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Eu quero namorar pra casar – uma reflexão sobre os processos afetivos necessários

Mesmo que você namore despretensiosamente e de forma desapegada, à medida em que você se entrega mais, à medida em que confia mais no outro e que apresenta mais quartos da sua vida ao outro, você está, necessariamente, caminhando para o casamento.

Esse é um dos textos mais gritantes que escrevo no blogue. Sem dúvida, boa parte de meus leitores já me conhecem o suficiente para saber que sou um progressista um pouco melancólico, afetivamente fleumático e psicologicamente desconcertado. Mas hoje é dia de falar para além disso, aproveitando o mês dos namorados que se inicia. E começo de forma impopular. A qualquer momento você pode fechar o texto e ir embora, mas será muito bom se você ler até o final.

Enquanto preparava um cigarro durante uma espécie de entrevista, o rapper Filipe Ret, se expressa sobre o quão gostoso é namorar. “Namorar é mais gostosinho, né?”, indaga o rapper que hoje é um empresário de cannabis (maconha!) nos Estados Unidos, item que já deveria estar liberado no Brasil há muito tempo. O vídeo dele vai abaixo.

Vídeo: Reprodução/Youtube

Filipe Ret participou da gravação da música/clipe Era uma vez (Poesia Acústica #6), uma das experiências musicais brasileiras mais diversificadas: é o rap acústico multiverso, construído por meio da colaboração, feito com o coração. A letra é realista, quase nunca romântica, retrata a liquidez de nossos tempos. Mas é hora de falar sobre coisas mais sólidas, esquecendo-me de todas as considerações anteriores que são importantes e serão conectadas ao longo do texto.

Existe mulher/homem pra casar?

Basicamente, se a pessoa quiser, ela é “pra casar”. Nos últimos dias temos enxergado um grupo muito autoritário que tenta colocar na caixinha da solidão gente que se encontra melhor casada. Esse é um grupo muito parecido com aquele outro grupo que acha que uma pessoa só pode ser feliz se estiver casada quando muita gente se encontra melhor sozinha. Compreender que as pessoas tomam decisões conforme suas bagagens, experiências e vontades é algo libertador.

Por exemplo, tenho uma tia que não se casou. E um tio, irmão dela, que se casou três vezes. Enquanto ela é uma pessoa que não sente necessidade alguma do casamento e dedica sua vida à afetividade com seus sobrinhos, afilhados e assemelhados, meu tio tem a necessidade de estar acompanhado e de nutrir uma relação de dependência com uma outra pessoa. São pessoas diferentes que, embora venham da mesma família, tenha a mesma consanguinidade, tomaram escolhas diferentes.

Eu, por exemplo, venho de uma família que não apoia o casamento. No entanto, eu quero me casar e não tenho disposição alguma para lidar com várias pessoas ao mesmo tempo, equilibrar pratos, manter contatinhos. É uma pessoa por vez e olhe lá. É o meu modo de relacionar. Nas minhas aventuras amorosas já tentei me relacionar com pessoas que pensavam como eu, com pessoas que não queriam se apegar e abominavam a palavra “namoro” e ainda com pessoas que simplesmente queriam sem se preparar para tal. E é sobre isso o próximo bloco.

“Namoro é pra casar”

“Namorar é mais gostosinho, né?”, concordo com Filipe Ret. Mas o gostosinho do namoro não é só porque existe um status de compromisso (existe, inclusive, um instituto jurídico para formalizar um compromisso de namoro), mas sim porque existe um envolvimento afetivo, enlace de confiança e profundidade. O namoro é divertimento em comum, é alegria em comum, mas também é dor e necessidade de ajustes em comum. Porque o namoro é pra casar.

Mesmo que você namore despretensiosamente e de forma desapegada, à medida em que você se entrega mais, à medida em que confia mais no outro e que apresenta mais quartos da sua vida ao outro, você está, necessariamente, caminhando para o casamento. É por isso que namoros longevos têm términos traumáticos ou geralmente desembocam num casamento já bem acertado: a afetividade e convivência são tão intrínsecas ao relacionamento que um já aprendeu muito sobre o outro e “o outro”, propriamente dito, portanto, há uma interligação, dependência e envolvimento muito fortes.

