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“Eu sabia que você viria” – uma reflexão sobre convites e presença afetiva

Um convite feito, dedicado, direcionado à você requer de você uma resposta firme. Porque quem faz o convite te espera. E quando você chega, olhos brilham e seu lugar está guardado.

Neste último fim de semana rodei quase quinhentos quilômetros. Foram quase dois tanques de combustível, muita poeira, muitos sorrisos e pensamentos. Muita música também. Sozinho num carro popular, ouvindo uma playlist nem tanto atualizada, parti rumo a duas cidades próximas: Dom Bosco e Paracatu, ambas no Noroeste de Minas.

Saí por volta de 22h40 no sábado após concluir meus trabalhos como freelancer. Abasteci o veículo com etanol, liguei o ar condicionado em temperatura amena, coloquei minha blusa e abri minha Schweppes Citrus comprada na conveniência do meu posto favorito. Cinto afivelado e pé no acelerador. Os primeiros 100 quilômetros me deixaram em Dom Bosco a dez minutos da meia-noite. Na rua principal, encontrei uma amiga que festejava, prometi estacionar o carro numa rua adjacente e retornar para vê-la. Ao retornar, as pessoas se dispersavam (talvez pelo horário) e ali no canteiro central liguei por várias vezes para o celular da amiga que havia desaparecido da minha visão. Não a encontrei. Mais tarde ela mandou mensagem, mas acabamos não nos vendo.

Na rua de trás, parei numa casa que tinha fogueira na calçada. Ali, uma moça de cabelos pretos e de toques delicados me aguardava. Ela, uma das minhas melhores amigas, havia feito o convite mais cedo para que eu fosse à comemoração junina de sua família. Como só pude chegar tarde, haviam poucas pessoas e reservamos as duas horas seguintes para comer e conversar. Num desses papos, mudanças foram anunciadas e esta semana confirmadas: ela que vociferava contra o casamento durante a juventude vai se casar em breve e desistiu de fazer a mudança que faria. Arrazoada em sua decisão, tenho certeza de que será uma ótima esposa – e ainda um apoio para sua família imediata, o que já é desde que a conheci.

Na manhã do domingo, às sete horas acordei para rumar a Paracatu-MG. Encaminhei mensagens para um dos meus melhores amigos propondo um café da manhã na casa dele. Fui um dos padrinhos (embora o nome não tenha sido esse, foi Amigo do Noivo) do casamento dele e, por força disso, visitá-los é mais que uma coisa comum, é um evento. E foi com esse tratamento, de evento, que me receberam em casa. Ele e sua esposa prepararam um delicioso café da manhã. Por horas, conversamos sobre o trabalho deles, a rotina, as possíveis mudanças e tantas outras coisas. Rimos e nos divertimos. A metade do dia chegava quando partimos os três para a casa do pai deste meu amigo. Ali, fui breve e apenas cumprimentei-o rapidamente trocando rápidas palavras. Dali abasteci novamente, desta vez com gasolina que parecia ser mais vantajosa. O posto recém-inaugurado me deixou com vontade de passar mais tempo, todavia alguém me aguardava para o almoço.

Após alguns quilômetros, adentrei uma estrada vicinal. Entrei numa das estradas erradas e de lá rodei muito até, por meio de informações num bar, conseguir me endireitar e chegar. Já havia ido por duas vezes, uma de bike e outra como caroneiro, então era difícil lembrar o caminho. Mas eu cheguei. Alguns olhares assustados, pois já era mais de meio-dia. De longe, ouvi um “achei que ele não vinha, mas ele veio mesmo”. Um dos meus melhores amigos, que me esperava sentado e comemorava o seu aniversário naquela ocasião, repetiu a interpelação de outrem: “o pessoal não estava acreditando que você vinha, mas eu sabia que você viria”. Dali pra frente não nos desgrudamos mais até o fim do dia. Fora uma tarde de comida, jogos de tabuleiro, muitas risadas, piadas, músicas e claro, um tour pelas benfeitorias recentes da chácara. Esse amigo e sua esposa, recém-casados, são muito felizes quando mostram o que estão sonhando e construindo, situação que se repete quando eles fazem o tour separadamente – o que aconteceu e foi muito bom, pois cada um tem um jeito de explicar e de detalhar o que se pretende, o que se sonha, mas em ambos, sincronia.

De volta à cidade, me adiantei. Uma amiga que mora em Dom Bosco, mandou mensagem dizendo que estava em Paracatu e que gostaria de me ver. Fui até ela. Saímos rapidamente. Trocamos algumas frases, algumas risadas e escutamos música. Ela comprou uma cerveja sem álcool e eu uma Coca-Cola. Me fiz de fotógrafo à ela num estabelecimento no centro histórico paracatuense e fomos embora, pois a hora do compromisso dela chegava. No traslado, me assustei com tantas obras pela cidade. Muita evolução na infraestrutura viária. Ruas e avenidas que eu passei diversas vezes nos últimos seis anos estavam transformadas. Fiquei alegre e quis compartilhar a alegria.

