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Comportamento

O estranhamento da incerteza e da novidade

Só não é estranho o que já conhecemos.

Todo ser humano está habituado a passar por uma série de incertezas. Das piores às mais sutis, em qualquer nível ou classe social, há incertezas presentes aos humanos, tão e somente pela condição humana. A alguns fica a fome, a outros a cor de cabelo. Guardadas as proporções e importâncias, todos estão de igual para igual quando o assunto é incerteza: não importando a raiz, ela causa insegurança, medo, sensações no mínimo estranhas.

Tenho teorizado os meus dias com certa frequência nos últimos anos. Escrever é, além de um registro, uma fuga para minha realidade sempre incerta. Teorizar relações, situações e momentos tem sido a forma de enfrentar com alguma esperança realidades aguçadamente melhores.

Hoje é dia de teorizar as incertezas e novidades. Gostaria que você, ao ler, entendesse que essa não é uma conversa sobre as incertezas que precarizam a vida: não é sobre a incerteza desumana se haverá comida no prato amanhã ou não, se a cirurgia de transplante sai ou não sai, se o seu chefe irá te demitir ou não frente aos cortes da empresa, se o filho vem ou não vem. É uma conversa sobre as incertezas menores, aquelas de razão comportamental, aquelas que é difícil até de falar por estarem somente num plano mental, dificilmente materializadas.

Gosto de lembrar o quão estranho eu me senti quando no início de 2020, numa reflexão pré-pandemia, me posicionava sobre quem eu era e me sentia. Hoje, talvez, olhando para este Bruno do passado não tão longínquo, eu teria inveja da energia, dos bons olhos e da motivação que eu tinha. Mas se eu olho para um eu de cinco, seis anos atrás, eu vejo uma pessoa hoje bem mais qualificada para lidar com as emoções e, consequentemente, com os estranhamentos das incertezas. Teorizar tudo isso é um exercício de desumanização da dor, mas ao mesmo tempo de materializar as belezas provocadas pela incerteza.

O que é incerto nos causa estranhamento porque, se bem pensarmos, só não é estranho o que já conhecemos. E a incerteza é não saber. É quando estamos diante de possibilidades que, por mais que bem estudadas, podem não se provar verdadeiras. Pior: pode não acontecer nada. A estranheza com que nossa mente lida com a incerteza gera em nós ansiedades e desejos fora do normal. Nosso corpo fica tentando comunicar suas necessidades para tentar dopar o cérebro e evitar que saiamos do controle.

Já estamos descontrolados. Ninguém ficou de pé nesta pandemia. E quem argumenta ter ficado é porque não reconheceu a queda. Nada ainda está 100% normal. Nada ainda pode ser considerado como “igual a antes”. E isto se dá principalmente porque o nosso condicionamento mental às questões de saúde mudou e mesmo que as leis e regras sanitárias sejam novamente flexibilizadas como no nível de 2019, nosso enfrentamento a isso tudo ainda será diferente.

Por outro lado, o novo que é tão celebrado – e merece ser mesmo – também causa estranhamentos constantes. Na prática, o novo também não é conhecido ainda e por isso, surte o mesmo efeito prático da incerteza. A novidade, ao se apresentar, é como um vírus que projeta-se no organismo. O nosso sistema imunológico é representado aqui, pela nossa mente, que assimila o novo como algo estranho e que, por tal razão, deve ser estudado, compreendido e tornado conhecido para que não mais estranhe. Formação de anticorpos, no entanto, não é algo simples. O corpo responde até que haja adaptação completa. Não há exemplo recente melhor que as reações imediatas causadas pela vacina anti-covid-19.

Diante das elucidações anteriores, eu prefiro sintetizar que o estranhamento ao novo e ao incerto é a forma humana de reagir a tudo. O que acontece é que nem sempre estamos preparados para essa forma do estranhamento quando se trata de relações interpessoais, adesões a projetos e ideias.

Tenho as minhas muitas questões sobre relacionamentos amorosos e algumas questões sobre relações profissionais. Já escrevi bastante sobre isso aqui. Mas nenhuma das minhas teorias aqui publicadas me capacita para passar por qualquer uma nova e incerta situação sem estranhamento. É talvez o que sinto agora, mais uma vez me desafiando. É o meu pequeno mundo e, dentro deste ambiente, é um desafio.

