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O bastidor da escolha – uma reflexão sobre o processo de tomada de decisão

Autenticidade é escolher e assumir a escolha, conscientemente, mesmo quando o senso comum é contrário.

Há muitas escolhas que fazemos. Todos os dias. Mas algumas escolhas têm consequências maiores. E outras ainda determinam o nosso futuro. Para quem é controlador como eu, tomar decisões não é algo fácil – sempre queremos saber o que vem lá na frente – porque toda decisão desemboca em consequências, a maior parte delas incontroláveis ou imprevisíveis. E aí só sobra a nada doce espera do amanhã virar hoje para saber o que há.

Três grandes escolhas são feitas por cada homem e cada mulher, segundo o teólogo Ed René Kivitz, e estas escolhas determinam toda uma vida. São elas: a fé, a carreira e o casamento. Curiosamente, a primeira dessas escolhas quase sempre está ligada aos nossos antepassados e a nossas vivências até a idade adulta. E as outras duas descendem de muitos dos princípios que vêm sendo montados pelas religiões ao longo do tempo.

A questão é que toda escolha implica em abster-se de outras escolhas possíveis, pois até mesmo quando só há uma escolha, não escolher é uma escolha, o que torna isso uma escolha secundária possível. Não escolher, porém, costuma ser a razão de muitas escolhas terceirizadas. E isto, esta ingerência que outrem produz em nossas escolhas, nem sempre fica clara.

Aos meus 20 anos, fiz um processo de revisão das minhas bases filosóficas sobre a vida. Embora pareça ter sido planejado, não foi. Esta revisão me colocou em perspectiva e me fez compreender que, embora eu tenha raízes, concepções prévias e subconscientes, são as escolhas que eu faço no presente que podem determinar e até mesmo revisar outras escolhas anteriores. Descobrir isso me investiu de dois sentimentos: o primeiro é que eu podia tudo e o segundo é que eu não tinha tempo suficiente para buscar a perfeição.

Ter um tratamento diferente com a fé foi algo muito importante. Mas mais importante ainda foi assumir a minha carreira e não mais correr dela. Assumir meus gostos, meus desejos, quem eu realmente sou. Essa escola da autenticidade, na verdade, não passa de um recomeço diário. Às vezes eu me pergunto se autenticidade significa fazer tudo diferente dos outros e chego a uma resposta: autenticidade é escolher e assumir a escolha, conscientemente, mesmo quando o senso comum é contrário.

A minha identidade de escrita, por exemplo, é algo autêntico. Tudo que escrevo é original do ponto de vista da criação, mas é totalmente inspirado em leituras que faço, o que retira parte da originalidade, mas jamais tira a autenticidade, mesmo que meu modo de escrita seja assemelhado ao de outras pessoas.

Gostaria muito de chegar num ponto delicado desta conversa. Toda decisão tem um bastidor que o implica. É como uma peça teatral. O espetáculo é a visão do público. E ao público é oferecida apenas e somente esta visão. Faz-se tudo para embelezar-se na frente, mesmo que por detrás haja demônios encarnados. Nossa vida é isso, claramente isto.

O que oferecemos aos outros é a parcela espetacular de nós. As nossas decisões são comunicadas com base na parcela espetacular que queremos mostrar. Há gente que desenvolveu até um transtorno de personalidade – chamado de Transtorno Borderline – e acaba por conseguir fazer-se “outras personalidades” tanto no plano do espetáculo quanto na própria intimidade. Talvez seja por conta dessa nossa característica de mostrar apenas o que é espetacular a nós que a liquidez dos vínculos afetivos em nosso século tenha se agravado: é tudo tão espetacular que a realidade encenada, ainda no plano do espetáculo, tende a afastar as pessoas, que dirá no plano dos bastidores?

