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O sorrisinho de canto sempre entrega o jogo

Não o suficiente para não errar, mas maduro para tentar com a graça de uma criança boba pelo seu amor de segunda série.

Existem muitos simbolismos que pairam sobre o que chamamos de paixão. Jogo de olhares, alta irritabilidade, longas pausas, estômago contorcido, sensação de medo e angústia, suor frio e, claro, o infalível sorrisinho de canto.

Hoje uma criança me fez uma pergunta e, por mais que eu não quisesse entregar o jogo, entreguei: estou de coração abalado. Desta vez, porém, tudo será diferente? Eu não sei. Meu sorriso entrega uma coisa que eu não tenho como controlar, assim como também não consigo controlar o papel do outro.

Mas consigo fazer minha parte. E começo a tomar decisões sem pressa, mas também sem perder tempo. Em matéria de tempo, sou descalibrado: não me confia a gestão do tempo, pois ou sou lento ou rápido demais. E isso se aplica à minha vida afetiva.

Por algumas vezes, na mesma velocidade que sorrio, eu também choro. Acabei precisando aprender que mesmo que a velocidade seja a mesma, o impacto e memória são diferentes: enquanto a alegria é breve o suficiente pra sumir em segundos, o choro pode durar a noite toda.

Se o choro pode durar a noite e a alegria vem pela manhã, conforme um quase provérbio bíblico, talvez este sorrisinho de canto que sempre aparece quando estamos rendidos a uma paixão signifique a redenção da própria noite de choro. Tentar encontrar significado pra isso é um esforço em vão.

Tenho acreditado que mais vale entregar-se totalmente e vulneravelmente aos riscos de uma paixão do que estabelecer uma área de segurança. Minha psicóloga odiará tal resolução da minha parte, já que ela quer que eu vá sempre com cautela para evitar traumas tão grandes que vez ou outra chegam no divã dela.

Me peguei por esses dias sorrindo como uma criança prestes a receber seu presente de Natal. Acontece que ao invés da expectativa, eu estava vivendo o próprio presente. Eu sorria como quem estava incontido. E realmente estava. Tudo que eu vivi me fez sentir vivo. E vivo, me fez perceber ser possível continuar vivendo e mudando o meu pequeno mundo.

O meu sorriso de canto desta vez está mais maduro. Não o suficiente para não errar, mas maduro para tentar com a graça de uma criança boba pelo seu amor de segunda série. Que o sorriso de canto seja cada vez mais “hoje” e o choro seja cada vez mais “ontem”.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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