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Eu sou “cringe” desde quando a definição era “cafona”

Na escola, eu era considerado X-9, cafona e pagador de mico. Mas eu continuo sendo cafona, agora atualizado, cringe.

Antiquado. Desatualizado. Cafona. Fora de moda. “Paia”. Pagador de mico. Essas são possíveis variantes da palavra inglesa “cringe” que foi abrasileirada – não na forma, mas sim no seu uso. A expressão mais buscada da semana no Google, inclusive.

Apresentações feitas, esse movimento que a internet potencializa com muita facilidade parte de um efeito produzido pelas mídias sociais na adesão de grupos diferentes em torno de um único termo. A busca pelo que é cringe já é um dos motivos do sucesso do termo. O que nos causa curiosidade nos causa movimento.

Na escola, eu era considerado X-9, cafona e pagador de mico. Eu vou além e dizia que, enquanto adolescente, eu fui um tremendo babaca. Meus comportamentos, reforçados pela intenção de outrem sobre meu sucesso em razões e causas coletivas, eram muito pouco comuns à maior parcela das pessoas da minha mesma idade. Racionalmente, enxergo que hoje sou melhor que na adolescência. Acho que tenho aprendido a viver e isso é bom.

Mas eu continuo sendo cafona, agora atualizado, cringe. Eu continuo usando a escrita para expressar emoções. (risos), (gargalhadas), (lágrimas) continuam a ser parte do meu vocabulário, mesmo com frequente uso de emojis quando estou com dispositivo móvel. Uso “digo, ” ao invés de “*” para corrigir uma frase. Salvo contatos com nome completo. Evito chamar as pessoas por apelidos. Gosto de novelas, embora não tenho assistido mais. Ainda faço ligações e mando e-mail, e às vezes até prefiro o e-mail em relação a outros meios de comunicação. Eu ainda escrevo cartas.

Consigo me lembrar de um episódio em que eu sofri o que chamariam hoje de bullying, mas naquele momento nós chamávamos de zoação. Na sétima série, uma moça da minha escola pediu para “ficar” comigo. Eu dizia que não “ficava”. Usava justificativas tolas. Eu não sabia nomear quem eu era e não me conhecia. Meus colegas me zoaram muito. A escola toda ficou sabendo e nos anos seguintes, todo mundo ainda se lembrava disso. Achavam que eu fosse gay e, por vezes, me consideravam como tal. Saí da escola sem ter tido meu primeiro beijo, o que foi bom, pois depois descobri a importância afetiva do beijo para mim. Hoje, se eu fizesse o mesmo, seria cringe demais.

Não para aí. Continuo sendo cafona nos dias atuais. No início deste ano comprei um celular com sistema operacional atualizado. Existe o modo de operação por gestos que, em tese, facilita a vida de quem usa muito o celular. No entanto, não me adaptei. Tirava print toda hora. Ao usar o celular em modo paisagem, sofria com movimentos involuntários. Esbravejei. Voltei aos três botões. Acredito que se Steven Jobs estivesse vivo hoje diria: “eu tirei os botões de um celular e fiz a revolução na tecnologia dos smartphones e agora que melhoraram, você continua querendo usar os malditos botões”.

Gosto de tentar ser progressista – porque acredito que esse modo de ver a vida é suficientemente adequado para o entendimento que tenho da humanidade: movimento, impermanência. Mas hoje eu sou cringe nestes costumes. E, bom, acho que fico por aqui.

Pra selar esse texto, manifesto outra maneira cringe de ser: todos os anos tiro um sabático, desde 2015, para descansar das mídias sociais. Ano passado completei mais de 160 dias sem acessar Instagram, Facebook e Twitter. Esse ano, a meta é alcançar 180 dias. Por isso, vou ficar esse tempo afastado. Espero que neste tempo eu tenha condições de ler meus livros atrasados (outro sinônimo de cringe) e terminar de escrever o que está em produção.

Que você fique bem e se vacine logo. Até qualquer momento, por aqui. Até 2022 nas mídias sociais.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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