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Comportamento

Burnout… Outra vez – e agora?

É preciso parar. Radicalmente.

É o primeiro acesso de esperança que tenho ainda neste setembro. Escrever é algo muito importante e natural para mim. Nem mesmo isso eu estava querendo fazer. Mas hoje, um pouco melhor, dedico-me a registrar que, no segundo dia de medicação, já consigo escrever.

No final de agosto, em mais uma de minhas sessões de terapia, a psicóloga me indicou pelo menos uma semana sem fazer horas extras e sem atividades para além das habituais no trabalho. Não foi suficiente. Fiz o meu aniversário e recarreguei minhas energias afetivas, mas descarreguei minha bateria física. Mesmo com o celular desligado para não ser contactado, minha cabeça não parou o suficiente para que eu não viesse a ter novas crises.

Numa bela quarta-feira, por volta de 15h, na minha sala, nada, absolutamente nada fazia sentido para mim. Tudo me irritava e eu tentava recobrar a consciência de que estava no meu trabalho e que minha situação psicológica não deveria piorar. Mas era isso que estava acontecendo. Eu cansei-me ao ponto de começar a fustigar a fronte com as duas mãos. Minha cabeça doía. Eu queria gritar e colocar para fora tudo que eu estava sentindo. E aí morava a pergunta: o que estava sentindo eu?

Bastou-me um esforço básico para me lembrar que há cerca de três meses meu tesão por atividades estavam diminuindo em um ritmo vertiginoso. Também lembrei-me que parei com as atividades físicas, reduzi a frequência em atividades religiosas chegando a parar nos últimos dias. Também reduzi a atenção à faculdade e não consegui contribuir com as atividades de pesquisa. No resto do tempo, trabalhava. Ou me desesperava em casa, sem força pra fazer, pra levantar, levando até mesmo dias para levar o lixo para fora, mesmo já separado.

Esquecimentos se tornaram comuns. Tudo me demandava muito gasto de energia. E eu priorizava sempre o urgente em detrimento do importante, numa total e clara procrastinação. Situação essa sentida por minha chefe, que começou a limitar a carga de trabalho e redistribuir entre a equipe. Mas eu pifei naquela quarta. Me sentia tão exausto que qualquer coisa me demandava muito esforço mental. Lembro de ter passado por mais de duas horas naquela cadeira sentado sem nada conseguir fazer.

Procurei minha psicóloga numa sessão já agendada anteriormente e contei tudo. Ela foi dura comigo. Marquei novo atendimento para dias adiante. E ela me deu um atestado de afastamento laboral. Burnout. Esgotamento mental. Ansiedade generalizada e transtorno de adaptação. Doenças silenciosas. Que nos últimos meses me atacaram a força física, aceleraram dores de cabeça que antes passavam longe de serem fortes e me criavam um estado de compulsão alimentar com cardápio extraordinariamente inadequado.

Com insônia em níveis incontroláveis, restou-me procurar a psiquiatria. Mais um afastamento. Desta vez, por uma profissional completamente diferente e que nunca havia me visto antes. Remédio. Consulta de quarenta minutos. Retorno agendado. É preciso cuidar pra não explodir. E assim comecei.

Na teimosia, trabalhei antes de entregar o atestado. Mas no fim do dia, senti de novo. E aí precisei me afastar mesmo. Hoje é a primeira noite. Tudo está desinstalado e meu desejo é sumir do mapa por um tempo. São pelo menos oito anos neste batido – com um pouco de esforço, dez anos. Desde que comecei a estudar para o Enem até hoje, minha rotina sempre foi muito corrida. Trabalhei muito, estudei muito e tive muitas oportunidades nesta ficha corrida. Falo como velho para alguns que não tiveram as mesmas oportunidades, mas sei que ainda há todo um mundo para eu descobrir e me encantar.

O problema é que este mundo que ainda me resta estava ficando distante. Com esse esgotamento, fui perdendo a vontade de fazer as coisas. Todos os meus prazos foram perdidos. Já perdi muitas coisas. Outras eu tive tempo para abrir mão. Mas agora me resta descansar e me tratar. É a segunda vez que chego neste estado de esgotamento, sendo que agora há vários agravantes.

Aos 25 anos, eu tenho condições de dizer que tenho tudo que preciso em termos emocionais, familiares e financeiros. Não que minha vida esteja completa, mas que o que tenho me basta. O que me falta é saber aproveitar bem e melhor tudo isso. Meus amigos, minha família, meus familiares e principalmente a minha própria realização enquanto humano que sente, erra, aprende e ensina. Deus continua sendo bom.

Post scriptum: costumo escrever no blogue como um registro. Geralmente esse tipo de texto, quando faço relatos diretos e pessoalizados, refletem em alguma comoção. Por isso, afirmo: estou bem, cuidado e em paz. Vai ficar tudo bem e eu vou voltar logo.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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