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A confusão que rouba meus dias

É somente neles, nos dias reais e atuais, que eu posso fazer o que ninguém fará por mim: tomar decisões e vivê-las.

Desde o mês passado eu não escrevia no blogue. Tudo que publiquei em dezembro era rascunho que só fora relido e pouco melhorado. Este talvez será o último texto do ano. E, me sentindo verdadeiramente em casa por aqui, me proponho a falar sobre um assombro constante há algumas semanas.

Se numa noite igual a esta no mês passado, alguém perguntasse meus planos para o resto do ano eu diria: cumprir com minhas obrigações no trabalho, ir ao show de Nando Reis e tomar distância de qualquer sintoma de paixão.

Além de muito cansado física e mentalmente, o Burnout do fim de setembro me deixou sequelado com falta de atenção e foco. Fazer tarefas simples não tem sido fácil e eu ter abandonado o tratamento psiquiátrico não adiantou. Por isso, mesmo que pareça obrigação simples, cumprir com meus afazeres do trabalho era uma meta a ser perseguida.

O show de Nando Reis eu aguardava há quase dois anos. Depois de oferecer o convite algumas vezes e tendo sido recusado, decidi que iria sem levar ninguém e que curtiria tudo na mais perfeita tranquilidade. Se sentisse que deveria, ofereceria a um estranho o ingresso.

E não me apaixonar era obrigação. Passei por um ano conturbado, investindo sem qualquer retorno afetivo, sabendo disso. Trabalhar o amor próprio foi caro, financeiramente falando, foram várias sessões de terapia. Finalmente, depois de ter conseguido dar um basta na relação irrecíproca que existia até setembro, eu fiz um voto de me distanciar de qualquer pessoa que, embora eu me afeiçoasse, não emitisse nenhum tipo de sinal claro de que quisesse algo comigo. Havia decidido que só me relacionaria com alguém que me desse segurança, verbalizando e agindo de forma a me fazer entender que realmente me quisesse. Era a única exigência inegociável.

Três metas. Um mês depois, estou eu aqui. Caindo de paixão, com o show de Nando Reis cumprido com uma companhia memorável e compromissos no trabalho se acumulando. O que depende de mim não anda como planejei, o que dependia de outrem foi cumprido.

E tenho andado pensativo. Como tudo tem acontecido numa rapidez muito inesperada, desde o surpreendente afeto inicial até a honesta decisão de limitar aquilo que poderia ser um relacionamento amoroso a uma amizade, eu não tenho sabido lidar com a maturidade que eu gostaria.

Meus pensamentos voam longe quando estou quieto. E cada elemento vai criando novas vertentes de interpretação, recriando cenários antigos e projetando cenários novos. A confusão que beira minha mente diariamente está centrada na quebra de expectativas e, principalmente, nas constatações mais óbvias percebidas neste tempo.

Decisões que antes eram estritamente minhas agora requerem um pensamento posterior. E se? – pergunto eu a mim mesmo quando tento ser resoluto. A confusão me faz tender ao silêncio. E à constante autoanálise. Veio em bom tempo, já que fim de ano eu fico bem pensativo e analítico mesmo.

Na crença de que conselhos são bem-vindos aos ouvidos confusos, me deparo com interpretações distintas de minha vida profissional e afetiva. Interpretações essas que, embora sejam diferentes, apontam para um cenário otimista que eu gostaria muito de acreditar, mas tenho pouca fé ou outro nome que se dê pra o que sinto.

Há confusões que geram contusões. É o caso de meu dilema entre insistir e cair fora, entre seguir e surtar, entre conciliar e abandonar. Tenho tentado me fortalecer na ideia de que o amor é sempre a melhor escolha. Mas humanamente nunca é fácil isto.

Esses dias eu vi um post no Instagram de um tuíte que dizia: “vontade de me expressar com um latido”. E eu acrescentei “au”. Eu não sei o que dizer. Me sinto perdido na imensidão de incertezas e a única luz que me aponta é a certeza de que Deus continua sendo bom e misericordioso.

Também me situo numa outra seara: a do planejamento. Desde que comecei a criar cenários e me preparar para validá-los, as minhas decisões se tornaram mais fáceis. Isso vale para situações financeiras, trabalhistas, mas nem sempre logra-se êxito nas relações afetivas.

Do outro a gente sempre quer certeza, mesmo que a gente esteja oferecendo incerteza. É antagônico e contraditório. Da mesma forma são as relações trabalhistas. Queremos uma progressão, um aumento, mas não nos propomos a mover uma peça diferente. É sutilmente burro.

Tenho aprendido, porém, que embora a confusão roube meus dias, é somente neles, nos dias reais e atuais, que eu posso fazer o que ninguém fará por mim: tomar decisões e vivê-las. Por isso, sigo analisando. Confuso, mas sem recuar. É importante decidir. E nesta caminhada, uma canção tem sido o hino, “Não olhe pra trás”, de Capital Inicial.

Versão com participação de Lenine

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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