O casamento é, na visão jurídica, uma sociedade. Na visão afetiva, um compromisso longevo e passível de dissolução apenas em casos extremos. Se você compara minha última frase com o parágrafo, terá concluído que namoros são ensaios muito parecidos com o casamento, porém sem o status social de casamento. Quem se resguarda de fazer ou de ser no namoro, despejará isso no casamento e isso parecerá muito novo. E tudo que é novo causa medo, desconcerto, movimento.

Às vezes não é amor próprio, é desamor

Sempre tive muitas amigas mulheres, heterossexuais e bissexuais, na maioria. De quase todas, sempre ouvi sobre a importância do amor próprio. Mas eu sempre desconfiei da história comum sobre o amor próprio e não é nada contra elas, mas sim sobre a superficialidade com que se considera o que é amor próprio.

Se para constituir o meu amor próprio, preciso fazer molejo, demorar horas para responder uma mensagem, dizer que estou ocupado quando não estou, dizer não quando quero dizer sim, pra mim isto não é amor próprio. É desamor. É desrespeito comigo e com o outro. Se para constituir o amor próprio, há que se haver manipulação sentimental, ocultação de informações, mentira ou o desenvolvimento de mecanismos de afastamento de terceiros inofensivos, pra mim isto não é amor próprio.

O amor próprio, na minha visão, está muito mais ligado aos meus valores. E nisto, posso esbravejar sempre que eu achar que não estou me valorizando. Se viola os meus valores, preciso, tenho o dever, sou obrigado a pegar meus dois pés e ir embora daquele lugar, daquela situação, daquela relação, daquela pessoa. O amor próprio é sobre, também, se conhecer. Porque não se ama o que não se conhece e é importante, aqui, ressaltar: conhecer não é sobre estar colado, mas sim sobre estar afetivamente ligado. Podemos passar meses ou anos ao lado de uma pessoa e não conhecê-la e nem nos fazermos conhecidos desta pessoa, já que a afetividade, a confiança e os acessos que damos às nossas emoções é um passaporte carimbado a dois, deliberadamente.

E por fim, o amor ao outro é uma expressão do ensaio feito com nós mesmos. Damos ao outro a tônica que temos conosco mesmos. Só podemos dar amor se tivermos, em nós, a consciência do amor. Neste aspecto, a Psicologia trará algumas crenças que podem falsear a noção do amor e nos levar a imprimir uma noção de amor irreal, distorcida e equivocada, podendo desembocar em relacionamentos abusivos.

A predisposição sexual do homem não precisa ser imposta à mulher

Uma das minhas melhores amigas é uma das referências da nova geração brasiliense quando o assunto é a relação da mulher com o corpo. Beatriz Luca, empresária dona da No Ponto Sex Shop, discursa através de sua empresa e a partir de eventos para os quais é convidada a falar sobre a importância da mulher se entender, se aceitar e não aceitar a imposição masculina sobre si.

A faca é de dois gumes e o assunto é tênue. Se de um lado, a predisposição masculina para o sexo (biologicamente, o homem tem contrações muito mais rápidas e, consequentemente, tem prazer mais facilitado, mais rápido) é algo bom para o homem, isto criou uma pressão muito forte sobre as mulheres que, dentro de uma relação, não se encontravam satisfeitas na cama. Uma parte das mulheres começaram a tentar pôr volume de relações para conseguir alcançar maior prazer. Mas a chave é voltar-se à ciência, mais especificamente à sexologia, e entender que a mulher tem uma escalada mais demorada no prazer e que é fundamental que ela conheça bem seu corpo para conseguir chegar ao ápice do prazer. Portanto, ao invés da mulher querer igualar seu prazer ao masculino (que é rápido e bastante desqualificado), por mera competição, ela pode se conhecer e ter seu momento de prazer com o máximo de qualidade possível.

