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As sutis diferenças entre afeto, compromisso e obrigação

Há mais de uma semana venho maturando esse texto na minha cabeça. Reflexões como esta, que perpassam o meu imaginário e se estabelecem na minha realidade imediata, costumam demorar tempo para sair. O que proponho a falar hoje é uma expressão minha, uma compreensão própria e particular, portanto, não necessariamente é aquela que você estará acostumado a ver ou ouvir e também pode ser que não tenha a mesma opinião. Te convido à leitura.

Tenho trilhado o caminho dos afetos já há alguns anos, com considerável curva positiva nos últimos dois anos. Cada dia mais percebo a importância do afeto para a minha existência e melhoria humana. Se me falta afeto, eu fico incompleto na minha forma de ver a vida.

Por outro lado, o compromisso sempre foi algo muito forte na minha vida. Até que eu comecei a não dar conta de segurá-los e comecei a não cumprir alguns. Me frustrei até aceitar que isso fazia parte da humanidade e que eu não era melhor que ninguém para não deixar compromissos de lado.

Já as obrigações sempre estiveram presentes em mim, mas eu nunca gostei delas. Precisei aprender a conviver com as obrigações e elas ainda não são inquilinas bem-vindas por aqui. Toda pressão que a obrigação impõe me paralisa ou me enclausura.

Mas foi nas relações interpessoais, em especial naquelas em que eu decididamente amava as pessoas da relação e recebia de volta amor, que eu pude perceber que há diferenças tão sutis que às vezes confundimos afeto com compromisso, obrigação com compromisso e afeto com obrigação.

Vejamos um exemplo prático. Certa vez tive uma relação de amizade com uma pessoa. E nesta relação havia troca de afetos. E também de compromissos. No entanto, não havia entre nós obrigações. Nós nos abraçávamos, compartilhávamos nossas dores, nossas realidades e nossas alegrias. Nós também entregávamos um ao outro uma posição de compromisso, trocávamos favores. Mas nada em nós era obrigação. Fazíamos porque gostávamos de fazer e isso era ampliado ainda mais por estar fazendo para quem amávamos.

É perfeitamente possível alimentarmos compromissos sem afeto. E constituirmos obrigações sem afeto. Mas quase todo compromisso precede uma obrigação, ainda que esta última seja tão sutil que pareça um compromisso. É o caso da fidelidade nos relacionamentos amorosos monogâmicos. O compromisso do namoro implica na fidelidade e sua quebra significa a quebra do compromisso. Portanto, se há uma punição para quando o compromisso é quebrado, há uma obrigação porque somente obrigação não cumprida gera sanção.

Já vi casais que se juntaram pelo afeto e transformaram isto numa obrigação, desfazendo-se do núcleo compromissado do afeto e perfazendo o caminho contratual da obrigação. O resultado: divórcio. Quando um casal se junta pelo afeto e se mantém pelo afeto, numa eventualidade de se separarem, eles não têm um divórcio, eles têm um distanciamento afetivo, um luto emocional individual, um pelo outro. Mas quando um casal se posiciona no caminho da obrigação, o compromisso é contratual e o divórcio é a forma administrativa de homologar uma separação.

Portanto, todas as vezes que for necessário existir uma relação, é importante que se façam presentes os três elementos: o afeto, o compromisso e a obrigação. O afeto para fazer sentido, o compromisso para embelezar e a obrigação para criar um ambiente jurídico seguro. É envolver a esfera pessoal, social e estatal numa relação amorosa.

Quando se trata de amizade, obrigações não são vigentes. Se forem, deixa de ser amizade e passa a ser um contrato. Convivências possíveis seguem contratos claros e bem desenvolvidos, tanto na sua concepção e escrita quanto no seu planejamento.

Que saibamos potencializar aquilo que nos é de responsabilidade própria: nossas trocas afetivas. Que saibamos lidar com os compromissos voluntários. E que possamos ser assertivos e honestos com as obrigações  voluntárias ou involuntárias a que nos propomos. Que assim seja!

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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