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De repente, tudo floresce outra vez

Contando assim parece até que foi “fácil” viver essa semana com todas essas transformações internas misteriosas, mas não foi. Só que valeu a pena.

Este não é um texto romântico, embora seja 100% sentimental. Pode parecer realista demais escrever sobre a primavera de nossos sentimentos utilizando de nossas dores e de uma dicotomia persistente entre o antes e o agora? Não sei.

Hoje eu passava na rua enquanto vi ela rodeada por rapazes. Sorria com aparência feliz. Não parecia irritada nem muito menos triste. Parecia extremamente sociável, madura e competente para resolver tudo por si só. Foi bonito ver tudo isso. Eu fiquei com um pouco de ciúmes ao vê-la rodeada por rapazes, de novo? Não, desta vez não.

Mas antes de explicar isso, preciso voltar para sábado passado. Mensageiros desinstalados, uma viagem prevista, um freelancer desmarcado e uma expectativa de rodar quilômetros no volante de um veículo. Daí um pouco, tudo desmorona e não há viagem. Restou-me tempo. Fui comprar uma pulseira nova para meu relógio bluetooth, dali segui, cumprimentei conhecidos pela rua e parei num salão. Meu cabelo beirava nove meses sem corte desde que havia zerado todos os fios pela primeira vez na vida. Estava grande, mas vistoso. O cabeleireiro sugeriu um degradê e fiz. Amei.

No mesmo dia, um passeio por um espaço de um futuro residencial que será construído na cidade. Encanto? Demais. Sonho total, realidade de menos. Cores, vida, conceito goianiense. Preço alto também. Sonhei enquanto caminhava com minhas sacolas na mão. Era apenas um garoto de cabelo cortado e sem dinheiro no bolso, mas sorridente. Passei por ruas novas. E cheguei em casa.

Deitei-me sob o sol e fiquei ali até cochilar. Ao acordar, comi um chocolate e fui ver filme. No fim da noite, um cochilo gostoso e mais outro filme. Blade Runner me prendia a atenção. Pedi um hambúrguer recomendado há tempos por um amigo enquanto assistia ao filme balançando suavemente em minha rede.

Contas a pagar, pressões de todo tipo, decisões a tomar, mas meu coração ligeiramente parecia me sinalizar que eu estava florescendo outra vez. Havia dentro dele, eu reconheço, uma expectativa de 0,00001% que um presente que seria aberto na segunda-feira por ela poderia mudar radicalmente a relação que tinha com ela. Mas parece que ele se preparava para sepultar essa expectativa com o passo final do processo de luto emocional – a aceitação.

Na madrugada, tentei orar e não consegui. Vencido pelo cansaço, dormi. No dia seguinte, acordei às 8h e fui trabalhar. Era um domingo. Me remontava a adolescência, em tempos quase remotos. Levei meus livros e terminei a trilogia de obras de Sartre que estava lendo. Tive tempo para sublinhar e apontar reflexões. Minha cabeça voava de vez em quando. Precisei reativar os mensageiros e ali nada vinha de novo.

No fim do dia, retornei para casa. Resolvi lavar as roupas que aguardavam já há alguns dias essa ação minha. Organizei a cozinha, fiz alguma limpeza necessária e embalei o lixo. Também organizei os equipamentos que levaria para o trabalho no dia seguinte. Algo no meu coração que eu não sei até agora explicar o que era me movimentava para frente. Assisti a vídeos. Chorei largamente. Era uma emoção diferente, parecida com outras de outro tempo, mas extremamente indescritível.

Aquele domingo que geralmente era pensativo continuou sendo, mas desta vez, resolvi pegar minha roupa mais leve e ir comer uma batata frita. Passei na doceria e comprei uma pipoca doce para a sobremesa – que acabou ficando para a segunda de manhã. Naquela noite, sentado numa mesa de bar sozinho, escrevi um manifesto. Muitas emoções, sentimentos e pensamentos outrora desorganizados resultaram num dos textos que mais gostei de fazer.

No fim da noite, a angústia no meu coração voltava e eu acionei ela por e-mail para instruí-la sobre o presente. Era uma surpresa. Jamais ela imaginaria o que estaria ali dentro. Tudo que ela havia ganhado era uma sutil amostra do que ela ganharia no dia seguinte – tanto em termos de valor monetário quanto de valor afetivo. Todavia, era um afeto diferente. Ali eu já não me sentia confortável para dizer que a amava nem tampouco para tocar em sentimentos. Mas reforcei o afeto que tinha por ela e parecia estar começando a transmitir isso. Haviam sido 15 dias intensos no fim de julho, pensando diuturnamente no presente, criando, escrevendo, comprando itens, e estudando todos os cenários em que ele poderia se desenrolar. No fim, tudo aconteceu exatamente como deveria e como era esperado – sem nenhum impasse, percalço, mudança de cenário ou de rota. Apenas uma reação verbalizada que me deixou feliz, a anotação escrita de que ela havia amado “o presente todo”.

E eu acordei na segunda-feira. Não é todo dia que eu acordo, olho no espelho e me acho bonito. Mas naquele dia, ah, naquele dia eu achei. Coloquei uma roupa confortável, me borrifei todo de perfume após um banho gostoso. Naquele mesmo dia, marquei para o dia seguinte, uma hora com a manicure que me atendia até poucos anos atrás. Eu estava diferente. Me sentia diferente. Parecia diferente. Cria que estava diferente.

