mais que a gente resista num primeiro momento, o amor sabe nos constranger o suficiente para nos fazer derreter. É o início. Também sabemos quando o amor deixou de sê-lo e, por mais que a gente insista até definhar, a vida nos dá alguns chacoalhões para entender que ali não há nada mais. É o fim.

Entre o início e o fim de um amor, há uma história. Certa vez comecei a escrever um rascunho aqui no blogue chamado carta aos meus amores do passado. Mas desisti de continuá-lo ao perceber que estava chamando de amores meros rascunhos de envolvimento. Portanto, não que eu não tenha trazido algo desses momentos, mas é infinitamente menor do que o que fizeram comigo os três grandes amores que vivi até hoje, sendo apenas um deles recíproco.

Pode parecer muito infantil se doar tão desesperadamente como se não houvesse nada mais importante que aquele amor? Pode. Geralmente é. Mas por outro lado, diante de corações gelados e de um mundo com relações extremamente expressas e líquidas, para se sobressair, o amor precisa ser diferente. E isso significa muitas vezes dar a louca para se fazer notado, para encontrar lugar. O amor precisa ser exclusivo, pois se for igual a qualquer outra coisa que já tenha lhe acontecido, não terá as razões maiúsculas para ser considerado inédito.

Por conseguinte, esse amor desesperado que se anuncia como louco, que bate à porta insistindo, se presta à sutileza quando encontra lugar. Se conforta. É como cão que late desesperadamente até que seu dono chegue e transforma seus latidos em gemidos e abanos de rabo de felicidade. Esse amor que, ora tem tonalidade leonina, ora tem espírito canino, não pode ser sepultado por qualquer intempérie. Por isso, quem recebe esse amor precisa tomar consciência de que precisa fazer muita merda pra ver esse amor acabar.

Infelizmente, por imaturidade ou por inconsequência mesmo, alguns de nós completamos a taxa de paciência do amor e fazemos ele se dissipar em dor e desistir. Já aconteceu comigo e, do fundo do meu coração, eu desejo que não aconteça com você. A dor após perceber que você fez um amor acabar é tão grande que o peito parece não suportar o inchaço do coração e a mente parece gritar como paciente em operação sem anestesia. Quando percebemos que nós fizemos de tudo para que o amor fosse embora, o desejo é de tomar uma adaga no punho e confrontá-la com nosso peito até que ela saia do outro lado do pulmão. Sorte que nem todos têm essa coragem, caso contrário teríamos ainda mais suicídios.

E quando é conosco que o amor vacila? E quando é conosco que fazem merda em cima de merda até que não sobre nenhum pedaço de nós sem ferimentos? Assim como escreveu Camões, o amor “é um cuidar que ganha em se perder”. Porque mesmo se perdendo, o amor está ganhando. Podemos ser abatidos, desestruturados, podemos ser constantemente estressados, mas jamais seremos derrotados se escolhermos o amor. Porque embora conosco tenham vacilado, é a crença de que o amor sempre ganha que nos fará seguir em frente e, ao invés de blasfemar, esperar que as coisas se normalizem, que nos curemos, para enfrentar uma nova chance do amor.

De todos os modos, seja do lado algoz, seja do lado vítima, o amor sempre terá deixado uma história. Eu confesso que cansei já, pois sendo novo, me engatei em experiências que me levaram ao declínio emocional e a uma condição depressiva que não recomendo à ninguém. Tornei-me, como os poetas da velha guarda, um daqueles viciados que escrevem sobre o amor que não deu certo. Dever-se-ia notar que dar palco pra esse tipo de ocasião chinfrim é desmerecer o amor. Em contrapartida, me acho fazendo história. Não aquelas de um grande autor que venderá em livrarias nem aquelas que contarei aos meus pares para adquirir apreço, mas história que viverá no coração de outras pessoas que por aqui já provaram de mim.

Hoje eu declaro encerrada a última das histórias de amor que vivi. Ela durou mais que a última, tinha na minha ótica todas as razões para não ser apenas mais uma história que não deu certo. Eu recusei vários acenos. Talvez essa pessoa não tenha notado que tudo que ela disse buscar existia em mim. Ou talvez ela não estivesse buscando nada do que dizia buscar. Ainda hoje, ainda essa semana, talvez ainda esse mês, se essa pessoa ver essa história toda com meus olhos, talvez ela ainda queira voltar e me faça um aceno. É certo que como cão que late à espera do dono, não pensarei duas vezes antes de abraçá-la com toda força e locupletá-la de todos os beijos não dados. Mas eu penso: se em tanto tempo, ela não percebeu, por que seria agora?

Talvez essa esperança boba e otimista demais seja um dos acenos mais curiosos do amor teimoso, do amor constrangedor, que eu acredito com unhas e dentes, mesmo sendo ferido nesta concepção. Certo é que ao abandonar uma postura de equilíbrio de pratos e abastar de alimento uma única pessoa, eu posso até ter errado, mas carrego sobre mim a postura que sempre desejei como homem. Um dia alguém vai achar o máximo essa coisa de não ter ninguém mais pra superar, vai achar o máximo saber que é, sim, tudo sobre ela, e que sim, ela é meu alecrim dourado, é a razão dos versos de Camões que os faço como meus:

[…]
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
[…]

Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver

Escrevo aqui como parte de uma história, mas também como sendo a própria história. Escrevo como quem perde e relata sua derrota. Como guerrilheiro que foi capturado e aguarda seu fuzilamento. Como deposto que aguarda sua condenação. Eu sei que depois de uma história, a gente encerra o capítulo e pode começar um novo. Enquanto há páginas brancas, os capítulos anteriores não têm poder sobre elas. Que eu tenha coragem de escrever novas páginas.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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