Categorias
Comportamento Espiritualidade

Quando a paz for a única coisa que você tiver

O melhor momento é aquele em que se tem paz.

Por muitas vezes, eu sonhei em ter paz. Desde a mais tenra idade, paz sempre foi uma coisa que estava num horizonte. E eu conseguia essa paz de três modos, principalmente: nas minhas leituras, nos meus passeios (em especial, na fazenda) e nos meus brinquedos.

A minha infância foi boa, muito boa. Não tenho quase nada a me queixar. Do contrário, sou alguém privilegiadíssimo. Pais presentes, condições socioeconômicas equilibradas e necessidades supridas.

Paz, porém, é construída. E reconhecer a necessidade de construir isso foi algo que só entendi na adolescência. Achei que paz era ter e ser. Balela.

Foi agora, do alto dos 20 e tantos anos, que eu achei a bendita. Ela não estava na religião, mas sim na espiritualidade. Mas também não estava “lá”, do contrário, estava “aqui”. É, aqui. Dentro. Faltava identificar o que ativava.

Paz. Paz. Paz. Pedi tanto a Deus e ela chegou. “Paz não é ausência de conflitos”, lembrava um pastor amigo. E de fato, não é. Incômodos eu tenho a todo instante. Minha vida financeira não me deixa dormir sem preocupações. Minhas ambições também me tiram o sono. Mas não perdi a paz.

Engraçado que por mais que eu quisesse antes, talvez eu não estivesse preparado para experimentar disso. Essa paz eu não entendo. Aliás, eu só curto. E meu sonho é que ela nunca acabe.

Chorão dizia que “o homem quando está em paz não quer guerra com ninguém”. O vocalista do Charlie Brown Jr. estava certo. “No que depender de vocês, tenham paz com todos”, escreveu o apóstolo Paulo numa das cartas apostólicas registradas na Bíblia. Paz é quando a guerra se faz presente, mas não invade o território.

E esses dias eu me peguei pensando: privilegiado de todos os modos como sou, por que estou insatisfeito? Me parecia incoerente meu desejo de mudança, de alteração do estado natural das coisas. Mas aí eu me lembrei que um dia lá atrás, há anos, eu tive um episódio muito forte de depressão.

A morte me era companheira de diálogo. Foi um tempo duro. Lutar contra a ideia do suicídio diariamente me deixou frente a frente com o meu pior e talvez único real inimigo: eu. Sou uma pessoa com vocação espiritual e religiosa, gosto de fazer parte de uma religião, e das minhas crenças mais intrínsecas está a da salvação em Jesus Cristo e a de que Ele é o dono de tudo, inclusive da minha vida. Naquele tempo, a fé esteve comigo. Vi Deus se manifestar por várias vezes através da bondade de pessoas ao meu redor, pessoas que me compreendiam, que me doaram amor, tempo e recursos e caminhavam comigo.

Naquele tempo, no ano de 2016, se havia algo que eu não tinha era paz. Eu era bobo. Achava que as coisas aconteceriam num passe de mágica. Mas não. Pelo contrário, elas precisavam de tempo. E não eram como eu esperava. O mundo não girava ao meu redor, foi uma constatação dura. Enfrentar a depressão e todos os sentimentos novos com os quais eu nunca havia tido contato antes, tudo de uma vez, sob intensa pressão, incompreensão e reprovação das pessoas a quem eu mais amava e enxergava como autoridades foi uma trama difícil.

Mas hoje, anos depois, eu estou aqui. Nada firme, nada forte, mas vacinado contra várias situações. Não sou nada exemplar em minha conduta religiosa, moral ou ética. Tenho a minha vida, os meus vícios, acertos, erros e aceitando-os ou não, eu continuo vivo. Muito vivo. De vez em quando pensamentos de morte vêm, mas são facilmente controlados. Não há depressão profunda mais. O que há é ansiedade, esgotamento e outras coisas mais. Há muito a fazer ainda, mas o que mais importa é que agora eu tenho paz.

