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Encontros privilegiados – uma reflexão sobre quem se senta conosco

Parte de mim insiste em acreditar na mesa como espaço de nutrição afetiva. Outra parte insiste na ideia de que a mesa é um espaço decisório. E convivendo as duas ideias, outra parte de mim acredita que a mesa pode ser um lugar de começos e recomeços não necessariamente decisórios ou nutritivos.

Recentemente, passei a conversar com uma pessoa diariamente. Iremos fazer uma viagem juntos e precisávamos vencer a barreira do desconhecimento para partilharmos de uma experiência marcante. Uma semana depois da primeira mensagem intencional, estávamos sentados na mesma mesa.

Era uma noite agradável, pouco depois de uma chuva que lavou as ruas da cidade, o relógio batia as vinte horas e trinta minutos quando nos encontramos. Após um breve passeio pela praça – agora iluminada por ocasião do Natal – nos sentamos e pedimos um sanduíche cada um.

Antes de começar a me fazer perguntas, essa pessoa me explicou que aquele era um momento muito importante pra ela e que custava caro ela estar ali. Dada toda a seletividade que ela tinha, alguns receios justificados e toda a não naturalidade de uma conversa com alguém desconhecido, ela mencionou, sem usar estas palavras, que aquele era um privilégio que ela havia concedido a mim.

A princípio, eu poderia entender aquele ato como uma ação soberba, mas resolvi esperar antes de classificá-lo. Fui ouvi-la. De posse de uma história extremamente rica de detalhes, ocasiões e pequenos desdobramentos incomuns, fazia sentido ela considerar aquele momento como um privilégio. Eu, na minha mais competente exposição, jamais conseguiria me abrir com tamanha franqueza e detalhismo numa primeira conversa. Logo, o privilégio estava estabelecido. Era muita confiança.

Eu tenho uma quantidade razoável de amigos. Mas somente alguns considero como os melhores. Amigos mudam. Amigos se vão e vem. Afetividade é conexão, não tempo. E por isso, embora meus melhores amigos conheçam detalhes da minha vida, não foi uma trajetória fácil me abrir com eles. Não foi falta de confiança neles, mas em mim mesmo. Hoje eu tenho mais tranquilidade ao falar de mim, ao me posicionar, mas nem sempre foi assim.

E ao sentar-me naquela mesa com aquela sensação de privilégio manifestada, senti confiança para elencar muito da minha brevíssima história. Perguntas assertivas, dignas de uma pessoa formada e habituada à apuração jornalística no campo político, vieram como luva. Era o pequeno incentivo que eu precisava para falar.

A mesa estava sendo, ali naquele momento, um espaço de nutrição afetiva. Ambos estavam se conhecendo. Se observando. Se mostrando um ao outro. Mas a mesa também estava se tornando um espaço decisório. A cada pergunta respondida. A cada detalhe explicitado. A cada argumento aceito ou negado. Foi leve, mas ao mesmo tempo, foi pesado.

Conhecer qualquer pessoa por inteiro é difícil. Mas conhecer intencionalmente alguém, isto é, tentar conhecê-la por inteiro é uma tarefa árdua. Depende de jogar pra fora tudo aquilo que trazemos em nosso subconsciente sobre a pessoa. Depende de nos livrarmos de todos os conceitos previamente formados. Depende de fazermos uma leitura honesta, autocrítica e entender quando a história é pra ser ouvida e quando ela é pra ser comentada.

Passada aquela noite importante, realço que nunca saímos os mesmos depois de uma conversa honesta. E a mesa é sempre o espaço adequado para isto. Nutrição de laços afetivos, tomada de decisões, tudo isso instrumentalizado pelo diálogo, aquele diálogo não hostil e interessado, o olho no olho, a observação e a siamês característica do carinho que nela vem envolvida.

Por muito tempo, tentei acreditar na ideia de uma reputação infalível. E falhei. Falhei não somente porque sou humano e falho, mas porque hoje acredito que infalibilidade é impossível. Reputações são formas de expressão de um outro perante o outro, e a validação dessa expressão está mais ligada ao outro do que a nós mesmos. Por isso, na minha mesa senta-se qualquer pessoa.

Não faço curadoria. Não faço seleção. Senta-se quem quiser. Conforme já elenquei em outro texto, o difícil na minha vida não é entrar ou sair, é permanecer. Sentar-se mais de uma vez à mesa. Descobrir a mim e meus demônios e ainda assim, escolher lugar pra ficar. No entanto, quando eu recebo um convite para sentar-se à mesa de gente seletiva, eu fico lisonjeado e avalio se devo ou não. Se a mesa é minha, não seleciono. Se a mesa não é minha e sou convidado, seleciono. Parece contraditório e pode ser que seja.

Dos privilégios maiores que tive na vida, sentar-se à mesa com grandes homens e mulheres foi um deles. Gente importante. Gente que mesmo não sendo famosa, faz as revoluções e mudanças nos seus pequenos mundos em que estão inseridos. E com essa pessoa não foi diferente. Sentei-me com alguém revolucionária. Acontece que diante de tudo que eu ouvi e vi, pareço ter encontrado de novo uma oportunidade improrrogável da minha vida.

Destarte, só tenho o hoje para trabalhar e fazer acontecer. E no hoje, vislumbro o amanhã com mais mesas nutritivas. É fome de afeto, de amor e de conhecimento. Que a gente se sirva.

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