Categorias
Comportamento

A dedicação constrói, a verdade mantém e o registro eterniza

O amor precede a dedicação e finda-se no registro, mantendo-se pela verdade.

Vale pra qualquer coisa na nossa vida: se entregar com dedicação é resultado na certa. Mesmo quando o resultado não se transforma no planejado, resultado há. Tudo que esforçamos e colocamos dedicação máxima sai do lugar – nem que seja pra piorar.

Todavia, apenas a verdade é capaz de manter o que fora construído. Seja uma relação afetiva e invisível, seja uma construção de alvenaria. Materiais exatamente conforme o projeto e narrações igualmente factuais. Só isso protege edificações.

O registro, a foto, o vídeo, o texto. Isso, sim, eterniza. Faz existir para além da existência do bem ou da relação. Um papel timbrado, uma letra numa carta, um presente na estante. Tudo isso eterniza o momento, a relação, o bem, porque está para além do próprio bem. É um gatilho histórico.

Creio que todos nós – senão todos, ao menos eu – já fomos babacas em alguns de nossos relacionamentos interpessoais ou amorosos. Não há como negar que, sendo humanos, isso é inevitável. E da mesma forma como um bom registro eterniza um momento ou uma relação, um registro negativo também tem esse poder.

Coleciono, em ricos detalhes, péssimos registros que deixei em almas que toquei. Acionaria minha consciência por mais de mil vezes se pudesse voltar atrás e reagir imediatamente aos meus erros. Mas infelizmente a gente só vai ficando melhor com o tempo e reconhecendo as cagadas que fizemos.

Também tenho em mim filhadaputagens alheias. Registros de ações que não precisavam ter sido assim, mas foram. Elas machucam, sinalizam necessidade de distância – ao menos emocional – de quem as executaram. Neste arquivo, porém, tento gastar menos tempo quando o consulto. Talvez seja por isso que alguns registros se parecem uns com os outros, por eu não lembrar tão bem que já caí uma, duas, três vezes.

Às vezes, somos como jardineiros. Queremos um jardim e começamos a plantar. Logo precisamos de uma poda inicial e as ervas daninhas se apossam de nossas flores. Precisamos agir rápido antes que elas se espalhem. Se formos lerdos, as ervas atrasarão ou anularão os resultados de nossos esforços iniciais. Mas se formos ágeis, enfrentando a real situação, teremos chance de cultivar um jardim lindo, colorido e vivo. Ninguém tira foto em jardim que poderia ter sido, mas não foi. Mas tira foto de jardim bonito, de jardim vistoso, de arbustos coloridos e de folhagens vivas.

Quando mais novo, gostava de fotografar tudo. Da formiga ao céu. Dos pés sujos às árvores. Do rio à seca. Pensava que as fotos eram um retrato fiel do que eu estava vivendo. Mas depois descobri que, pra conseguir passar sentimento, fotografia tem que ter história. Tem que ter assunto. Tem que ter descrição. O jornalismo me ajudou.

Quando comecei a escrever minha história, notei que pra mantê-la era preciso abandonar as pequenas e as grandes mentiras. A primeira e talvez maior mentira era que eu era feliz. A segunda mentira era que eu estava feliz. E a terceira mentira era que eu era quem eu era. Das mais difíceis, me reconhecer foi a pior delas. Saber que eu nem sempre fui eu me aproxima de quem eu sou hoje.

Acredito muito que um dia no futuro, poderei ser alvo de novos questionamentos sobre os registros que agora faço sobre mim, sobre minha trajetória e sobre meus relacionamentos. Entrará em jogo a comum desconfiança sobre a minha versão de tudo porque, afinal, tudo tem dois lados, às vezes três ou mais. E aí apenas a verdade manterá o que foi construído com dedicação e os registros se provarão eternos.

O amor precede a dedicação e finda-se no registro, mantendo-se pela verdade.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

Comente! Aqui é o lugar!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.