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O dinheiro como meio e não como fim

Que nosso dinheiro compre realizações e não coisas, que compre momentos e não lugares, que compre celebrações e não pessoas!

Minha relação com o dinheiro não é das melhores. Tanto o papel moeda quanto a moeda digital me são um pouco ásperas. Não que eu não trabalhe arduamente para ganhá-lo, mas o dinheiro é levado em consideração somente até certo ponto por mim. Acontece que nem todo mundo funciona da mesma forma e as coisas nem sempre reagem conforme colocamos nossos esforços não monetários.

Trabalhando com cultura desde o início de 2019 (primeiro no terceiro, depois no primeiro setor), pude entender que a maior parte das ações culturais não têm valor financeiro expressivo. Elas movimentam dinheiro, alimentam pessoas, constroem vidas, transformam realidades, mas a maior parte das ações não está ensimesmada na função óbvia de que precisaria trazer rentabilidade financeira.

Acho que isso, de algum modo, me ajudou a humanizar e entender uma parte que sempre tive muita dificuldade: por que pessoas entregam seus corações a outras pessoas dispendendo de tempo e recursos dos mais variados tipos – inclusive dinheiro – sem qualquer necessidade de retribuição ou lucro? Isso vale para amizades e relacionamentos amorosos.

Perceber que precisamos do dinheiro para quase tudo, mas que quase nunca o dinheiro é essencial. Perceber que o dinheiro não é quase nada perto da intenção de fazer. Tudo isso me fez transitar por uma crítica muito forte ao dinheiro e a como me relaciono com ele. Tenho algum nível de desgosto quando penso que preciso cobrar de alguém algo. Definitivamente, não é o meu forte.

Em contrapartida, aos trancos e barrancos, tenho tentado fazer do dinheiro o meio para conquista de meus objetivos. Não das posses, mas sim de meus objetivos. Se tenho por vontade fazer uma viagem, o que me possibilita é o dinheiro. Se tenho por necessidade locar um imóvel, o que me possibilita fazer isso é o dinheiro. Se eu fizer um acordo e fornecer um produto ou um serviço em troca do outro produto ou serviço que desejo… Novamente, o dinheiro está aí. O dinheiro está em quase tudo.

Dinheiro, porém, não é fim. Dinheiro guardado significa segurança? Nem sempre. Às vezes significa desvalorização. Dinheiro aplicado em poupança ou em título de crédito significa riqueza? Nem sempre. Às vezes significa risco. Dinheiro investido em imóvel ou veículo significa posse? Nem sempre. Às vezes significa perdas. Dinheiro só faz sentido quando está sendo usado – no hoje! – e é por isso que não dá para fazer um mau uso do dinheiro: o dinheiro que vai hoje não volta mais.

Ensimesmados pelo dinheiro, pelas posses que ele nos concede ou pelo status socioeconômico que uma quantia permite a alguém, nós estamos nos desvinculando da proposta principal da vida humana: a realização. Dinheiro faz sentido quando serve uma mesa farta de risadas, conversas e comidas. Mas não faz sentido quando nesta mesma mesa é razão para uns desconfiarem fria e claramente de outros.

O dinheiro é meio e não fim. Prefiro usar o dinheiro para alcançar respostas honestas que não me satisfazem do que para dar palco ao utilitarismo. Sou a favor da liberdade para uso do dinheiro. E mais ainda a favor de que as pessoas podem e merecem ser bem pagas pelos serviços que prestam e pelos produtos que vendem. Haja vista, porém, a qualidade que lhes compete. Afinal, estamos cansados de ver grifes lucrando alto não pela sua qualidade, mas pela sua apresentação. E de aparência quem vive, ao morrer deixa escancarada sua pobreza. Mas aos pobres vivos, sua morte os deixam no rol da riqueza.

Que nosso dinheiro compre realizações e não coisas, que compre momentos e não lugares, que compre celebrações e não pessoas!

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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