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Irmão, ela não sentiu química e você precisa aceitar isso

Te desejo química na sua próxima aventura. E coragem para aceitar que você não pode fazer nada. O amor é livre, conste-se.

Em março de 2021, eu escrevi um texto similar a esse com o título “Irmão, ela não te quer e você precisa aceitar isso“. O objetivo era sintetizar uma reflexão sobre as não escolhas. Desta vez, é hora de falar não mais sobre escolhas, mas sim sobre coisas que existem (ou não existem) e só, sobre a bendita “química”. Esse é um papo de pé de ouvido, destinado a homens.

Irmão, há muitas pessoas no mundo. Bilhões. O que faz com que cada pessoa seja diferente da outra são as suas excentricidades e peculiaridades, físicas e principalmente mentais. Ter noção de que somos iguais em espécie, mas subitamente diferentes na forma como pensamos, tomamos decisão, nos vestimos, nos alimentamos e, por que não, na forma como enxergamos as relações ao nosso redor.

E dentro desse mar de diferenças, em algum momento, querendo ou sem querer, nos esbarramos com alguém que parece valer a pena de fazer companhia. Os motivos pelos quais nos oferecemos ou nos prestamos a esse tipo de pensamento são vários: necessidade primitiva de procriação, necessidade primitiva de afeto, carência afetiva ou física, necessidade de satisfação de padrões morais ou coletivos impostos ou percebidos, entre outros. Acontece que nem sempre – ou talvez, numa ótica mais realista, quase nunca – encontramos alguém no mesmo “timing” que a gente.

Porém, a matemática das relações amorosas é ainda mais exigente: além de ter a combinação adequada, de tudo se encaixar, ela ainda requer um componente bioquímico, a tal “química”. Reações involuntárias que simplesmente acontecem, desejos que simplesmente são percebidos, vontades emergentes que simplesmente nascem de um segundo para outro, é o olhar que se cruza e faz o tesão aumentar, é o toque que age como ímã, é o beijo que entrega muito mais que a união de salivas, é o sexo que cria um compromisso involuntário e natural.

Se você não sabe o que é sentir isso, talvez você tenha duas origens: ou nunca teve ainda ou já teve e se sente apático. Para nós, irmão, homens, é difícil falar sobre química porque essa questão sempre esteve mais diretamente ligada ao feminino do que ao masculino, coisas que falo dentro da série Masculinidade, aqui no blogue.

E pode ser que neste momento ou em algum momento da sua vida você tenha conhecido alguém legal. Pode ter rolado tudo ou nada. Mas o fato é que um dia, com estas palavras ou não, essa pessoa te disse: “não rola química entre a gente”. E não rolar a bendita química é como se fosse um disjuntor desligado. Não passa corrente.

Então, a depender do quanto você gosta ou gostava dessa pessoa, você passa a tomar uma série de decisões para tentar ligar esse disjuntor e fazer com que a química nasça. Mas o que não te contaram e vai doer agora, ao saber, é que química, apesar do nome, não é manipulável nem dentro de um laboratório nem dentro de uma pessoa. Química pode ser a razão para a manipulação e manutenção de um relacionamento abusivo, envolvendo a consciência da perda e da culpa como instrumentos de coerção. Mas jamais a química será criada.

Há uma frase vociferada por influencers que “atitudes mudam sentimentos”. Isso pode ser verdade quando se trata de mudança de um sentimento negativo para um positivo, ou de um positivo para um negativo. Mas atitude não cria sentimento. A ideia de que uma atitude cria um sentimento está precariamente incluída como padrão comportamental no ideário da produção cinematográfica holywoodiana, em especial, dos estúdios Disney. Porém, ela vai além. Shakespeare, autor de tragédias, já trazia a ideia em Romeu e Julieta que satisfaria o conceito de química que nasce, não a que é criada: enquanto o curso comum da história colocaria Rosalina e Romeu juntos, é Julieta quem ganha o coração de Romeu. Em uma semana, ambos vivem uma história de amor que envolve desde a intensa química até a morte do casal.

