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Comportamento

Partilhar da dor do outro nos faz mais humanos

Partilha é sobre tomar junto algo. Não é sobre assumir, é sobre ser parte.

Começo esse texto com um pedido: evite associar qualquer dor do outro como sua. Isto é sério. Assim como só eu sei as minhas dores, só você sabe as suas. E não digo de saber “quais”, mas o “quanto” dói. A quantificação da dor é individual e exclusiva.

Mas é possível partilhar da dor. Partilha é sobre tomar junto algo. É sobre participar. Não é sobre assumir, é sobre ser parte. A quantificação, mais uma vez, é individual. A dor da filha que sofre pela perda de um pai jamais pode ser assimilada por um estranho de longe. A dor de um pai que perde um filho jamais pode ser assimilada por um estranho de longe.

Mas é possível partilhar da dor. É sobre isto! Quando gostamos muito de alguém queremos fazer parte da vida desse alguém. Damos um jeito de estar perto, seja virtual ou presencialmente. É no aniversário, no casamento, na mudança de cidade, na inauguração da casa nova, na chegada do filho, na formatura e… também no luto pela perda de um ente próximo. Queremos estar tão colados que parece que sufocamos a outra pessoa.

Mas é possível partilhar da dor. Mesmo que a gente seja apenas uma partezinha pequena e quase insignificante, mesmo que a gente não esteja presente na correria diária daquela pessoa, mesmo que não estejamos sabendo todos os detalhes do cotidiano daquela pessoa, mesmo que não conhecemos na família quase ninguém além daquela pessoa, mesmo que nossa importância pra essa pessoa seja razoavelmente baixa perto de outros familiares e amigos imediatos, ainda assim conseguimos participar da dor.

A dor, no entanto, não vem só na morte de um ente querido. Ela vem quando a prova da autoescola dá errado, quando o concurso não mostra a aprovação, quando um incidente acontece, quando uma desejada vontade não é cumprida, quando um emprego não vai bem, quando a entrevista não resulta em seleção. A dor está nestas pequenas derrotas que, compartilhadas, se tornam mais suportáveis (pelo menos para mim).

Partilhar da dor nos torna mais humanos, feliz ou infelizmente. Na minha vivência muito fria no passado, participei pouco da dor de outrem. E até hoje ainda tenho dificuldades de sofrer junto com pessoas com quem não tenho vínculo afetivo forte. Minha apatia chega a ser perigosa quando eu a analiso mais de perto. Em outras palavras, a lágrima geralmente só vem quando a proximidade afetiva é muito grande. Afetividade, no entanto, não tem a ver com prazo de relação, mas com intensidade, intencionalidade e transparência.

Esta semana que se encerra hoje começou muito maluca pra mim. O falecimento do pai de uma amiga muito importante pra mim, cujo fiquei sabendo na segunda cedo, me fez tremular as mãos e o coração como poucas vezes aconteceu comigo. Quando cheguei ao velório, meus olhos ficaram vidrados na minha amiga ali ao lado do caixão chorando pelo seu pai. Era tão triste e cortava tanto o coração que eu fiquei imóvel. O clima era de tristeza generalizada. Eu não sentia uma centelha da dor que os familiares próximos sentiam e mesmo assim aquele momento já me causava memórias que perduram por dias.

Descobri que o afeto que estava encoberto dentro de mim se revelou por aquela amiga. Minha ligação com ela voltou ao nível de conexão mental. Conversávamos muito pouco, mas meu pensamento voava nela em todo tempo. A cada mensagem que trocávamos, quando ela dizia que estava melhor, que tinha voltado à rotina, que tinha visto amigos e conseguido se distrair, aquele sentimento de dor ia reduzindo no meu coração. E afloravam novamente todos os bons sentimentos que tinha por ela.

Acabo crendo que a partilha da dor nos humaniza. A partilha da dor nos faz repensar o óbvio. A partilha da dor lança fora a ignorância. A partilha da dor faz reexistir em nós um sentimento cristão de compaixão. Eu gostaria de nunca sentir dor, mas sabendo que “toda dor promove” (como sempre afirmou um amigo pastor), prefiro a dor como instrumento de humanização.

Que minha humanização continue. Que a lembrança da dor esteja presente. Que possamos abraçar uns aos outros, cuidando dos enlutados. Que possamos reconhecer que tudo pode ser resolvido enquanto há vida. E que nada pode ser feito após a morte. Que comece de mim. Amém.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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