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A cartilha da velha-nova MPB

A ausência da cartilha da velha-nova MPB que faz novos cantores se resumirem aos “quinze minutos de fama”.

Há quase dois anos adquiri um ingresso para um show de Nando Reis. O show, que aconteceria em Brasília, foi suspenso devido a pandemia e adiado duas vezes até que aconteceu na noite de 03 de dezembro de 2021.

A espera valeu a pena, pois o show trouxe consigo toda uma energia diferente daquilo que se esperava. Desde a produção do vídeo exibido ao fundo no megapainel de LED até as ordens e simbologias das músicas, tudo estava dignamente bom.

Ao observar um pouco mais sobre a estrutura dos shows da MPB, das próprias músicas e da inserção da banda do filho de Nando Reis no show do pai, pude encontrar uma verdadeira cartilha que, salvo a minha loucura, vem sendo seguida pelos grandes nomes da Música Popular Brasileira (MPB) há mais de trinta anos e mantendo viva uma produção que além de enriquecer os próprios artistas, movimenta uma grande cadeia de profissionais no segmento.

Cartilha, para fins deste texto, significa um protocolo – escrito ou não – repetido e escalado a seu modo por artistas, nomes influentes, da velha-nova MPB.

Não se começa nada sem muita coragem. E assim foi com os grandes nomes da MPB. Porém são vários os cantores que, tendo a mesma coragem, não tiveram sucesso exponencial quanto nomes hoje consolidados no mercado fonográfico e que ainda viverão por muito tempo na memória coletiva.

Além de coragem, a cartilha versa sobre um conjunto de fatores fundamentalmente importantes: cantar música e muita música em seus show; compor músicas; cantar músicas de autores parceiros numa proporcionalidade de no máximo 20% do total de músicas do show; fazer pequenas e brevíssimas intervenções com o público, emocionando-o em todas as intervenções; dar o devido valor a cada instrumentista da banda, seja na sua exposição visual, seja na sua apresentação calorosa antes do fim do show; respeito total pela plateia, inclusive quando manifestações pessoais do artista são criticadas por esta.

Em nossas cidades existem cantores e cantoras muito bons. Alguns têm de nós muito apreço. Mas por que não se deslancha a carreira destes, na maioria das vezes? Talvez pela ausência de uma produtora que cuide de organizar a imagem do artista, pela ausência de músicas próprias, pelo desenvolvimento da atividade musical como atividade secundária, desprezo esse sentido inúmeras vezes na qualidade do som e, claro, falta de incentivo público e privado às primeiras oportunidades.

A exposição de um cantor em rede nacional, seja a partir do lançamento de uma música numa telenovela, seja a partir de uma rádio muito conhecida que toque repetidamente a canção, seja a partir de uma aparição num programa de TV com grande audiência são formas costumeiras de se pensar a evolução da carreira de um profissional.

No entanto, é na ausência daquela cartilha anterior que esta exposição se resume aos famosos “quinze minutos de fama”. E fama passa, importância fica.

Já há alguns anos que, após desastrosas tentativas com a música, eu descobri que sou muito melhor ouvinte do que compositor, cantor, instrumentista ou intérprete. E sendo ouvinte, passei a colecionar músicas e cantores dos mais diversos ritmos em minha playlist. E nesta coleção, sem dúvida, as canções de Nando Reis são muito bem acolhidas.

A mesma poesia de Nando Reis, quase que cantada e recitada ao mesmo tempo, se imprime no seu grande-novo-sucessor da sua magnitude na MPB (não, seu filho é sucessor da banda), Tiago Iorc, o sucessor de seu estilo musical. Tendo, agora, colecionado shows de ambos, considero que Nando Reis está, por sua idade, muito vivo. Enquanto que Tiago Iorc, por sua idade, muito privilegiado.

Nando e Tiago se parecem na composição, na forma de preparar um show e na conceituação das músicas. Expressão política moderada, mas presente. Produção simplificada, poucos instrumentos e muita coesão. Investimento pequeno na divulgação e ingresso a custo alto. Mas engana-se quem acha que a nova MPB nunca irá chegar aos mesmos níveis de sucesso que a velha MPB. Basta uma breve listagem de nomes e você perceberá que a nova MPB se mistura com a velha MPB e o contrário também.

As poesias de Marisa Monte se encontram hoje na dupla Anavitória. A rebeldia de Cássia Eller se aproxima dos protestos de Supercombo. A sutileza de Tom Jobim renasce em Mar Aberto. A rima amorosa de Skank se presta a Melim. Tim Maia se reparte em Atitude 67, Jorge Vercillo e Jão. Barão Vermelho ressurge em Projota, Vitão e Emicida.

Eu poderia listar mais uma grande lista aqui e fazer comparativos duvidosos como os anteriores. Mas paro aqui para provocar: se os novos talentos da MPB levarem a sério a cartilha que fez artistas de todo o Brasil se tornarem referência em música para o cenário latino-americano, conseguiremos expandir ainda mais a capacidade de audiência? Ou será que o setor musical já está preparado para parar de pensar na formação de novos artistas, apenas mantendo a cartilha para todos os que vierem, e pensar em formas de trazer o público para experiências marcantes e cada vez mais locais?

De qualquer modo, o que realmente importa é que embora já tenhamos muitos artistas, a arte é como água de um ribeirão, passa e já não é mais a mesma. Por isso, quanto mais artistas, leituras, releituras e novas composições tivermos, mais alegria há de se celebrar, mais vida há de se viver. Que continue viva a cultura, do mais próximo ao mais distante, do mais rico ao mais pobre, que cada indivíduo tenha o direito de se deliciar com uma música qualificadamente apresentada.

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