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Millennials, frustrações e coragem – um papo

Estamos frustrados e podemos ser considerados em algum nível azarados, se comparados com a geração anterior. No entanto, é neste espírito que crescem duas outras fortalezas: a vida e a coragem.

Esses dias eu perguntei a uma garota de quem gostava muito como eu poderia fazer para conquistá-la. Eu já tinha tentado de tudo quanto é forma para caber na vida dela, mas não achei espaço. Restou, portanto, uma pergunta simples e direta. A resposta dela foi que não havia como conquistá-la, pois ela iria atrás do que ela merecia. Isso, indiretamente, significava que eu não estava no nível que ela merecia.

A situação com esta moça foi um pouco traumática. Mas me reforçou a ideia de que talvez eu tenha uma distorção gigantesca sobre a forma como enxergo a vida. E não me gabo disso, pelo contrário, sinto que as coisas são difíceis para mim porque eu as dificulto. Relacionamentos amorosos, por exemplo, me são difíceis porque eu não costumo me encaixar em algumas premissas que ensinam por aí.

Mas por um outro lado, eu entendo que ir atrás do que se merece é algo bom. Porém, em uma análise mais profunda, relembro do trecho da música “Suicídio ao Contrário”, da Banda Tópaz, em que a banda canta:

“[…]
Peguei papel principal pra mim
Das cenas que antes eu só comentava
E assumi que o mundo não me deve nada
O que eu quiser vou ter que buscar
[…]”

Suicídio ao contrário, Banda Tópaz

Assumir que o mundo nada nos deve é primordial para buscar o que sonhamos e queremos. No entanto, precisamos também reforçar um interessante ponto: embora a vida não nos deva nada, ela nos apresenta situações convidativas e muito ideais. Cabe a nós usá-las ou não, com a assunção de todas as consequências.

É neste espírito que te convido para uma reflexão sobre as frustrações nossas de todos os dias. E como elas podem amadurecer pessoas como eu, bobões que querem o mundo à sua disposição.

Millennials: frustrados, azarados, mas vivos e corajosos

Alguns especialistas geracionais vão dizer que os millennials são nascidos entre 1985 e 1995. Outros ampliam para 1980 a 1997. Assim como boa parte dos profissionais de ciências sociais aplicadas, eu acredito que o conceito de geração está muito ligado à percepção local de um povo. É impossível, no meu ponto de vista, comparar a geração por datas sem considerar os aspectos sociológicos, demográficos e econômicos em torno de cada pessoa.

Passada a minha argumentação, assumo que a geração dos millennials estão hoje com 20 a 39 anos. É sobre esse grupo, mais especificamente sobre os sudestinos (isto é, residentes do Sudeste do país) com classe social média-baixa e baixa, que quero conversar. Uma conversa de pé de ouvido porque falo de mim, do alto de meus 24 anos de idade, e das minhas conclusões acerca do mundo que me cerca. Novamente, reforço as particularidades existentes em cada grupo geracional.

Eu sei que você provavelmente não esperava que o mundo atravessaria duas grandes crises econômicas – uma provocada pelo próprio setor econômico e outra por um vírus com alta disseminação e sem vacina abundante no primeiro ano de pandemia. Enquanto a crise de 2008 nos EUA trouxe impactos mais diretos em 2014 até 2018, devido ao retardamento provocado por políticas de aquecimento financeiro durante a gestão de Lula e Dilma, a crise de 2020 ainda não mostrou seus impactos econômicos mais graves. Porém, o que já se vê é um desemprego crescente, negócios antes fortalecidos e agora mortos e pessoas com graves dificuldades para se sustentarem diante de preços em alavancagem.

Essa geração cresceu com sede de oferecer o melhor para os seus filhos e esperava a abundância e facilidade que seus pais tiveram (é importante lembrar, por exemplo, que muitos servidores públicos com estabilidade hoje jamais precisaram fazer um concurso, que muitos comerciantes enriqueceram durante o período da hiperinflação e muitas pessoas que hoje têm posses imobiliárias foram abraçados pelas políticas de regularização de imóveis, legitimando uma posse comprada a preço de banana e agora muito valiosa).

O que essa geração, porém, encontrou foi: governos quebrados, com transparência e burocracia aprimoradas, baixas oportunidades de empreender com pouco e uma relativização muito grande do tempo a partir da internet que fez crescer e morrer mercados em meses ou anos. De um outro prisma, a geração se encontrou com fantasmas: a cobrança de seus pais, a superficialidade na formação estudantil e a incapacidade de lidar com as emoções, não trabalhadas anteriormente e nem estimuladas pelos pais.

Todo esse peso contribuiu para uma visão horrorizada da vida. Tudo era e é muito diferente do que vivemos nós na infância. E isso assusta. Os nativos digitais lidam muito bem e melhor com a tecnologia e inovação que nós. O que não significa, porém, que somos atrasados. Apenas temos um gasto maior de energia para fazer. Enquanto os adolescentes e crianças de hoje praticamente aboliram o uso do computador de mesa e do notebook, nós ainda nos sentimos confortáveis em ter uma máquina potente em casa.

Estamos frustrados e podemos ser considerados em algum nível azarados, se comparados com a geração anterior. No entanto, é neste espírito que crescem duas outras fortalezas: a vida e a coragem.

Os millennials já tomam a maior parte das decisões de mercado, de governo e no terceiro setor. Eles são pais e mães que buscam a vida como forma de mostrar aos filhos que não existe outra forma de viver senão vivendo.

E é exatamente sobre a vida, um componente que mostra que ainda há possibilidade de haver decisões, de haver escolhas, de haver mudanças. Enquanto vivos, os millennials ainda podem transformar suas realidades.

Vivos, os millennials são capazes ainda de se tornarem uma geração bem sucedida. Não nos termos financeiros que a geração anterior valorizava tanto. Mas sim no resultado humano. São os millennials os responsáveis por discussões progressistas que têm mudado as leis e permitido comunidades viverem com mais liberdade e autonomia. São também responsáveis por avanços científicos e tecnológicos. São os millennials a geração do momento.

E cabe a nós valorizar o que aprendemos até aqui. Pessoas valem mais que coisas. Realizações e momentos são comprados, vínculos e pessoas não. E por fim, talvez uma das melhores conquistas desta geração: até das desgraças é possível retirar alguma alegria. Eis o século da diversidade. Estamos chegando no século XXI de verdade. Vai ser um tempo de difícil adaptação, mas perto do que já foi vivido, podemos abrir o peito e dizer: vem com tudo!

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