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Só há deleite no abraço se não houver medo

Apenas reconhecendo a nós mesmos e a quem está do nosso lado é que podemos abandonar nossas garras, nossa armadura e nos deleitarmos em abraços demorados, quentes e com olhos fechados, daqueles em que o mundo parece se reduzir aos braços nos quais estamos envoltos e tudo parece ser possível.

Estamos em um mundo com violência, com incertezas e com dificuldades de relacionamentos entre humanos. Sejam em quaisquer níveis, é apenas a humanidade a responsável pela quase totalidade dos problemas que a cercam no mundo. O resto é o que se chama de acaso e eu gosto de enxergar como partícula incontrolável de tempo e espaço do universo.

Mas quando a violência chega por conta do medo, eu tenho algumas restrições a entender isto. Primeiro porque não é concebível que a gente tenha medo do nosso semelhante. Se somos todos iguais em espécie, por que tememos o outro? Razões que venham a responder esta pergunta podem ser válidas num primeiro momento, mas não resistem à insistência da pergunta.

Segundo porque há um medo que é incabível. O medo que transforma o humano em alguém despojado de armas para agredi-lo, feri-lo, neutralizá-lo. Medo esse que está nutrido na insegurança sobre si mesmo. É triste.

Se temos medo de alguém, é preciso falar sobre isso. Abertamente. Sem medo de falar sobre o medo. É um pouco contraditório, eu sei. Mas a única coisa que nos difere de outros animais é a fala precedida do pensamento crítico. Ademais, somos tão instintivos quanto os demais animais.

Certa vez conheci uma pessoa e, nas minhas investidas para conquistá-la, ela se revestiu de medo. Cogitou algumas medidas duras contra mim no intuito de me afastar. Meses depois retomamos o contato e nossa relação se aprofundou em qualidade. Mais alguns meses e, à medida que a entrega dela aumentava, seu medo também foi crescendo. Há um ano atrás ela não conhecia a pessoa que agora ela compartilhou situações íntimas, era muita entrega, pouca confiança, pouco tempo. Justificava tal medo.

Mas em algum momento da minha vida, eu acredito que eu fui assim. Até que perdi o medo que me fazia desconfiar de tudo e de todos. Conhecer um pouco melhor a mim mesmo me fez bem. Mas o que realmente parece ter sido um divisor de águas para que meu medo diminuísse foi ser transparente quanto à minha podridão e pequenez humana.

Eu ainda tenho medos diversos, mas boa parte deles não se constitui em impeditivo para fazer, crescer, avançar. E muito menos para me relacionar com pessoas. Foram anos de escola aprendendo com situações muito delicadas, errando em várias, estremecendo em outras. Hoje não estou formado na universidade da coragem, mas me sinto suficientemente matriculado na turma da vida real.

Encarar o real, e encarar as pessoas a partir do real, é algo muito importante. Difícil, num primeiro momento, pois sempre (sempre mesmo!) carregamos uma ideia preconcebida e geralmente carregada de expectativas positivas sobre as pessoas. Mas é possível ir alinhando realidade com expectativa, tolerando que nós quase sempre podemos estar errados a respeito de outras pessoas. E o mais importante: aceitar que nós também chegamos à vida das pessoas com uma certa expectativa produzida nelas e que não há necessidade alguma de correspondermos à essa expectativa.

Especialmente quando se trata de relacionamentos amorosos, a única forma de desconstruir expectativas é vivendo o real. Por isso, casais necessitam passar tempo juntos. Não apenas minutos ou horas, mas dias, meses, anos. É estar junto para tecnicamente não fazer nada. É estar junto para olhar nos olhos e encarar os suspiros do seu par. Porque é nesta conexão mais próxima, que consegue enxergar o físico, é que o casal cresce. Mas no virtual também é importante forçar o diálogo. Há casais que não se conhecem bem pelas telas do celular, não sabem quando um está estressado e outro está num dia ruim simplesmente porque não deram ao mundo virtual a mesma importância que fora dada no presencial.

Conhecer o outro, derrubar as expectativas substituindo-as pelo real, entregar-se antes de tudo com suas mazelas, fraquezas e realidades… São essas as indicações possíveis para enfrentar esse medo que agride e evitá-lo. Apenas reconhecendo a nós mesmos e a quem está do nosso lado é que podemos abandonar nossas garras, nossa armadura e nos deleitarmos em abraços demorados, quentes e com olhos fechados, daqueles em que o mundo parece se reduzir aos braços nos quais estamos envoltos e tudo parece ser possível. Já dizia Jota Quest que “o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço”…

Jota Quest – Dentro de um abraço (Reprodução/Youtube)

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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