Ao longo do tempo, encontrei algumas formas de lidar com as incertezas e com as novidades que podem fazer esse período ser menos doloroso.

A primeira forma é enfrentar tudo com a proporção que lhe cabe no momento. Se é um relacionamento que acabou, chore tudo que tem pra chorar, tenha as recaídas, tente barganhar, aposte as fichas, gaste, se envolva, sofra, sofra muito, e aceite. Se o processo é esse, abrace o processo. Se é uma demissão que você se viu na necessidade de pedir, arque com todos os desafetos e distanciamentos necessários. Faça suas malas, não deixe nada para trás, busque sua nova rotina, mude de rua, conheça novas pessoas, devolva os contatos profissionais ligados àquele lugar e consiga um novo emprego. Toda decisão começa na reflexão e termina no esgotamento das consequências.

A segunda forma é fazer avaliações menos precipitadas e, quando ainda assim, elas forem precipitadas, ter cara de pau para dizer isso. Uma das coisas mais difíceis de se fazer é pedir desculpas por ter se enganado com algo. E pior ainda é quando essa constatação não vem por si só, mas vem por outra pessoa. Eu sou muito facilmente iludido, mas não por outrem, por mim mesmo. Crio facilmente cenários ideais na minha cabeça e na maior parte das vezes eles não são reais – novamente, uma fuga da realidade. As nossas avaliações daquilo que é novo e que nos apresenta diante de nós precisam ser bem pacientes: não se pode enxergar o novo como algo que já existiu antes nem tampouco pode se negar a sua similaridade com o passado, desde que respeitada a proporcionalidade. Se vamos trabalhar num determinado emprego e ele é a mesma vaga de outro lugar que já trabalhamos, não necessariamente neste lugar teremos a mesma disposição, o mesmo ritmo e as mesmas intenções. Cada lugar e situação dão de si uma originalidade máxima. Estranhar isso é humano, mas pode-se abreviar esse estranhamento com avaliações mais pacientes.

Intensidade para viver tudo e paciência para dosar expectativas. Um combo desses é bonito de se ler, mas dificílimo de praticar. Porque tudo aquilo que nos é estranho causa em nós reações instintivas, primitivas e impensadas. Vemos uma vaga de emprego e logo dizemos: não serve pra mim. Conhecemos uma nova pessoa e logo afirmamos: é muita areia pro meu caminhãozinho. Visitamos uma nova cidade e logo pensamos: não suportaria viver aqui. Acontece que todas essas muito rápidas sentenças que fazemos sobre tudo e todos que estão diante de nós pela primeira vez são elaboradas com base em pré-conceitos estabelecidos em nós, tendo como princípio o medo, a insegurança, a estranheza.

Há uns meses um amigo, doutor em Matemática Computacional, me pediu um favor nada habitual, pois embora eu tenha sido aluno dele no passado, hoje não temos mais vínculo educacional. Ele pediu que eu resenhasse um artigo científico e fizesse um ensaio sobre uma peça de Freire. O material seria incorporado numa atividade de doutorado que ele participava. Me senti, naquele momento, muito honrado, mas ao mesmo tempo, a sensação que tive foi de que não conseguiria. Quem é chegado da academia sabe que a titulação no mundo acadêmico é um semideus. Salvam-se parcela considerável de profissionais mestres e doutores, alguns dos quais com quem tive a mais alta honra em trabalhar tanto na vida acadêmica quanto na vida profissional.

Como reagir diante da incerteza (será que conseguiria entregar?) e da novidade (o último ensaio que fiz foi num nível de curso FIC, e não sou nem graduado ainda)? O meu jeito de reagir foi tentando assumir uma premissa: eu tenho condições de tentar, então vou tentar. O prazo que ele me deu foi de praticamente 60 dias. E por mais que eu tenha começado a trabalhar na demanda dele a menos de 30 dias da data de entrega, eu só consegui evoluir mesmo o trabalho faltando 15 dias. E consegui entregar o trabalho faltando um dia para o prazo final. Ao longo do processo eu tive uma crise de choro (em muito, motivada pela agressividade com que estava documentada naqueles artigos a destruição do ritmo evolutivo dos investimentos em educação no Brasil a partir de 2016), muitas vezes a vontade de devolver e dizer que não dava conta de fazer, a sensação de que estava escrevendo “coisa com coisa” ou que estava sendo repetitivo ou ainda que não estivesse resenhando, apenas sintetizando. Exercitei, porém, a paciência para continuar. E consegui entregar. Era novo, era incerto que eu conseguisse, era estranho. Mas graças à intensidade com entreguei e a paciência nutrida, a tarefa foi realizada e o material recebido com significante agradecimento.

