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‘Emocionado demais’ – uma reflexão sobre os estigmas aos homens que sentem

E que se danem os mal amados, nós queremos é fartura de amor. Coragem!

Vinte e três de novembro de 2015. Eu tomava a decisão mais acertada da minha vida. Eu decidia dar vez ao amor que batia a porta pela primeira vez de uma forma constrangedora e insistente. Era fim de tarde, eu caminhava para pegar a minha condução e viajar por mais uma hora e meia até chegar à minha faculdade, quando escrevi num e-mail que intitulei de “A Resposta”, as palavras mais importantes da minha vida até aqui.

Se foi uma resposta, é porque houve uma pergunta. E essa pergunta veio em forma de amor, de afeto, que chegou, se instalou à porta e me fez um convite para participar do banquete. É claro que daquele ponto, eu não soube lidar. Minha resposta foi um “quase não” travestido de um “sim”. Eu não tinha qualquer experiência amorosa anterior e para realizar aquele ato foi necessário mais coragem do que todas as outras aventuras que vivi depois. Lembro-me todos os dias da minha vida daquele chavão que usei e que tentei usar adiante como uma espécie de princípio universal para qualquer relação: “sem pressa e sem pressão”.

Anos mais tarde, essa expressão anterior chegou a ser melhorada. Passei a usar, “sem pressa e sem pressão, mas sem perder tempo e tendo um plano”. Acho que essa previsibilidade foi adquirida com tudo aquilo que me faltava. Mas eu aposto com você, caro leitor, que dificilmente você irá entender o que me custou escrever este texto. Não se quantifica lágrimas nem mesmo noites em claro, não se quantifica pensamentos induzidos, não se quantifica tristeza nem mesmo sorrisos e alegrias. Por isso dificilmente você entenderá, mas terá uma compensatória reflexão nas próximas linhas que pode ajudar a entender o todo desta história.

E te chamo para pensar sobre todos os estigmas que colocaram em nós, homens que experimentaram do afeto e passaram a sentir como a maioria das mulheres.

Faria tudo de novo?

É claro que sim. Me abrir para o afeto mudou a minha vida. E costumo dizer que, soando espiritual, Deus me transformou a partir dos relacionamentos que vivi, em especial, o amoroso. Não haveria em mim um homem hoje se não fosse tudo que precisei viver. E sou eternamente grato pela minha ex-namorada que, no curso de praticamente dois anos, quatro se contados os momentos pré e pós-namoro, suportou todos os impactos de uma relação abusiva da minha parte.

O afeto me transformou porque foi com o afeto que encontrei coisas que não achava, como o amor sentido. Antes eu não sentia que era amado em momento algum, hoje sim, em alguns momentos. Pouco é melhor que nada.

Hoje foi um dia de lembranças. Seis anos se passaram desde aquele fatídico dia que eu tomei aquela decisão que para qualquer outra pessoa poderia soar simples, mas para mim era corajosa ao extremo. E hoje eu chorei pra caralho durante o meu almoço. Chorei de alegria, chorei de tristeza, chorei de memorar tudo, chorei porque também mais cedo me deparei com situações indelicadas (algo que virá em outro bloco deste mesmo texto). E chorar foi uma coisa que precisei aprender. E hoje eu sei chorar. Digo isto por não mais esperar que as lágrimas se comportem, hoje eu deixo elas rolarem.

Pela minha cabeça passou muita coisa. Não me considero uma pessoa sem sorte, mas talvez a lógica de meus relacionamentos, em especial os que não deram certo, são uma coisa a se estudar. Pra começo de conversa, mais de metade de todas as pessoas com quem me envolvi ou estão casadas hoje ou estão prestes a se casar. Isto significa que não fui, em nenhuma destas pessoas, ponto de chegada, mas fui em algum dia, ponto de partida. E isto dói. Porque não se parte de onde está bom, pelo contrário, quando o lugar é bom se resolve ficar e ir ficando e ficando e ficando… Mas nisto eu precisei lamentar muito antes de aprender: eu não era tão agradável quanto pensava. Até hoje ainda me questiono muito e encontro na realidade uma pessoa pouco “gostosa” de se estar junto por muito tempo. Tento não me dificultar ainda mais, porém, a cada dia.

‘Emocionado demais’

Te chamarão assim se você se declarar “demais” para sua cônjuge, sua namorada, sua ficante – como se houvesse medida do amor. Te chamarão assim se você for muito claro sobre o que quer e até onde vai seu interesse logo de cara. Te chamarão assim até mesmo se você provar querer estar junto de alguém e esta pessoa for uma sacana. Te chamarão assim, mas é preciso saber de onde vem esse tipo de comentário.

Descobri que existem algumas formas de avaliar comentários. E uma delas é conhecendo a fonte. Por isso faço questão de conhecer muitas pessoas. E deixar que elas falem e apontem sobre mim. Ao conhecê-las, sei se devo ou não validar o que elas dizem. Mas esta forma, aviso, não é tão eficaz. Porque existe uma coisa chamada afeto. E quando desenvolvemos uma relação afetiva com alguém, isso implica em confiança e vulnerabilidade. E aí, dependendo do nível de amor ou de filhadaputagem da pessoa, é capaz de isso ser usado a favor ou contra na hora de expressar um comentário e principalmente, na hora de receber.

Portanto, uma pessoa que expressa um comentário como esse tem que ser, no mínimo, dono de uma biografia que tenha validado o amor e seja possuidor de afeto e expressamente não tenha problemas com isto. Isto porque julgar o outro como ‘emocionado demais’ é coisa, na maior parte das vezes, de gente burra, mal amada e incompentente pra se jogar num amor sem querer nada em troca além do próprio amor.

Tenho ouvido tantas vezes de meus pares coisas sobre isto que eu já me cansei de ser polido com gente mal amada. Principalmente porque às vezes eu quero ser esse tipo de pessoa, que blasfema contra o amor, contra o afeto e contra tudo. Mas eu me deparo com uma realidade na qual sou constrangido: que seria eu se eu não tivesse passado por tudo que passei antes?

De-mons-tre. De-mons-tre. De-mons-tre. Você não é emocionado, você é afetuoso. E que se danem os mal amados, nós queremos é fartura de amor. Coragem! Ânimo! O mesmo afeto que um dia invadiu minha vida pode invadir você.

E sobre mim?

Tá legal do jeito que tá, quando o amor bater à porta de novo, se ele quiser um homem de segunda mão, vai achar um coração saltitante de alegria e gratidão. E aí, quem sabe a coragem não vai precisar partir desse novo amor? A vida dá voltas. E a terra é redonda. Amém.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

2 respostas em “‘Emocionado demais’ – uma reflexão sobre os estigmas aos homens que sentem”

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