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Manifesto pelo jogo limpo nas relações afetivas

Jogar limpo não é uma diferenciação, digna de aplausos, mas sim um imperativo para existir a afetividade em nossos relacionamentos duradouros.

Antes de qualquer coisa, que se compreenda que eu não escrevo a fim de atingir uma ou outra história em específico, mas sim toda a História: jogar limpo na afetividade deixou de ser um critério de diferenciação e passou a ser imperativo. Posso explicar.

Me conta aí, você que está solteiro ou solteira, qual foi a última vez que jogaram limpo com você sobre o que sentiam por você? Você que está casado ou casada, sente que seu cônjuge joga limpo com você? Você que está num namoro, considera a relação um ambiente de honestidade?

Se sua análise foi honesta, as suas respostas podem te deixar inspirado ou inspirada a continuar a leitura deste texto/manifesto.

Liquidez

O mundo é líquido. Bauman cravou o conceito de modernidade líquida. Relações expressas. Rompimentos expressos. Tudo é quebradiço. Tudo se adapta e flexibiliza a ponto de não existir mais consistência. Não à toa divórcios selam casamentos cada vez menos duradouros. Namoros que não evoluem ao casamento. Paqueras que não passam de uma noite regada a carícias e prazer sexual.

Diante de tudo isto, as relações mais consistentes se tornaram um fardo imenso. Torna-se difícil, complicado, pesado e principalmente, custoso demais – em termos físicos, financeiros e psicológicos – manter relações mais duradouras.

Com a liquidez habitual das relações, os jogos de sedução, as paqueras e aquele jogo clássico com intencionalidades não ditas parece ser desnecessário. Na era do Tinder, estar ali naquele app já significa estar à procura de um par. O espaço de descrição do perfil se torna mais um ambiente para explicar quais são as pretensões do indivíduo que ali se posiciona.

No entanto, ao invés de a liquidez característica de nossos tempos pesar a favor, parece que ela tem pesado contra. Os jogos de sedução costumam estar cada dia mais bem elaborados. Há até especialistas no Instagram que vendem cursos sobre como atrair uma pessoa, fazer o jogo da sedução e até mesmo dar um ‘chá de sumiço’.

Falta a afinidade

Um amor real qualquer que se preze tem três pilares de afinidade: a afetiva, a emocional e a intelectual. Estudiosos afirmam isso com base em análises psicológicas. Mas isso é bastante sintetizado neste texto da Sílvia Marques na Obvious.

Nos falta afinidade nos amores expressos, por isso eles não satisfazem e permanecemos com fome de amor mesmo após aquela pegada quente. E quando as afinidades começam a aparecer, aqueles que não correm pelo medo que os é característico, podem tomar o caminho da ameaça pra afastar aquele de quem está afim, ou então se entregam, mesmo que a conta-gotas, para uma relação.

Nessa relação, decerto a afinidade emocional estará presente. É aquilo que está ligado à cama, ao sentimento, ao corpo. Já a afinidade intelectual está diretamente ligada à forma do pensamento, ao modelo mental, à forma como a pessoa toma decisões – só é possível conhecer essa afinidade convivendo com a pessoa por algum tempo.

A afinidade que falta é a afetiva. Essa, sim, bem difícil de encontrar e mais ainda de ser identificada. Recapitulando: já está difícil ter ‘algo’, mas isso se complica mais ainda porque nem todos os ‘algos’ são compostos do tripé de afinidades. É bom lembrar que esta última afinidade costuma ser construída ao longo do tempo e, devido a isto, as relações líquidas não a constituem com frequência.

A falta disso tudo nos leva, muitas vezes, a querer transformar relações possíveis em relações reais. Damos a isso o nome de relações idealizadas. Antigamente elas costumavam ser constituídas com ídolos (artistas, principalmente) cujos fãs acreditavam ser amados e afetivamente ligados a eles – mas tudo, claro, não passava de uma estratégia funcional de marketing. Luan Santana, RBD, Neymar e outros surfaram muito bem nesta onda.

Podemos também construir relações idealizadas mais próximas a nós. Quando o sentimento é unilateral, por exemplo, e decidimos seguir com esta paixão tal sentimento se transforma num idealismo profundo. Para alguns é a única forma de transformar a paixão em algo morto é vivendo aquelas emoções como se fossem legítimas.

No entanto, pode ser que uma relação idealizada aconteça porque de um lado há um sentimento e de outro há mentira. Ou mesmo que não haja mentira, pode haver jogo sujo. Explico o que seria: uma pessoa que lhe afirma categórica e descritivamente que não quer nada contigo e mesmo assim insiste inúmeras vezes em manter um contato afetivo, sabendo ali de suas limitações de separar a afetividade romântica da afetividade admiradora – característica da amizade. É jogo sujo.

Pelo jogo limpo

Um jogo limpo começa em nós. Precisamos olhar no espelho e bancar nosso sentimento. Bancar mesmo de abrir a carteira da dignidade e falar: eu realmente vou colocar tudo na mesa e mostrar, sim, que eu gosto dessa pessoa. Porque ninguém, ninguém mesmo, é obrigado a adivinhar o que queremos ou o que sentimos.

Eu sei que é engraçado dizer isso pra alguém que, provavelmente, teve o coração quebrado uma ou várias vezes. Ao ler o que escrevo tenho a sensação de estar sendo um palhaço ao fazer o proposto, mas observando mais de longe, o resultado vale a pena.

Se o amor está à mesa, ele convida para uma resposta. Há pelo menos três reações possíveis. A primeira é o banquete ser deliciado como a última das ceias. Outra é o banquete ser deliciado por alguém que parece estar de dieta. Outra ainda é a pessoa levantar-se da mesa e recusar o banquete à mesa.

