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O horror ao dinheiro que pensa

Uma crônica fabulosa sobre o dinheiro que pensa.

Estou horrorizado com o dinheiro. Mas não qualquer tipo de dinheiro. Meu horror é com aquele dinheiro que pensa, sim, aquele que não é mais um pedaço de papel nem um pedaço de latão. Aquele que saiu do banco. Que não está no PIX nem na bolsa. Que já tem vida própria e pensa, habitando cérebros humanos ou talvez, como papagaios piratas, seus ombros.

Tenho horror ao dinheiro que pensa. Talvez seja porque não tenha eu educação financeira nem seja abastado o suficiente para passar um mês sem trabalhar. Mas talvez seja também porque quando o dinheiro pensa perto de mim ele fala umas coisas estranhas. E eu não gosto nunca do que ele fala.

Há gente que parece estar possuída pelo dinheiro. Diz-se assim: “sou miserável mesmo, mão de vaca, prefiro economizar”. Eu não consigo acreditar que é alguém falando a não ser o possuidor, o dinheiro. Curiosamente, são esses os detentores de grandes riquezas, que andam com o celular da última moda, que vão a todas as festas e têm seu guarda-roupa sempre renovado.

Pois bem. Ceifar esse espírito falante do dinheiro não me bastou. Passei a ter horror dele simplesmente pensar. Dinheiro que fala mais alto que a vontade, que deixa de sorrir pra colocar papel no bolso, que deixa de viajar para ajuntar riquezas, esse dinheiro me dá horror. Tanto horror que na minha casa ele não pisa.

Aliás, deve ser por isso que meu salário só diminui. Adiante, vivo com favores. Pagando todo mundo, mas ainda assim, com favores. De troca, me dou. Por inteiro. Prefiro a troca de uma lealdade a troco de outra lealdade. A troca de uma generosidade por outra generosidade. Dinheiro não paga isso.

Aliás, quanto mais o dinheiro me procura, mais eu corro dele. Porque esse dinheiro que me procura, fala. E desse, eu não gosto. Do contrário, tenho horror. Quero ele bem longe de mim, embora na maior parte do tempo ele me faça desejar tê-lo. Doce vingança contra quem tem horror.

Espero que um dia, um único dia, o dinheiro que não fala venha. Este será bem-vindo. Emudecido pelo seu uso incessante, gerará novas riquezas, mas muito além disso, gerará alegrias, soluções e momentos. Porque pedaços de papel e pedaços de latão são consumíveis, os momentos são eternos na memória de quem os viveu.

Que o nosso dinheiro seja mudo. Que nossa cabeça pense. E que nós vivamos com o dinheiro e não em função dele. Que a pobreza de nossos dias se converta em fartura mínima a quem não tem o que comer. Que repartamos.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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