Depois, no fim da noite, antes de voltar, fui apresentado a um dos melhores pastéis que já comi na vida. De carona com um grupo de amigos, fizemos um rolê breve e o frio era impertinente demais para continuarmos. Peguei a estrada de volta e pouco mais de meia-noite, estava em casa. Pouco mais de vinte e quatro horas depois de ter saído de casa.

Contei tudo isso acima porque há algo no título deste texto que não somente é parte da fala de um dos meus amigos, mas também é a expressão de maior valor sentimental quando somos convidados para algum lugar. Existem, claro, os convites “de tabela”, aqueles que são por obrigação moral e alguns insistem em não quebrar essa obrigação e continuam a convidar. Mas existem os convites direcionados. Esse foi um dos casos.

Eu sei que por muitas vezes eu não vou poder participar do aniversário deste e de tantos outros amigos. Mas tenho me acostumado a estar presente quando sou convidado com algum nível de direcionamento. Não sou uma pessoal especial ou de alto valor pra requerer que convites sejam feitos de modo A ou B, mas algo é fato: eu tenho sido uma pessoa extremamente ocupada e tirar tempo para fazer coisas que não as minhas carece de decisão, já que tenho me tornado uma pessoa cada dia mais pobre financeiramente e mais envolvida com meu sonho, minha profissão e meus desejos. Parece soberba, pode ser soberba e eu acho que seja. Mas eu sinceramente não me sinto mais à vontade em cumprir tabela com nada. Se estou ou se vou, é porque posso, quero, gosto ou preciso. Tento harmonizar as quatro premissas.

Eu fui um filho ausente em algumas situações com meus pais. Também fui um namorado ausente em alguns casos quando namorei. E fui um funcionário ausente algumas vezes, deixando instituições nas quais trabalhei, na mão. O fato de ter sido alguém ausente me trouxe certas percepções e ter sentido na pele o que a ausência pode fazer conosco me fez tomar decisões diferentes, como por exemplo, evitar prometer sem chance de cumprir, evitar ir em lugares que não quero e evitar desmarcações impróprias ou em cima da hora.

Hoje eu tento ser alguém presente. Mesmo que virtualmente. Quem me conhece de perto, de perto mesmo, como minha família imediata e meus melhores amigos, sabem que eu consigo me satisfazer com convites aparentemente triviais, como uma tarde de sorvete, uma noite de pizza ou uma viagem a trabalho, apenas por companhia. Mas também me satisfaço e participo de eventos mais importantes como uma apresentação de TCC, uma colação de grau, um aniversário, um casamento ou um chá de casa nova. Definitivamente, não gosto de velórios. Costumo ir e ficar pouco. Me satisfaz apenas um abraço em quem gosto e está enlutado e só. Mas gosto de estar em momentos de conquistas das pessoas. A conquista é solitária e compreender isso foi uma girada de chave muito importante na minha vida, graças à forma sutil com que Leandro Karnal fala sobre o assunto.

Me lembro de uma vez quando conheci uma colega de trabalho que se formaria num curso técnico. Ela convidou duas pessoas, eu e um outro colega de trabalho. No dia exato, apareci lá. Além da família dela, fui o único presente que estava lá por ela. Os olhos dela brilhavam. O convite que ela havia feito não fora em vão. Outra vez, um colega de faculdade foi apresentar seu TCC e me convidou. Fui com ele. Além da banca, fui o único a ouvir a participação. Gravei a apresentação. A mãe deste amigo, que não pôde ir, assistiu e ficou maravilhada com a conquista do filho, criado em meio à tanta dificuldade. Nossa amizade se aprofundou ainda mais depois disso. Falo aqui das coisas boas, mas há também as ruins.

Às vezes nós não conseguimos cumprir com os nossos compromissos. Certa vez, havia prometido de passar o Réveillon num determinado lugar e um dia antes, desisti de ir. Tinha ali, naquele momento, as minhas razões. No entanto, ao furar com uma pessoa que me aguardava, que havia reservado meu lugar, minha cama, meu espaço na mesa, frustrei ela. E foi essa a sensação que tive algumas vezes na minha vida. E acho que isso é bom de se explicar: quando a pessoa fura por um imprevisto é extremamente confortável para nós aceitar isso, mas quando é por uma decisão própria, isto nos fere. Obviamente não temos condições de ver o outro na totalidade e nem de enxergar o que ele passa, mas fato é que sentimos.

Esses dias escrevi aqui no blogue sobre a sensação de ser aguardado. Hoje, ao concluir este texto narrativo e reflexivo, reforço uma conclusão que tirei durante esta viagem: quando a gente puder escolher entre em estar com quem amamos e entre estar com quem nos ama é preferível escolher quem nos ama de volta. Pois quando as coisas esquentam são aqueles que estão próximos afetivamente de nós que ajudam a aguentar o baque, por isso, precisamos prestigiar. Mas mais que isso: entender que um convite feito, dedicado, direcionado à você requer de você uma resposta firme. Porque quem faz o convite te espera. Não há convites irrecusáveis, o que há são oportunidades improrrogáveis. E quando você chegar, quem fez o convite te dirá: “eu sabia que você viria”.

2 respostas em ““Eu sabia que você viria” – uma reflexão sobre convites e presença afetiva”

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