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“Não deu certo”, mas é como se tivesse dado – reflexões sobre histórias que não foram

Não existe culpa em quem quebra o vínculo. Aliás, é ainda mais fundo: o vínculo não existe, o que existe é a visão do vínculo e da quebra.

Dezoito horas e cinquenta e nove minutos de três de janeiro de 2022 é a hora em que começo esse texto. Um mês atrás, a esta mesma hora, eu estava sentado na sacada de um flat localizado num ponto em que dava para avistar o Conjunto Nacional sem esforço. Naquela ocasião, um momento magnífico acontecia. Uma história acontecera ali.

Sempre fui muito adepto da História. Era a minha matéria predominante no ensino básico. O Jornalismo não me deixa longe disso. Embora por muito tempo eu não tenha tido interesse pelo passado, hoje eu compreendo que o passado nos ajuda a entender o presente e planejar o futuro. E por gostar dessa ciência, gosto do distanciamento histórico como forma de trabalhar a visão sobre algo.

Por muitos anos até aqui, eu vivi momentos e situações que deixaram meus olhos cheios de emoção. E sou grato por esta capacidade de enxergar quase tudo com mais cor do que tem. Alguns desses momentos foram vividos sozinhos, mas a grande maioria foi acompanhado. E as histórias que envolvem afeto romântico, embora não sejam muitas, marcam mais pela consciência da entrega que lhes são particulares.

Destaco, para este texto, duas histórias. A mais recente, vivida há um mês, e uma outra, também num contexto de viagem, que muito me marcou. As duas ocasiões estão na lista das três melhores viagens que já realizei em minha vida. E não obstante, ambas tiveram três dias de duração e aconteceram no Centro-Oeste brasileiro.

Antes de contar a mais recente, relembro a mais antiga. Era novembro de 2016 quando embarquei num ônibus fretado rumo a Goiânia junto de estudantes da faculdade em que eu estudava. Neste ônibus, alguém muito especial lá estava: aquela que meses depois se tornaria minha namorada por quase dois anos.

Era cerca de vinte e duas horas quando ela e eu nos encontramos no hall do hotel. Não dormíamos nos mesmos quartos, pelo contrário, existia o quarto dos meninos e o das meninas. Ela havia tomado banho, tinha tirado toda e qualquer maquiagem, usava um pijama de algodão que mais parecia um vestido, seu cabelo estava molhado e tinha um cheiro doce, seu perfume exalava longe. Eu vestia uma bermuda e camiseta, estava com banho tomado e tinha passado um óleo hidratante no cabelo. Não era um encontro, não tínhamos lugar definido para ir, apenas queríamos passar tempo juntos e conversar.

Saímos do hotel. O local era consideravelmente perigoso, sem policiamento, o que ampliava ainda mais o risco – e aumentava também o nível de ineditismo daquilo. Caminhamos de mãos dadas por várias ruas próximas, olhando para as varandas, para as lojas e conversando bastante. Lembro que em algum momento nos demos conta de que estava muito tarde. O relógio beirava duas da manhã. E o pior, estávamos perdidos. Era a nossa primeira visita àquela parte de Goiânia.

Depois de uma oração, um beijo e um entrelaçar forte de mãos, seguimos caminho e conseguimos encontrar o hotel. Antes um pouco, nos deliciamos com beijos demorados numa calçada próxima. Se naquele dia e naquela hora, eu pudesse trocar aquela sensação que sentia por um soneto de Shakespeare, seria pelo soneto XII:

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare, 50 sonetos

Em noite horrenda eu via escoar-se o dia. E voltávamos para o hotel. Sobraria pouco tempo. Voltaríamos para nossas casas e para nossas realidades. Tentei fazer com que aquele nosso momento se eternizasse num compromisso escrito e, embora, confiasse muito nela e em mim mesmo, não estava sob controle o restante das intercorrências que nos afetaram. Aquele dia, aquela viagem, que hoje está na minha caixinha de memórias boas do afeto, terminou. Como acontecimento histórico, está registrada.

É possível que o leitor mais assíduo aqui do blogue já saiba que eu namorei uma única vez até agora. E foi com esta mulher. E partiu do compromisso escrito desta viagem o compromisso tácito do namoro que fora findado e depois retomado, e depois findado, e depois retomado, e por fim, sepultado. Hoje, olho para as partes bonitas de nossa história e sorrio, mesmo sabendo que somos uma história que não deu certo. Já vencemos a barreira da superação e hoje, embora nos respeitamos, nosso contato é limitadíssimo e apenas em situações emergenciais ou profissionais.

Histórias que não dão certo não significam fracassos completos. Todavia, é inegável que também não são sucessos. Todos que um dia se propuseram ao afeto querem viver um romance bacana, leve e estável. Haja vista a liquidez de nossos dias, está cada vez mais difícil encontrar gente com quem a gente sinta segurança de nos mostrarmos e nos desnudarmos. Por isso, é concebível que ninguém aceite viajar com um estranho com quem não conheça bem, ou mesmo que não conheça bem, que não confie.

