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Comportamento

O outro lado de quem manipula

O outro lado de quem manipula é sempre mau. Há quem seja do bem e mesmo assim tenha que controlar o mau.

É leitura obrigatória de quem quiser aprofundar no tema da manipulação um escrito anterior publicado aqui no blogue com o título “Quando a manipulação não funcionar mais você estará livre“. Quem quiser reduzir o caminho pode ler aqui antes e depois voltar no outro texto.

Manipular é o ato de mudar o estado de algo. Em português mais sintático, é dar forma, usar, colocar em funcionamento. Em bom mineirês, manipular é mexer.

Todos nós manipulamos alimentos, documentos, softwares e vários outros itens à nossa volta de forma que possamos utilizá-los em nosso benefício. A terra precisa ser manipulada para que possa “dar”, para que possa fazer crescer o que se deseja.

Todavia, a manipulação de sentimentos e pessoas é assunto delicado. Exista quem diga que a manipulação tem possibilidade de ser “bem feita” tornando a pessoa assumidamente melhor. Para alguns, o nome dessa manipulação é “educação”, para outras o nome é “coerção”. Para outras ainda o nome é “violência”.

Existem muitas formas de enxergar, portanto, a manipulação. Algo bom ou algo ruim. Entregamos nas mãos do manipulador um poder além do que é possível controlar. É exatamente a inferioridade do ser manipulado em torno do ser manipulador que está em jogo. Inferioridade esta produzida, pensada, aceita.

Em um século cuja sociedade é considerada a sociedade da informação e do conhecimento, parece inconcebível considerar que existam pessoas manipuladas, sujeitas à manipulação, que se entregaram à manipulação. Mas é mais que comum encontrar esse tipo de situação, passo a elencá-las abaixo.

A educação dos radicalismos solitários que não se presta a ler, entender e partir do ponto de vista dos detratores daquela lógica. A educação que, no seio do seu radicalismo, pretende a si mesma se isolar com o seu gueto e criar uma realidade paralela. A educação que, ensimesmada no ensino, esquece de aprender. A educação que, ignorante na sua raiz, não considera as vivências e possibilidades a partir de tudo que está fora dos livros. A educação que menospreza a literacia científica e escolhe profissionalizar e robotizar seres humanos. Esse tipo de educação é de malévola manipulação, produzindo seres humanos com uma capacidade argumentativa falha, pois não se presta a ouvir nem mesmo a entender. Presume-se tudo, duvida-se pouco, conclui-se nada.

O amor dos esforços financeiros unilaterais compensados com a falha também unilateral do afeto. O amor das renúncias manipulativas, onde o olho por olho e dente por dente imperam. As paixões ensimesmadas em quão o ser apaixonado é dedicado compensadas por fugas secretas e odiosas. As paixões irrenunciáveis que a carne insiste em transformar a dor em psicoses múltiplas que se espalham pela alma. O amor irrecíproco que ensina e insiste em dedicar tempo a uma alma escurecida pela falta de desejo. O amor doentio que mata antes mesmo de atirar ou esfaquear. O amor doente que, sob aparelhos respiratórios, prefere continuar o sofrimento em nome de uma sucessão a cessar a dor em nome do sucedido. O amor frio que mais parece uma casa destruída por um tornado que um lar aconchegante. O amor que insiste numa relação cujo passado é uma caixa cheia de víboras e que de vez em quando uma escapa para morder o calcanhar do parceiro. Esse tipo de amor é manipulativo, é chinfrim, é mesquinho. E nesta mesquinharia, o amor deixa de ser amor puro e constrangedor por sua bondade e passa a ser um degradante sentimento. Romantiza-se o desrespeito em nome de um suposto compromisso divino que deixou de ser divino antes mesmo que fosse assim declarado, já que as progressivas destruições começam na fruição inicial.

O trabalho que incorre na perda e no desgaste para atingir resultados inatingíveis em termos humanos. O trabalho que considera a promoção para um cargo superior um ato de benevolência do patrão e não um ato de justa progressão. O trabalho que assina o tempo de serviço de um ser humano que não gostaria de realizá-lo. O trabalho que assassina sem ser necessário o uso de armas. O trabalho que encaixota sonhos e desejos a troco de salários maiores. O trabalho que paga injustamente o trabalhador que não faz jus ao salário, mas que não paga justamente quem deveria. O trabalho que explora o máximo da mente humana e a troco disso, amealha a saúde mental com supostas metas. O trabalho que insiste em resistir à mudança do tempo e condiciona os humanos trabalhadores a conviver num ambiente de extensa e retrógrada escravidão do papel (ou dos sistemas inconvenientes). Esse tipo de trabalho requer do humano uma capacidade de absorção da manipulação num nível absurdo. Resta a ele conceber novas doenças, muitas delas pouco estudadas. Esquece-se do fim do trabalho que é a provisão do mínimo para a subsistência e a construção de riquezas para uso e felicidade.

Aos manipuladores, toda a desfaçatez é necessária: se descobertos, manipulam outros para evitar que o disfarce caia por terra. Mas se totalmente desnudados, clamam pela paciência e piedade que jamais tiveram. A manipulação, quando a fins espúrios e próprios, é sempre danosa. Se não causa danos no agora, causa no amanhã.

Pra afastar a manipulação danosa de nós, precisamos entender que somos passíveis de manipulação a todo e qualquer tempo. E que lidar com essa possibilidade real já é uma forma de evitar que a manipulação nos atinja de modo danoso. Emburrecidos não podemos ficar ao ponto de achar que ninguém é capaz de nos manipular. Canso de ver, por exemplo, mulheres e homens que meses atrás afirmavam categoricamente ter um coração gelado e incapaz de ser penetrado, serem totalmente acovardados por um outro ser humano que provoca incontáveis reações no sujeito.

O outro lado de quem manipula é sempre mau. Há quem seja do bem e mesmo assim tenha que controlar o mau. Porque somos humanos e, diferente dos roteiros mágicos da telinha, nem sempre sabemos com clareza quem é vilão e quem é vítima.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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