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Tudo em mim é palavra

Do alto da ponte das letras ditas, escritas, tocadas ou sentidas, vejo a vida e tudo que nela há.

Julgo que ainda tenho muitos objetivos e sonhos a serem alcançados, mas numa análise honesta, daqui pra frente é só lucro. Essa é uma reflexão que marca os meus 25 anos de idade, idade em que considera-se socialmente o surgimento de crises menos traumáticas e mais aprofundadas sobre o futuro.

Em cima de meus ombros está uma trajetória. Nem grande nem pequena. Nem melhor nem pior. Uma trajetória minha. E só minha. Se eu não existisse ela não teria existido. Existencialista que sou e, por essa razão, dono de um olhar extremamente narcisista, me ponho a falar um pouco daquilo que só eu posso falar: de mim mesmo.

Ao invés de compor músicas, peças processuais, relatórios, receitas de bolo ou receitas médicas, resolvi escrever textos. Me tornei escritor. E como escritor, sou humanizado. Porque a palavra tira de mim aquilo que eu não consigo manifestar sem ela: meus afetos e desafetos. Não há ninguém mais inteligível que eu mesmo se eu estiver conversando comigo mesmo, não há ninguém que me entenda tão bem quanto eu mesmo, não há ninguém que goste tanto do que eu escrevo e falo a não ser eu mesmo.

Tudo, absolutamente tudo, que sou depreende da palavra: falada, sentida, escrita. Tudo em mim resume-se em palavra. Não é uma ou outra palavra, mas sim ao que a palavra é. A palavra verbaliza, constrói, transmite e destrói.

Pesa sobre meus ombros uma trajetória de peso também. Meus pais me trouxeram muito do que sou. Muito além da ancestralidade que deposita em nós a genética, há também a convivência e ensino. Minha visão de mundo parte da minha infância e adolescência, fases as quais meus pais estiveram presentes.

Neste contexto familiar, a palavra novamente ressurge como um instrumento primordial. Filho de comerciantes, falar era instrumento que permitia desenvolver o negócio, desenvolver relações e fortalecer o sentido e papel da palavra. A palavra sempre esteve em mim.

Garanto que não exista nada em mim que não tenha a palavra como base, meio e fim. Até mesmo minha leitura historicista da vida requer a palavra como instrumento. É difícil demais não imaginar a palavra dando forma a tudo que penso.

Mas que palavra é esta? Acho que essa indefinição também tem um aspecto de certeza. Quebradas as certezas iniciais que o fanatismo, de qualquer ramo, nos condiciona, acredito que aquilo que chamamos Deus tem a mesma conotação daquilo que chamo de palavra.

Deus não tem nome, mas é chamado, ninguém nunca o viu, mas é adorado. Aquilo que nos é mais próximo da representação humana de Deus se prova a partir de suas atitudes, Jesus Cristo, que foi um de nós. A religião é um sistema, uma lente, que nos permite tentar entender a plataforma sobre a qual estamos vivendo, nos movendo e existindo (Atos 17), isto é, que tenta nos explicar Deus.

Tudo em mim, portanto, é palavra. É o inexplicável que toma forma. É o gesto que, palavreado, recebe o nome de atitude. Qualquer negação a isto é negar quem sou e o que sou. Tudo aquilo que me ameaça só tem efeito quando ameaça quem eu sou. E se sei minimamente quem sou, apenas aquilo que é significativamente ameaçador me causa dor, angústia e medo.

E o que seria, portanto? O silêncio. A mim, o silêncio é punitivo, vil e consequentemente mortal. Se você quer me atingir, não me responda, deixe várias perguntas sem resposta e não me permita saber, por meio da palavra, o que pensa, sente, quer ou não quer. É o suficiente para despertar um modo de retirada de costas à guerrilha. É um suicídio proposital. Tudo que me silencia me mata.

Do alto da ponte das letras ditas, escritas, tocadas ou sentidas, vejo a vida e tudo que nela há. Gosto de dar nome às coisas. E tenho extremada afeição pelo que é único ou minimamente único. Me chama atenção o que tem nome e os nomes. É por isso que – com raríssimas exceções – chamo as pessoas pelo nome, sem abreviações ou apelidos. Nome é algo próprio, significante e, de tão importante, deve ser mencionado com frequência. Dou graças aos meus pais por ter escolhido nome tão simples e brasileiro como o meu. É fácil de ser falado, há pouquíssimas formas de se apelidar e raríssimas contrações.

Retomando o assunto do medo, é possível afirmar que o silêncio me constrange o suficiente para ser assustador. Não aquele silêncio paisagístico, proposital e integral de uma fazenda ou de um apartamento ou casa isolados. Não o silêncio objetivo, claro e intencional. Mas sim o silêncio punitivo, o que nega a palavra. É o silêncio que quer falar, mas que não fala. É o silêncio que bloqueia o assunto engasgado. É o silêncio que mata. Por vezes me vejo envenenado por este silêncio. Tão envenenado que sequer consigo escrever.

Na minha mente, porém, as vozes não param de ecoar. Às vezes é tanto pensamento de uma só vez que fico desestabilizado. Razoavelmente, isso é loucura. Mas humanamente, isso é normal. Espero muito que a cura para os envenenamentos do silêncio venham como sempre vieram, a partir da palavra. A escrita, a falada, a cantada, a sorrida, a tocada, a sentida, apalpada ou até mesmo, na forma de gente. Que a palavra me palavreie, que o silêncio se emudeça até que não haja medo algum. Que o que foi, vá. E que o que tiver que vir, chegue.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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