Se a conjunção perfeita entre Rosalina e Romeu foi abusadamente destruída pela química que rolou entre Romeu e Julieta, o que dirá de nós, brasileiros tropicais que buscamos apenas um xodó para compartilhar a vida, os boletos e as preocupações? Não à toa é comum vermos que o encaixe é superado pela química, a razão superada pela emoção. O mundo ideal, porém, seria quando o encaixe fosse provocado junto da emoção. Não é o que acontece sempre.

Depois desta viagem pela História e pela literatura, caímos de novo no fato concreto: “não rola química entre a gente”. Talvez ela possa ter falado isso de outro modo, como “eu vou buscar o que eu mereço”, “eu me sinto uma impostora ao seu lado”, “você merece alguém melhor que eu”, entre outras frases. O fato é que não rola química, não rolou e, provavelmente, nunca irá rolar. E mesmo que role, é sempre bom um sinal amarelo ativo sobre as razões dessa mudança de comportamento futura.

É natural que as pessoas mudem e que as percepções sobre as pessoas também mudem, mas não necessariamente a mudança de percepção irá ativar a bendita química. É por isso que, a bem da saúde mental e da redução de nossas crises de rejeição, é preciso assumir radicalmente a verdade: você, irmão, não pode fazer nada para criar química. Nada.

“Respeitar nem sempre é aceitar e concordar”, escrevi no Pensador há alguns anos. Muitas vezes nós respeitamos o fato de que a outra pessoa nada sente por nós além da mais altiva amizade, mas não aceitamos nem sequer concordamos. A química não bateu e aí isso é depositado na caixinha da rejeição. E toda vez que isto acontece, a caixinha da rejeição vai ficando mais cheia e, com os rendimentos altos criados por sentimentos ruins, uma hora essa caixinha explode.

Por muitas vezes, eu caí na insidiosa tentação de fazer para ser. De fazer para mudar circunstâncias. E quando tive situações muito similares no passado, a leitura que fiz foi muito irreal. Enquanto eu achava que eram minhas ações que mudavam os sentimentos, na verdade, os sentimentos já existiam, eles apenas foram destravados. O que não dava para perceber, naquele momento, até pela ausência de outras experiências, é que naquela ocasião, já existia uma afirmação, um desejo, uma vontade de estar junto – talvez, a bendita “química”. E só por isso, o destrave existiu.

Irmão, se ela não sentiu química, não importa se você tenha sentido. Paixão é passaporte carimbado a dois. Relacionamento é a dois. Se não teve dos dois lados, é hora de juntar as lágrimas que vão cair, colocar tudo na caixinha do “foi bom enquanto durou” e partir pra outra. É necessário desocupar o lugar que nunca foi seu e que, por mais que você tenha se sentado lá por alguns minutos, horas, dias ou meses, está na hora de esfriar o banco e partir. Não há rumo certo, não há rumo definido. O que há é a certeza de que não há razão para ali permanecer e nem para voltar, a menos que haja uma clara e radical inversão da situação.

Pode doer no começo, mas desocupar o banco das relações possíveis significa ter lugar guardado no banco das amizades. Uma relação que existiu ou que coexistiu por alguns dias pode dar lugar a uma amizade aprofundada. Não aquelas coloridas, adolescentes, em que “beijo não estraga amizade” – o nome disso é irresponsabilidade afetiva quando um dos dois têm sentimentos românticos. Mas sim amizades que duram, que souberam se ressignificar, que souberam sair da seara da intenção romântica e se solidificaram como amizades afetuosas. E aí, às vezes vai ter um dia que vocês vão se encontrar e, num combinado, vão satisfazerem-se, mas deixando claro um ao outro que aquela situação é pontual, é racional e não há prejuízo para a amizade.