Apesar desse fato positivo, eu posso contar a várias mãos os fracassos. E na maior parte das vezes, o meu maior encorajamento para tentar era não ter que passar a vergonha de devolver e dizer que não dava conta. Talvez tenha sido por isso que por tantas vezes tentei conquistar coisas ou pessoas que, claramente, eu não daria conta de suportar. E aí, suporte neste caso, tem a ver com ritmo de vida. Certa feita, alguém me ofereceu uma sucessão numa empresa. Eu assumiria o lugar desta pessoa que iria se mudar da cidade. Acontece que a função dessa pessoa era de supervisão. E supervisão em vendas. O que envolve pressões e cobranças, algo que sou bastante inábil para fazer. Mesmo assim permaneci com a proposta no horizonte. Por sorte (ou intervenção divina), eu adoeci. E na mesma semana, houve uma determinante conversa entre essa pessoa e seu superior, tendo sido colocada outra pessoa que não eu no lugar dessa. O que me fazia querer e querer muito essa vaga era o salário atrativo, mas naquele momento eu fazia de conta que ignorava que, meses depois, eu teria que dizer: não consigo, não dou conta, está devolvida a função. Voltar atrás seria muito doloroso e talvez, por falta de vergonha na cara, eu não voltasse atrás e continuasse mentindo pra mim mesmo por um tempo até que as insustentabilidades me tirassem de lá.

Tudo que é novo e incerto causa abalos sísmicos em nossa estrutura humana. Ficamos melhores ou piores depois do estresse. Eu gosto de pensar que eu fui aperfeiçoado pelo estresse (mas que o processo de anos não foi fácil, o que me fez perder oportunidades, pessoas e relações possíveis e saudáveis). Acontece que a gente também fica tão pensativo que tudo é teorizado demais. A gente quer viver, quer se abrir para o novo, mas ao mínimo sinal de exposição ao incerto, ao risco, nos devolvemos à nossa intimidade. O estranhamento causa reações primitivas, reafirmo.

Por isso, sempre que puder, se cerque de gente que goste de você, que te ouça, mas que acima de tudo, saiba te compreender. Eu sou muito contente por ter uma família amorosa, que gosta de mim. E também muito contente por ter amigos que são compreensivamente maravilhosos, que sabem emprestar seus ouvidos sem qualquer pressa e sabem expurgar de mim os piores medos e encorajam-me quando estou fraco.

Decisões difíceis são precedidas de conversas necessárias. As pessoas que amamos têm fundamental importância em nossas decisões, mas é sempre importante perguntar-se antes de atribuir esta importância: esta pessoa me compreende? Se a resposta for sim, ótimo, é necessário ouvir. Mas se a resposta for não, embora você tenha consciência de que essa pessoa te ama e te ouve, ela não consegue te compreender. E por isso, não está apta a fornecer conselhos que sejam efetivos. Compreensão não se pede. Às vezes se constrói, mas quase sempre ela é fruto de longas observações e incursões ao coração do outro. Não estranhamente, esposas e maridos tendem a se consultar sobre decisões importantes. Não é somente porque há ali uma relação de interdependência, mas é porque, no curso natural de uma relação amorosa em que duas pessoas dividem seus afetos, bens e espaços, não há ninguém que conheça melhor o outro do que o par.

Por fim, além de enfrentar tudo com a intensidade e paciência anteriormente informadas, é sempre bom ter uma mão pra segurar, e um ombro pra suportar. Por isso, diante de todas as circunstâncias que lhe causarem estranhamento porque são incertas e novas, peça ajuda. Deus se manifesta em nós através de nossas relações e por meio delas, cura, capacita, transforma e pacifica.

Diante de sonhos, possibilidades, riscos, é importante lembrar a letra dessa música incrível da banda Atitude 67, “Sonho”. É bom sempre lembrar que vale a pena sempre se arriscar, sempre se jogar… “E sempre conviver com a incerteza do momento de se lutar pra ser quem é”… Confira a música completa:

Sonho – Atitude 67 (Vídeo: Youtube/Reprodução)

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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