É na temática da confiança que vem o segundo episódio de histórias que não deram certo, mas que ficam na memória. Por ser recente, o distanciamento histórico é peculiarmente mais difícil.

Um show e duas noites. Embora já nos conhecêssemos de vista e por contatos estritamente profissionais, praticamente começamos a conversar mesmo pouco menos de duas semanas antes da viagem. Dedicação em responder às minhas perguntas e muita honestidade foram as marcas que ela deixou desde o início. Longas respostas culminavam em grandes descobertas para mim e, logo, em novas perguntas.

Quando chegou o dia da viagem, a própria viagem revelou um aprofundamento de tudo que havíamos conversado anteriormente. Discutimos desde a filosofia do amor até mesmo religião e política. No hotel, o afeto que conversava em palavras passou a conversar por meio de toques, gestos e novas palavras acompanhadas de olhares.

Tudo parecia passar em câmera lenta quando se tratava dos movimentos e feições que ela fazia, mas ao mesmo tempo, o relógio compensava passando duas vezes mais rápido a hora. Três dias se tornaram poucas horas diante de tamanha intensidade recíproca. As mãos entrelaçadas, os carinhos e ausência de beijos ou sexo – tínhamos um combinado anterior a este respeito – fizeram com que tudo se tornasse brilhantemente inesquecível.

E claro, há sempre um ponto alto. E por mais que o grande ponto alto pudesse ter sido o show que assistimos, para mim foi quando colocamos as nossas roupas mais leves e saímos para ir ao shopping, cada um com uma demanda. Eu tinha uma situação a ser resolvida num escritório e ela uma blusa a comprar numa loja. Ela havia acabado de acordar, estava totalmente sem maquiagem, sua pele cheirava e seu rosto ainda tinha pequenas marcas de sono. Ela usava um short jeans e uma blusinha laranja, combinando com sua pele morena do Cerrado. Passamos antes numa lanchonete e compramos um lanche para tomar café da manhã. A simplicidade daquele momento e o grau de interação presente ali superava qualquer dia inteiro falando por uma tela.

Não bastasse isso, ao cuidarmos de nossas agendas, acompanhamos um ao outro. Eu esperei pacientemente por ela na loja de roupas enquanto ela esperou pacientemente por mim no escritório, inclusive como cúmplice – um dos princípios na escolha de quem confiar para dividir a vida, como lembra o sempre incrível Murillo Leal. Embora nós dois gostemos de palavras, a ausência das palavras para explicar o que acontecera neste momento de tão especial é o que engrandece a minha percepção. De tão bom, pra perceber, só sentindo. E não dá pra sentir outra vez, não dá pra reconstituir cena. Aconteceu, ali e só ali. Conosco, sem possibilidade de acontecer novamente.

Lembro-me como hoje das duas despedidas que precisei fazer nas duas situações. Em ambas, sensação de perda, de que estava acabando um momento incrível. Sou ruim com despedidas. As palavras me somem já nas antepenúltimas horas e assim vão, até que o silêncio completo se estabelece no retorno. Processar a despedida de um momento fantástico me é como quebrar um vínculo. Quando este mesmo vínculo presente no momento tende a se perder, naturalmente, por força do fim do espaço-tempo em que o vínculo estava limitado, eu fico ainda pior.

As minhas tentativas são muitas para tentar relembrar, rememorar e principalmente por tentar manter o vínculo e as memórias afetivas as quais o constituem. Entretanto, saber que as histórias que não foram, mas que poderiam ter sido, são um retalho e não a colcha toda da minha humanidade me fazem querer continuar vivendo com a graça de esperançar amanhã ser melhor.

Não existe culpa em quem quebra o vínculo. Aliás, é ainda mais fundo: o vínculo não existe, o que existe é a visão do vínculo e da quebra. Ora, se existisse o vínculo ele se provaria na realidade póstuma à morte do momento. Mas se o momento morre com o vínculo, o vínculo fora construído, visionado e alimentado por meus próprios olhos. São esses insidiosos e delicados pensamentos que rodeiam a minha mente existencialista.

Não deu certo, mas é como se tivesse dado. Irretocável afirmação. Poderia ter havido nas duas situações acima elencadas uma continuidade imediata, profícua e menos abstrata. Mas não houve. Há a história constituída de um lado. E os desdobramentos de outro. Tudo é plenamente real e passou.

Foi olhando para essas duas histórias que eu percebi uma coisa: não adianta eu tentar encontrar razões maiores dos que as que são escancaradas. E nem menores. Há quem fica e há quem vai. E mesmo quem fica, um dia vai. Isto vale para as nossas relações de todos os níveis e para a morte, a foice do tempo.

Que todas as suas histórias que não deram certo, mas parecem ter dado, lhe sirvam como combustível para viver. O hoje é, ainda, o único dia em que podemos decidir viver. Que sigamos em paz, com as memórias no coração e o peito aberto para novas experiências!

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