Agora, irmão, se você não decidir logo em levantar desse banco que não te estima, há duas coisas bem chatas a acontecer. A primeira é que alguém que tenha tido química com essa pessoa que você tanto estima vai querer compartilhar o banco com você e, numa disputa de espaço, você já é perdedor nato. E o pior, pode ser que saia de lá escurraçado. A segunda é que quem não levanta do banco não está na pista, e quem não está na pista, perde tantas oportunidades que não conhece. Digo isto com muita tranquilidade: melhor é estar solteiro e sozinho do que com contatinho, pois quando as boas oportunidades aparecem, as garras dos contatinhos nos impedem de reagir às boas oportunidades. Mas antes de estar solteiro e sozinho é necessário passar pelo luto emocional, coisa que pode demorar algum tempo. É necessário deixar passar.

Por fim, é hora de começar a pensar: será que você está sendo uma pessoa atraente? Porque pode ser, e há grandes chances, que não. Nas minhas últimas incursões românticas, tive três situações similares, repetidas em três pessoas com personalidades e origens completamente distintas, que apontaram para uma razão única: minha possessividade afasta e mata sentimentos românticos que começam a nascer na outra pessoa. E ao enxergar isso, foi como abrir-se um portal e nada mais importar. Tratar disso passou a ser a obrigação para que, na próxima oportunidade que o amor bater à porta, eu esteja minimamente pronto para recebê-lo.

Para finalizar esse texto, trago uma reflexão do autor português Filipe Miguel, que por uma aleatoriedade, chegou ao meu feed no WordPress.

Não procures escolher o amor, não desperdices o teu precioso tempo a escolher o que não podes escolher. No amor é ele que nos encontra.

Ninguém escolhe a quem amar. Ninguém controla o amor. O amor é quem nos leva em direções que muitas das vezes não prevíamos seguir, é ele quem nos encontra, quem nos escolhe e nos dirige. O amor quando chega, ele toma conta de nós.

Todos nós um dia procuramos a nossa casinha para morar, e assim é o amor. O amor também escolhe a sua casinha (coração) para morar.
Somos apanhados de surpresa, quando é para acontecer, acontece. Não há cá matérias de desejos, nem flechas de cupidos. Se é para acontecer, acontece. O coração manda e a gente obedece.

O amor não escolhe pelas aparências e muito menos pelos bens materiais. O amor apenas escolhe pelo coração. O coração será sempre a porta de casa do amor.

Amar também precisa de se ter coragem para seguir caminho. É preciso cuidar, respeitar, dedicar tempo ao outro e mudar, ou melhor, ceder em alguns aspetos. É preciso limar arestas de parte a parte, logo terá de haver disposição de ambos os lados para cedências, sem isto a porta fecha-se, e quando se fecha, será mais difícil de voltar abrir.

Temos que nos respeitar e ter uma amizade. O amor também é amizade. O amor nasce e cresce numa amizade, não existe outra forma. Sem amizade, não existe amor!

Amar não precisa da perfeição, ou do ser sábio e inteligente. O amor não vai escolher o ser mais bonito, ou o que lhe agrada aos olhos. Ele vai escolher quem faz o seu coração palpitar. Quem faz o seu coração acreditar!

Tristes são aquelas pessoas que precisam de ser bonitas, jeitosas, ricas, ser tipo ‘top model’ para terem o amor de alguém, para verem alguma coisa de especial nelas.

Triste são as pessoas azaradas que eventualmente precisam não só apenas de serem bonitas e ricas, como se submeterem a retardadices para não continuarem com uma vida miserável. Na verdade, isso não é amor. Isto é ter um prazo de validade de um “amor-físico-social”! […]

Filipe Miguel, em O amor escolhe corações

Que você não despedice seu tempo tentando encontrar, como eu tanto fiz. Que você se concentre em consertar sua vida e esperar que a química nasça num dia qualquer. E que neste dia, você esteja pronto para se aventurar na mais deliciosa e misteriosa história da vida: o amor de um casal. Te desejo química na sua próxima aventura. E coragem para aceitar que você não pode fazer nada. O amor é livre, conste-se.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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