Não há nada de errado em termos uma imagem respeitada e bem construída para com aqueles que nos veem, na verdade isto é até benéfico. Como instrutor de aprendizagem comercial, sempre gostei de ensinar aos meus alunos o que o cliente esperava deles, mas no plano das aulas, cobrava que eles fossem honestos comigo sobre como estavam naquele dia. Existia um porquê: como a faixa etária era adolescente, não havia muito espaço de fala seguro para eles (a escola, perdoem-me os professores mais dedicados, não está preparada para a adolescência e a juventude brasileira), muito menos estrutura familiar que desse conta da efusão de sentimentos, pensamentos e revoluções internas que eles passavam. A sala de aula era o refúgio de todos os demônios – os manifestados e os incautos – já que nestes outros ambientes eles precisavam mostrar apenas o espetacular mundo angelical em que viviam.

Diante disto, não há que se buscar coerência ou intimidação. Algumas pessoas se sentem à vontade em mostrar-se, outras não. Requerer que alguém seja verdadeiro e totalmente honesto a todo tempo é uma cruel atrocidade. Ariano Suassuna, expoente da literatura genuinamente brasileira, afirmava “eu não sei vocês, mas eu minto”. E obviamente, reconheço também mentir. Algumas vezes fui acusado de mentir para mim mesmo. Outras vezes, me peguei mentindo de fato. A questão em si é que tipo de mentira nos referimos. Há a mentira praticamente inofensiva e aquela que produz consequências, há que se pesar isto na hora de estabelecer um exame de consciência.

Entretanto, não se pode – por uma questão de respeito a si mesmo – ser negligente e mentiroso com as consequências. Sobretudo quando se trata das consequências originadas de decisões as quais tomamos. E uma das formas de evitar a negligência conveniente da mentira em torno de decisões importantes que tomamos é fazer registros escritos de nossas motivações.

Há algumas semanas venho refletindo sobre minha situação profissional, financeira e geográfica. Na verdade, há meses. Por muitas vezes hesitei em tomar decisões maiores. Mas agora sinto que há consequências mais graves em terceirizar ou justificar com base em acontecimentos alheios à minha vontade a minha decisão. E por isso, pedi demissão. Os efeitos práticos e a própria demissão só vai ocorrer daqui a alguns meses, entretanto, os motivos e a ciência a quem de direito foi dada. Para evitar que daqui a três meses, quando eu for registrar a homologação da minha decisão eu minta a mim mesmo sobre as razões da minha demissão, eu escrevi uma carta demissional, a assinei e arquivei.

Apesar de ser bastante honesto na carta que escrevi, reconheço haver mais bastidores que influenciam na tomada de decisão. Mas nenhum deles é incoerente com a razão máxima, o que me faz confortável para não me preocupar tanto num futuro exame de consciência. A escrita deste texto também acaba por ser um registro e um ateste de consciência.

Quando tomamos decisões, sejam elas quais forem, a respeito das temáticas que dominam nossos referenciais de tomadas de decisão, é sempre possível que nossos corações tremulem. Aí há sempre duas hipóteses: ou você ainda não tomou a decisão que queria tomar ou já tomou e apenas ainda não a executou. Distante de você e das suas decisões, eu falo das minhas e sempre as submeto à prova da paz. Se uma decisão culmina em paz (própria e coletiva), é bem comum que ela esteja certa. Acontece que muitas vezes não sabemos o que é paz porque não a experimentamos antes. Porque tudo sempre foi tão turbulento que agora é sempre muito estranho estar “em paz”.

Eu senti isso quando me mudei da casa dos meus pais. Eu estava em paz, mas era difícil consolidar esse novo momento de vida com as memórias nada pacíficas de outro tempo. Resisti aos primeiros meses e investi-me de coragem para enfrentar a solidão por escolha, a chamada solitude. Escolhi revisar minhas concepções e escrevi muito sobre mim neste período numa espécie de descoberta intrapessoal que superou e me fez superar todos os pequenos dilemas que enfrentei.

Consciente de não ser um homem pronto, continuo tomando minhas decisões. Algumas espetacularmente bonitas, mas que reservam bastidores infernais. Outras espetacularmente reais, e que revelam a existência de infernos ainda maiores. E é o que desejo a você, que tome suas decisões de forma autêntica – com a responsabilidade das consequências.

Como citei anteriormente o Ed René Kivitz, recomendo aqui uma estupenda exposição que ele fez sobre a arte de tomar decisões. Delicie-se:

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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