Curiosamente, porém, algumas mulheres acham que aumentando a quantidade de vezes que transam com seus parceiros irão dar mais prazer a ele, abdicando assim de seu prazer em favor do prazer do parceiro e assim mantendo a relação. É um equívoco dos mais absurdos, pois isso apenas irá acostumar o homem a ter prazer e a não participar do ato sexual buscando o prazer da parceira, apenas é beneficiado pelo prazer que lhe é cedido.

Portanto, à mulher e ao homem está tudo bem negar sexo. Às vezes dentro de uma relação, seja ela de namoro ou casamento, é “mais gostosinho, né?” um amasso e uns beijos bem dados que um sexo com penetração. Ver um filme, cozinhar juntos, ler um livro, ouvir uma playlist. Atos não sexuais que podem (e devem!) superar o tempo voltado à atração sexual, que é comum e necessária também.

Namoro e casamento é a dois

Certa vez ouvi um amigo dizer que estava muito feliz com sua namorada porque ela tinha trabalho, fazia faculdade, tinha motocicleta e ele não precisava preocupar com nada porque até pagar as saídas ela pagava. Naquele momento, o disse que aquilo devia ser desconfortável pra ele. O namoro não durou muito, como já era de se esperar.

Namoro e casamento são instituições humanas, sociais, para duas pessoas. São parcerias, sociedades. Não de negócios, mas de afetividades. É por isso que quando apenas uma parte tem toda a infraestrutura físico-financeira e a outra parte não busca também contribuir, não há condição alguma disso durar.

É uma situação distinta da elencada anteriormente o namoro de um outro amigo. Sua namorada veio de outra cidade para estudar. No primeiro mês, ela morou na casa dele. Depois, por questões de tradição familiar, ela foi morar numa república. Ganhava uma ajuda financeira do governo para se manter. Mais adiante, ela conseguiu um emprego e por lá ficou um ano. A faculdade apertou, ela pediu para sair e ficou dedicada à faculdade, voltou a depender de seu namorado para maior parte das coisas. Todo o caminho do namoro deles foi assim até que ela, prestes a se formar e ele já formado, decidiu integrar a sociedade empresarial do seu namorado. Depois eles abriram mão disso e foram trabalhar na iniciativa privada, cada um em uma empresa, agora já casados. A narração anterior mostra o interesse da outra pessoa em contribuir para que não ficasse pesado o orçamento somente para uma parte. E a conivência do outro lado, a bem do objetivo: a manutenção da relação.

Uma coisa é uma das pessoas da sociedade conjugal ganhar meio salário mínimo e a outra ganhar dois salários mínimos. Outra coisa é uma das pessoas se negar de todas as formas a trabalhar enquanto a outra sustenta tudo. Mas não para nas finanças. Há disformidades fortes quanto aos sentimentos e afetividades. Existem casamentos em que uma parte é totalmente entregue emocionalmente, se presta a fazer, ouvir, acariciar e amar o outro enquanto a outra parte não se entrega, maltrata, apenas fala, nunca escuta e nem privilegia o outro.

Retomo: namoro e casamento é a dois. Talvez seja por isso que a gente está ficando tão avesso à ideia de construir coisas mais longevas porque tudo que não é só sobre nós sai de nosso controle e temos que ceder, em algum momento. Mas vale a pena. Não valesse, pessoas não estariam se casando, se declarando e pedindo outras em namoro, noivado, casamento.

E reforço: embora o namoro e casamento seja a dois, não é impossível e nem incomum que em alguns momentos um não possa dar nada enquanto o outro tenha que segurar a barra. Isso é uma situação temporária, pontual, cuja ferramenta mais eficaz para suportar é o diálogo transparente.

A beleza no namoro é invisível e intocável, mas é vitalícia

Há estudos que indicam que a paixão teria uma duração média de quatro meses. Paixão, neste caso dos estudos, seria comparado ao encantamento inicial que temos com aquilo que nos brilha os olhos. Do primeiro ao meu último dia de namoro, nos exatos um ano e cinco meses que namorei, eu estive encantado com minha então namorada. Achava lindo o que ela me fazia sentir, mais ainda o que eu sentia significar pra ela. Isso era impossível de ver e tocar, mas era sentido. É imaterialidade pura e simples.