Há aqueles que querem se levantar do banquete e levar uma marmita para casa. Não permita. Há também aqueles que nem sequer provaram do banquete, ainda assim insistem em pôr defeito no cozinheiro. Sirva a porta de saída como cortesia. Há quem se levante do banquete, agradeça o convite e saia educadamente – eu gosto dessas pessoas.

Mas especificamente aqueles que trazem o banquete como memória, tendo se servido mal ou não se servido nele, esses não jogam limpo. Se o sujeito não quer nada contigo, suma. Se você não quer nada com o sujeito, suma. É um caminho. Pode não ser o melhor. Mas se você é fraco como eu para lidar com relações que não vão bem, é a opção mais sensata. Sumir.

Sumir não é punir com ausência. Nada disso. É apenas retirar-se da equação. Pra chorar, pra afogar as mágoas, para aprender algo novo, pra assistir a um filme sozinho, pra chorar mais uma vez. Suma. Retire-se da equação. Onde a outra pessoa está, não pise o pé. Isso se aplica, inclusive, em lugares afetivos – aquele lugar em que vocês iam, onde vocês se viam todo fim de semana, procure outro lugar, divirta-se em outro canto da cidade.

Reforço: tudo isso precisa ser feito às claras. Uma mensagem de WhatsApp costuma resolver essa obrigação de se afastar às claras. Mas pode também ser uma conversa pessoalmente.

Cuidado com o contexto

Jogar limpo nas relações afetivas depende, também, do contexto em que a relação está inserida. Eu, certa vez, estava convencido de estar jogando limpo com uma pessoa. Mas como nenhuma das minhas investidas resultava em nada, resolvi escrever isso em letras claras e óbvias. Finalmente, obtive a resposta que me esclareceu tudo. Ela só queria amizade, mesmo tendo entendido que eu queria um namoro.

O contexto em que nossas ações estão inseridas precisa ser avaliado. Se falamos que gostamos de alguém, a palavra gostar pode ser entendida num sentido mais fraterno ou num sentido mais romântico. As duas interpretações são legítimas e parte do emissor, que deseja que a comunicação seja entendida, esclarecer que tipo de gostar é esse. Eu costumo sugerir que o jeito mais fácil de fazer uma interpretação se tornar assertiva é transformar ela em uma indicação de futuro, a depender dos cenários em que ela está inserida.

Por exemplo: imaginando que um rapaz goste de uma moça e queira namorá-la. O ideal seria ele afirmar exatamente isto a ela. Mas se há vergonha de tamanha objetividade, pode se construir dois cenários e trabalhar a comunicação a partir deles. É indireto, não se caracteriza um jogo de sedução, mas produz o efeito assertivo desejado. Ele perguntaria: você nos enxerga como amigos ou como possíveis namorados?

Uma pergunta com cenários pode trazer uma resposta mais objetiva sem que a vergonha da objetividade precise ser colocada à mesa. O que não existe é aquela coisa de “não dá pra saber o que o outro quer”. Dá sim. Sempre dá. Se a pessoa te responde, você sabe. Se não te responde, também. A menos que ela peça um tempo para a resposta, a ausência de resposta é uma resposta. Escancaradamente, a pessoa está dizendo que nada quer contigo ao não responder.

Os riscos e benesses de se jogar limpo

O amor é a vulnerabilidade escancarada. Ao nos entregarmos a alguém, estamos entregando nossas vergonhas, potencialidades e também os nossos interesses, sonhos e vontades. Tudo continua a ser nosso, no entanto, outro alguém agora tem a informação sobre aquilo que outrora era íntimo ou reservado a alguns de nossos melhores amigos ou apenas a consanguíneos. Portanto, ao jogar as cartas na mesa, há o risco de sermos caçoados, estilhaçados, enganados e até mesmo de sermos machucados, mas jamais seremos destruídos.

Há, também, benesses. Ao jogar na mesa nossos sentimentos e sonhos, podemos encontrar um terreno fértil que nos devote tempo e disposição para se juntar conosco. É o caso, por exemplo, da pessoa que chama a outra para um namoro e, em meio àquela conversa, fala-se sobre o financiamento de um apartamento, por exemplo, e há concordância de ambos em trabalharem neste sentido. Um sonho que se sonha em conjunto é mais fácil de ser realizado porque os esforços empenhados para sua realização são potencializados. É matemática simples. Mais com mais é mais.

Se é matemática simples, menos com menos também é mais. Sim. E não está errado. Casais que não jogam limpo também constroem riquezas e alcançam conquistas. Acontece, porém, que aquele tripé da afinidade nunca fica completado e a relação que deveria ser afetiva passa a ser uma relação estritamente profissional. Tudo está sustentado na construção físico-financeira e não no afeto, naquilo que o dinheiro é incapaz de interferir. Esse tipo de relação, embora construtiva do ponto de vista social, resulta em divórcios mais dia menos dia.

Acho que se você leu até aqui, você já entendeu que jogar limpo não tem a ver com uma diferenciação, algo digno de aplausos, mas sim como um imperativo para que possamos fazer existir a afetividade em nossos relacionamentos duradouros.

Portanto, é neste ritmo de universalização da necessidade do jogo limpo na afetividade que eu encerro afirmando que você pode continuar jogando sujo, pode continuar nas suas intenções de desenvolver relacionamentos expressos, ou pode escolher jogar limpo. A escolha é sempre sua e sempre tem a ver com qual futuro cenário você deseja pra si.

Eu escolhi o meu cenário e, em reflexão recente no blogue, o descrevi. Me resta agora jogar limpo para torná-lo real. Que Deus me ajude. Que Deus te ajude. Amém.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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