Lembro-me de ter entrado no banheiro do meu trabalho e, ao olhar no espelho, cheguei a fazer uma dancinha. Comemorava o quê? Não sei. Sinceramente, não sei. Talvez era uma comemoração antecipada de hoje? Não sei.

Mas assim foi segunda, terça, quarta, quinta e hoje. Todos os dias, episódios de estresse, imperfeição, erros, desastres e outras impertinências no trabalho, na vida acadêmica, mas também surgia dentro de mim uma garra para tentar me levantar, me organizar e reforçar em mim o que precisava: a coragem de assumir todos os meus B.O.s e seguir em frente.

Contribuiu para isso todos os elogios sobre o meu novo corte de cabelo. Menos o dela, que não existiu. Do contrário, logo após abrir o presente, um dia depois ela disse se sentir irritada com qualquer palavra que eu dissesse. A propósito, eu não entendia. Cheguei a perguntar por várias vezes a ponto de ela ameaçar com bloqueio e argumentar que eu não sabia ouvir um “não”. Me senti mal e por um período do meu dia, reservei-me a ficar sozinho e chorar em silêncio sem deixar cair nenhuma de minhas lágrimas. Mas ali eu parecia ter certeza de que aquilo era mais uma impulsão para avançar sem medo.

Recebi um presente generoso de meu pai também no início da semana. Fora a primeira vez em minha vida que aceitei receber uma quantia de dinheiro que fosse suficiente para além de um lanche ou de uma calça jeans. Minha atual situação financeira aceita qualquer dinheiro lícito que venha somar. (risos) Tomei as decisões financeiras que precisava e recuperei um pouco mais de segurança e controle de meu orçamento – ainda em cacos.

Talvez esta tenha sido também uma semana de afetos inesperados e conexões raras. As mulheres, o feminino, são incríveis e trabalhar com chefias femininas é sempre um aprendizado grande. Rodeado por cerca de sete mulheres diariamente, das quais pelo menos duas efetivamente “mandam” no meu trabalho, sou um dos homens mais agraciados dessa terra. Mas nesta semana, um afeto muito específico, uma conexão muito específica, me fez entender que às vezes a gente pode ser muito mais do que uma pessoa que passa: a gente pode ser alguém que fica no coração dos outros sem necessidade de estabelecermos uma relação amorosa ou de amizade profunda, por exemplo.

E bom, não bastasse tudo isso, hoje eu acordei com expectativa de vacinar contra a covid-19, caso a idade mínima fosse abaixada em um ano. Mas não foi. Havia preparado a minha melhor roupa, a minha plaquinha de registro, mas ainda não foi hoje. Talvez segunda (e eu amo as segundas-feiras) eu me vacino. Hoje o dia foi pesadíssimo. Imagine pesado e quintuplique. Mas me senti parte, pela primeira vez, em quatro meses de função nova, de um problema efetivo. Sair dele, encontrar uma solução, será algo que me ajudará a crescer. E assim avancemos.

Mas bom, hoje à noite, tudo se completaria com minha noite totalmente em casa, após um bom banho quente. No entanto, saí para comer um cachorro-quente. E por ali, no bar da frente da hotdogueria, local em que ela batia ponto todo santo fim de semana, ela estava novamente. Passei pela rua de carro antes de ir ao cachorro-quente. E ali vi ela. Meu colega de trabalho, que a viu e já conhecia uma parte bem pequena da história, disse: “essa menina não é pra você, não faz seu estilo, ela é baladeira, você não tem cara disso”. Consenti.

Pela primeira vez, após inúmeras vezes martelarem vozes de amigos e conselheiros meus que insistiam que eu estava investindo sem chance de sucesso, eu aceitei sem dor. Consenti. Tinha ali uma ponta de incômodo, mas não tinha mais dor aquele tipo de afirmação. Voltei pra casa, olhei no espelho e falei comigo mesmo por mais de dois minutos. Enfatizei que eu também tinha o direito de voltar a ter meus dias de sossego e que não precisava estar preso à ela. Eu poderia passar na mesma rua sem ter meu corpo todo estremecido.

Quando voltei à pé, do outro lado da calçada, visualizei tudo outra vez. Desta vez, ela fez questão de visualizar-me sutilmente. Um jovem de 17 anos havia sentado à minha mesa e enquanto conversávamos, não prestei atenção no outro lado da rua. Mas ao sair do estabelecimento, vi que ela estava em outro ponto do bar. A visão tocava a mim de vez em quando. Encontrei-me com um amigo que noticiou ter noivado e meus olhos brilharam. Convidei-o para meu aniversário, que inclusive ela também está convidada, mas obviamente não vai assim como no do ano passado não quis ir.

Quando saí do lanche e voltei pra casa, passava pela minha cabeça um milhão de coisas, mas entre isso tudo, a mais importante: o fato de eu ainda pensar nela mesmo tendo enxergado, agora, que pareço estar numa fase final do luto emocional por uma relação que nunca existiu.

Fiz o que achava que deveria e segui com a organização de meu aniversário. E no meio da madrugada, como forma de registro e de dispensação de tudo isso que pensei, resolvi escrever este texto. Contando assim parece até que foi “fácil” viver essa semana com todas essas transformações internas misteriosas, mas não foi. Só que valeu a pena.

Que Deus tenha misericórdia de mim e me dê paz. Que ela seja abençoada por Deus como todas as outras que, por meu coração passaram, foram (ou pelo menos parecem ter sido). Que o bálsamo de transformação que me fez florescer a vida outra vez me traga a chance de desenvolver um amor real. Amém.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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