Dois anos depois, senti o mesmo frio na barriga e o mesmo encantamento mais algumas vezes. Não com a mesma pessoa. E sempre o encantamento tem a ver com a beleza. E o que é a beleza, senão o que há de belo sob nossos olhos? Mas se eu digo que ela é invisível, digo então de outro tipo de beleza.

A beleza do ser que faz nosso coração bombear mais sangue, nosso estômago contrair, nossa pele arrepiar, nossos olhos lacrimejar, nossos ouvidos aguçar e nosso olfato ficar mais dedicado. A beleza que produz algo a partir do que sentimos e ouvimos. Particularmente, sou suspeito pra falar de sentir e ouvir: sou apaixonado por voz e por toque. Uma frase sonoramente elaborada e um abraço que encaixa podem mudar a percepção de meus sentidos muito facilmente. Logo, repito: a beleza não é vista nem mesmo tocada, ela é produzida e vitalícia.

Vitalícia porque as pessoas passam, mas o que a beleza dessas pessoas produziram em nós fica. A paixão, portanto, assimilada à beleza produzida no namoro pode ser considerada, também vitalícia. Por muito tempo achei que era preciso transitar da paixão para o amor. Mas depois aprendi que dá para amar enquanto se está apaixonado e permanecer apaixonado enquanto ama. Como uma espécie de manifesto disso, escrevi uma carta aos que namoram ou são casados, que merece leitura.

Eu quero namorar pra casar

Portanto, não me interessa ficar com alguém por um dia e no outro dia tudo ser como se nada tivesse acontecido – isso pode até acontecer, mas ao invés de me ser uma memória boa, será ruim. Também não me interessa um status de relacionamento alterado nas mídias sociais apenas para cumprir tabela. Não me interessa e nunca me interessou um casamento por interesse, seja meu, da outra pessoa ou de terceiros. Não me interessam meninas que sejam muito perfeitinhas e me interessam menos ainda as religiosas – espiritualidade é um requisito, religiosidade é um entrave. E não tenho qualquer interesse em gente que seja financeira ou profissionalmente interesseira – primeiro porque não tenho nada a oferecer, segundo porque mesmo que tivesse o contrato com esta pessoa seria para uma profissão que ainda não foi regulamentada no país, mas que eu defendo que seja.

O que me interessa é gente de verdade, gente que chega e bota minha vida de ponta cabeça, que estremeça meus sentidos e me faça querer ser melhor. Gente que tem um pouquinho de loucura – ou muita. Que fale brasilidades e que me respeite. Gente que se escancara e mostra suas vísceras logo de cara. Eu busco um amor maior. Porque eu creio no amor que constrange. Do lado de cá, ofereço um cara solteiro, desimpedido, com alguns traumas, mas sem ninguém pra superar, um verdadeiro louco que vai entregar a oportunidade de participar de 100% da vida dele, um plano pra casar no tempo mais oportuno possível, inúmeras perguntas e programas irracionais (ou racionais demais…). Eu não tenho muita coisa a oferecer e, por isso, busco gente que vale pouco pra esse mundão: essa gente cabe no meu orçamento, parafraseando uma frase de um autor que vai precisar me perdoar por não lembrar agora qual é seu nome.

Eu quero namorar pra casar. Dispenso o noivado como fase, encaro-o apenas como formalização social do interesse no casamento. Mas pra mim, é do namoro pro casamento. A formalização do noivado já é um passo “estatutário” da instituição do casamento.

Encerro meu texto, lembrando que neste mês estar solteiro gera, em algum ponto, alguma carência para quem sonha em se casar. Dependendo de como você lida com isso, poderá existir alguma angústia neste processo. E a você que está solteiro, só tenho três palavras: continue se preparando. Porque a hora chega. Assim como chegou para os familiares e amigos, chegará para nós também. Siga trabalhando e atento, pois a gente sempre sabe quando é amor.

“Namorar é mais gostosinho, né?”

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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