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Lasseiz-passer nos relacionamentos amorosos

O que dói mesmo é passar a vida inteira sem entender, nas palavras da protagonista do filme “Missão Quase Impossível”, que “a minha felicidade também conta”.

Lasseiz-passer. Expressão francesa que significa “deixa passar”. Ela se tornou muito comum junto com outra expressão francesa, lasseiz-faire, que significa “deixe fazer”. É um símbolo do liberalismo político e econômico representado por John Stuart Mill. Mas e se a gente tentasse aplicar isso nos nossos relacionamentos?

Tarefa dura. Difícil. Sacrificial. Ver escorrer pelas mãos aquele relacionamento que tanto almejávamos ou tínhamos, ver a outra pessoa partir sem perspectiva de retorno, ver os desligamentos emocionais acontecendo na nossa frente e, limitados por nossos próprios princípios ou pelas situações contextuais em que nos encontramos, nada poder fazer.

Conto aqui de algo inteligente que me aconteceu recentemente. Quase três anos após meu relacionamento ser terminado e após tentar duas vezes de forma infrutífera nutrir um relacionamento amoroso com outras pessoas, descobri que havia feito uma promessa de aguardar por cinco anos a minha agora ex-namorada. Fiquei chocado com aquela promessa ali, escrita num e-mail de 2017. E decidi perguntar a ela, já que nós dois tínhamos seguido em frente, se aquela promessa estava dada como encerrada ou se ainda vigorava. De todo modo, se ainda vigorasse, faltariam poucos meses para ela ser extinta de vez.

Conversas à parte, tudo permaneceu como estava. Eu de cá, ela de lá. Ela pensou por um mês na conversa que tivemos. E com uma resposta final, me liberou daquele compromisso ao considerar que manter as coisas como estavam era melhor pra ela. E não tenho dúvida alguma de que realmente era o melhor. Ela estava na cidade natal, fazendo a faculdade para a qual era vocacionada, havia acabado de conseguir um estágio, tinha obrigações com sua avó e mantinha ali laços afetivos com amigos, coisa que lhe era difícil em outras cidades. A manutenção disso tudo, no caso dela, era o melhor. Fez uma boa escolha.

A escolha dela, totalmente inteligente, me acendeu um princípio de reflexão: estaria ela aplicando o lasseiz-passer quanto à sua opção? Creio que sim. E acredito que na maior parte de nossas decisões, deixar a coisa passar, fluir, acontecer, é sempre o melhor. Tudo que é truncado, que necessita de constante ou duradoura intervenção, tende a não ser a melhor decisão.

Contudo, e quando precisamos tomar uma decisão onde há perdas envolvidas? O lasseiz-passer é também uma forma de tomar essas decisões? Com certeza sim. Porém com o agravo da sensação iminente de perda. Acreditamos – e geralmente estamos certos – que uma escolha implica perdas e ganhos. Não há escolhas que produzem apenas ganhos. Diante disso, resta pesar as perdas e recondicioná-las em experiências que nos permitam traçar um perfil de sucesso completo.

Noutra experiência, desta vez não tão inteligente, nutri um sentimento irrecíproco por outra pessoa. Eu sentia e muito, ela não sentia nada. Mesmo consciente de tudo isso, não me restou outra alternativa senão deixar aquilo passar naturalmente. Foram meses chorando, murmurando e até mesmo evitando sair de casa pra não dar de cara com ela na rua. Mas um dia tudo floresceu outra vez. E quando isto aconteceu eu consegui, enfim, dar um veredicto àquele sentimento de mais de um ano. Com profunda dificuldade de me expressar, tentei por ligação, mas fracassei. Depois, no meio de toda a angústia pra depositar todo aquele sentimento de raiva e ao mesmo tempo certeza que havia em mim, resolvi escrever um e-mail. O resultado? Pra mim, um registro de uma abertura de coração. Para ela, não fedeu nem cheirou, afinal, ela não queria nenhum vínculo afetivo comigo.

Neste caso acima, deixar passar significou sofrer, abraçar o processo da insignificância produzida por uma relação desigual, caracterizada pela rejeição. Mas significou também maturidade e aprendizado pra quem teve pouquíssimas experiências amorosas. Lasseiz-passer é muito mais sobre deixar as coisas fluírem no ritmo natural, inclusive as que dão errado, do que tentar controlar tudo.

Parece que quanto mais queremos controlar, menos controle temos. Quanto mais queremos algo, parece que esse algo corre mais da gente. Eu já vi que a gente precisa, de vez em quando, ligar o botão do “foda-se” e simplesmente seguir em frente. Parece mesmo que só quando a gente faz isso – até mesmo quando cometemos alguma loucura – retomamos o único controle possível de termos: o nosso. Somos regentes de nossas próprias vidas e os instrumentos aos quais usamos não devem ser maiores que todo o conjunto da orquestra. Nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossa ligação partidária ou social. Nada disso é maior que o conjunto todo do que somos enquanto pessoa.

Que nós possamos aplicar o lasseiz-passer em nossos relacionamentos e viver tudo que há de bom e de melhor, sem culpa, medo ou arrependimento. Porque o que dói mesmo é passar a vida inteira sem entender, nas palavras da protagonista do filme “Missão Quase Impossível”, que “a minha felicidade também conta”. Que possamos buscar essa felicidade na paz e na completude da nossa humanidade, tão rica e relacional.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

2 respostas em “Lasseiz-passer nos relacionamentos amorosos”

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