Sem pressa, mas sem perder tempo, eu quero seguir. Seguir com as pessoas que amo, mas sem prendê-las ou subjugá-las. Seguir respeitando que quase tudo está fora de meu controle e o pouco que está é responsabilidade exclusiva minha. Seguir entendendo que nem sempre tudo vai acontecer no meu tempo e, mesmo que eu chore e esperneie, algumas coisas (principalmente as que envolvem terceiros, o que é quase tudo) só acontecem no tempo certo. Seguir com o coração aberto, com o retrovisor do passado desembaçado e o para-brisa bem limpo. Seguir em paz.

Não há dúvida que seguir, significa, não ficar parado. Ter paz é, comumente, enxergado como parar. Mas não. É possível seguir. Aliás, é importante que se siga. Seguir em frente não significa apagar o passado nem mesmo sujeitá-lo ao esquecimento diário. Pelo contrário, é reconhecer que o passado, não importando qual seja, nos condicionou ao hoje e daqui pra frente importa infinitas vezes mais que de ontem pra trás. Não ficar parado também não significa seguir sem rumo. É preciso rumar com um sentido, que seja este conhecido ou não, mas sentido é preciso ter. Nem que seja o apontado pelo enganoso coração. Sentir e sentir muito pode ser uma forma de encontrar a saída para nossas desinteligentes dúvidas.

Eu estou no meu melhor momento. Graças a Deus. Respiro. Tenho minhas necessidades satisfeitas. Minha família é presente. Meus amigos têm sido companheiros. E meu coração tem se provado inteligente e corajoso nas suas escolhas nada racionais e muito acertadas. Este é meu melhor momento. Estou apaixonado. Estou entusiasmado. Estou me sentindo maravilhosamente contente. Tenho roupa, comida, calçados. Sou presenteado com frequência. Nada tem me faltado. Eu sou um reclamão porque quero mais e porque tenho sonhos adiante, não porque me falta algo. Eu estou no meu melhor momento porque, embora tudo isso esteja intrinsicamente ligado, eu tenho paz.

Mas além de paz, eu tenho sido abençoado. Muita gente duvida que é possível encontrar o amor da sua vida mais de uma vez. Eu posso afirmar que é possível pois eu encontrei. Ainda tem sido difícil encarar essa nova realidade. Mas que coisa boa. Eu posto, de novo, diante do incerto, do desafio, da maravilhosa sensação de ser uma criança aprendendo tudo do zero. Desta vez, eu vou tentar ser paciente. E fazer a minha parte completa sempre antes de pedir algo. Vai ser lindo quando for consumado. Vai ter valido a pena. E neste dia, todas as esperanças vão se materializar.

O menino medroso deu lugar a um homem disposto. O menino fraco deu lugar a um homem inteligente. O menino vil deu lugar a um homem humano. O menino vulnerável deu lugar a um homem sensível. O coração do menino foi lapidado e, da pedra bruta, saiu o que só os corações certos conseguem enxergar. É tanta mudança que nem me reconheço.

E agora, que posso dizer? Estou pronto para ir. Pronto para dizer adeus. Espero que nesta viagem eu vá em paz, como assim estou. Mas o que quero mesmo é ficar. Porque agora que eu tô em paz, que eu sei que, como cantava Thalles Roberto, “é fácil demais viver em paz, a gente é que complica tudo”, eu quero ficar. E quero ficar mais, por mais tempo. Eu topo passar mais tempo. Eu topo construir mais. Eu topo ir até mais do que pensei que poderia ir. Será que Deus, o Senhor do tempo, há de me conceder esta chance?

Que seja isso ou não, paz há. E que nessa paz, eu possa conquistar. Esse texto todo, apesar de escrito com a alma imperfeita de um humano dentre tantos bilhões vivos nesta Terra, é apenas uma expressão profética de alguém que quer viver e viver em paz. Amém.

Comente! Aqui é o lugar!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: