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Startup de unaienses alcança primeiro lugar em programa de aceleração de Minas Gerais

A startup RuhWater produz pluviômetros inteligentes e controlados por meio de aplicações virtuais. O aporte totalizará R$ 80.000,00 para cada startup que seguir na aceleração.

Dois engenheiros mecatrônicos e dois analistas de sistemas. Essa é a equipe de unaienses que conquistou a participação na edição especial do Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (SEED), maior programa de aceleração de startups da América Latina e o primeiro do Brasil a ser financiado totalmente com recursos públicos. O projeto classificado, a startup RuhWater, produz pluviômetros inteligentes e controlados por meio de aplicações desenvolvidas pelos profissionais. A startup RuhWater figura na lista do SEED em primeiro lugar, empatada na nota máxima, com outras duas startups.

A aceleração

De acordo com as diretrizes do programa SEED-MG, 60 startups seriam beneficiadas na primeira fase da aceleração. 90% das startups selecionadas buscam, com seus projetos, resolverem problemas diagnosticados pelo governo. As 10% restantes entram no que é chamado de “aceleração aberta”, onde as startups buscam solucionar problemas fora do ambiente de governo. Todas as 60 startups selecionadas recebem um incentivo financeiro de R$ 14.400,00. No dia 16 de julho foi publicado o resultado preliminar da fase de performance com um corte de 33% das startups, restando apenas 40 projetos que alcançaram êxito na primeira fase e concluirão a aceleração acumulando, cada uma, um total de R$ 80.000,00 em capital recebido para impulsionar o negócio durante o ano de 2021.

“Não estou crendo”, exclamou Luiz Gustavo Santos, um dos programadores e cofundadores da startup, ao contar para a reportagem que a RuhWater foi classificada em primeiro lugar entre as 40 startups selecionadas pelo programa.

“A maior parte [do dinheiro garantido na primeira fase] nós vamos investir em tempo para desenvolvimento dos produtos – tanto o aplicativo que está sendo desenvolvido para o IGAM e outra parte em equipamentos e insumos para fabricação dos pluviômetros”, esclarece Luiz Gustavo Santos.

A aceleração, no entanto, não é somente financeira. Os selecionados passam por mentorias com especialistas do Estado de Minas Gerais e têm acesso à oportunidades de desenvolver soluções para órgãos e organismos públicos mineiros. Nesta fase, a RuhWater está desenvolvendo testes de sua aplicação no Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) e na Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg).

Gestão inteligente das águas

A startup foi a única selecionada em todo o Noroeste de Minas Gerais e Alto Paranaíba. A ideia surgiu após um hackaton, uma espécie de competição em que profissionais de TI se reúnem com outros profissionais em equipes mistas para resolverem problemas reais através de soluções que considerem o uso de tecnologia.

“Nossa ideia de empresa começou depois que a gente [Mardey e Mateus] participou de um hackaton em Uberlândia […] onde o tema era ajudar a resolver um problema de alagamento na [avenida] Rondon Pacheco, então nós apresentamos uma proposta em que colocávamos pluviômetros e fazia análise com inteligência artificial através de câmeras para ajudar a Defesa Civil, Bombeiros e a Polícia a antever e evitar a perda de vida humana”, conta Mardey Rodrigues.

“A primeira fazenda em que a gente colocou [os pluviômetros] fica perto de Uberlândia, ficou em teste por bastante tempo até que a gente resolveu começar a fazer isso para mais pessoas, com a intenção de venda mesmo”, completa o diretor executivo da RuhWater.

Mardey Rodrigues conta ainda que o produto envolve internacionalização. “Nós tivemos que refazer algumas coisas, mexer em alguns parâmetros pra gente conseguir escalar a nossa aplicação. Colocamos o pluviômetro, mudamos o módulo dele, mandamos as placas pra China, fizemos placas na China, trouxemos, fizemos as montagens na estrutura” e a partir daí as primeiras vendas foram feitas.

Arte explicativa sobre o pluviômetro (Fonte: RuhWater/Reprodução)

O produto principal da startup é um pluviômetro inteligente. Autoalimentado por energia solar, com GPS integrado e com cobertura média de 100 hectares, o equipamento é instalado no campo e se comunica com a aplicação da RuhWater via satélite e em tempo real. De acordo com os fundadores da startup, o equipamento tem longa vida útil e é resistente às intempéries do tempo e custa em média R$ 3.100,00. A aplicação e as demais customizações são combinadas à parte, tal como a manutenção do equipamento e do sistema.

Experiências que somam

Altegno Dornellas, aos 58 anos, é analista de sistemas formado no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM) em 2015. Em 2016, abriu uma empresa de programação junto de outros colegas programadores da mesma faculdade. O aplicativo Coleta Leite desenvolvido pela GSA Sistemas está em operação e ajuda fazendas e cooperativas a rastrear o caminho e a qualidade do leite. A experiência de Altegno com o leite, no entanto, não é recente: técnico em Leite e Derivados desde 1981 pelo tradicional Instituto de Laticínios Cândido Tostes em Juiz de Fora-MG, o atual diretor de negócios e parcerias da RuhWater é também Gerente Industrial na Cooperativa Agropecuária Unaí (Capul). Sua trajetória acumula ainda a participação no Comitê Gestor do Inovaí, ecossistema local de inovação de Unaí-MG.

Sistemas embarcados com dispositivos de comunicação via satélite é a especialidade de Mardey Rodrigues, engenheiro mecatrônico formado pela Faculdade do Noroeste de Minas (Finom) em 2018. Após quase uma década trabalhando na área administrativa e de produção de uma retífica, Mardey resolveu trilhar o caminho da automação industrial e das aplicações em sistemas embarcados. Por mais de dois anos trabalhou como analista de tecnologia na iCrop, empresa de gestão de irrigação que possui a maior rede de estações meteorológicas distribuídas no Brasil. A passagem pela faculdade e pela iniciativa privada deram ao engenheiro mecatrônico de 27 anos confiança para liderar a atuação da RuhWater no mercado e a participação da startup no SEED-MG.

Apesar de ter começado com poucos profissionais, a startup hoje agrega cerca de oito pessoas desde quem está em campo até quem programa as aplicações, desenvolve a comunicação e os negócios da empresa. São seis sócios, dos quais três são fundadores do negócio e apenas quatro participaram das fases de seleção do SEED. E duas funcionárias, uma que cuida do marketing e outra cuida da emissão de notas fiscais e das relações financeiras.

Primeiros impactos

O programa de aceleração estadual de startups tem uma função educativa também. Os profissionais da startup, enquanto são acelerados pelo programa, devolvem parte desse aprendizado e do que estão recebendo em forma de contrapartida de serviço, mentorias, palestras e participações na sociedade local.

Desde o início da aceleração, a startup RuhWater desenvolveu várias atividades em Unaí-MG. Duas delas foram apresentações para acadêmicos e atores do empreendedorismo local: uma participação no Seminário de Empreendedorismo da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e uma participação no Webinar “Startups em Unaí” promovido pelo i9 Unaí – Ecossistema Local de Inovação.

Participação de membros da equipe no Seminário de Empreendedorismo da UFVJM (Foto: Youtube/Reprodução)

No entanto, não para na disseminação de conhecimento tácito. Os fundadores da startup vão difundir o empreendedorismo e técnicas de gestão de processos para a mais tradicional e pioneira associação de reciclagem de Unaí-MG, a Associação Recicla Unaí (Areuna). De acordo com a equipe, a associação já possui um computador que pode ser usado para fazer as tabelas, o que faltava era orientação, algo que o SEED proporcionará por meio da contrapartida da RuhWater.

Com o recurso financeiro da aceleração garantido, os investimentos no desenvolvimento e expansão vão seguir. “A gente prestava serviços para fora, mas com esse dinheiro entrando já dá pra focar mais e ficar por conta da empresa pelo menos até desenvolver esses produtos e decolar”, vibra o analista de sistemas Luiz Gustavo Santos.

Mardey Rodrigues conta que a trajetória da RuhWater foi engraçada, cheia de desafios, mas que agora os rumos são de expansão. “Foi um percurso bem engraçado até aqui, bem complicado, mas graças a Deus deu tudo certo, estamos selecionados, agora a gente está com a mente na expansão da empresa, outros produtos de solução hidrológica”, anuncia Rodrigues.

A RuhWater realiza também, por intermédio da Faemg, duas provas de conceito (POC, no termo em inglês), sendo uma no município de Paracatu e outra em Pirapora-MG. O objetivo é testar o projeto da startup dos unaienses em situações de campo, totalmente reais, práticas e fora do contexto local em que estão inseridos. As provas de conceitos são acompanhadas e parametrizadas por mentores do SEED, podendo gerar resultados ainda mais firmes sobre a sustentabilidade, praticidade e eficiência da aplicação da RuhWater.

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Foto de capa: RuhWater/Divulgação

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