Categorias
Comportamento

“Minha felicidade também conta” – uma reflexão sobre renúncias e insistências

As ponderações em nossas renúncias são necessárias, principalmente, para que equilibremos as nossas vidas.

O filme é “Uma missão quase impossível”. O protagonista principal é Jackie Chan, um espião internacional de altíssimo nível. Ele tem um caso, uma espécie de namoro maduro, com uma mulher, mãe de três filhos, artista e cheia de desesperanças. Sua namorada não sabe que ele é espião, nem os filhos dela.

Na cena icônica, logo nos primeiros vinte minutos de filme, a personagem é encarada pelos filhos que reclamam da personalidade do futuro padastro: as crianças acham ele um chato. “O que vocês chamam de chato eu chamo de confiável”, dispara a mãe aos filhos. Passos depois, ela declara a frase que intitula esse texto: “a minha felicidade também conta”.

Essa frase tem ecoado por dezenas de vezes na minha vida desde que a escutei, sobretudo quando nas minhas sessões de terapia tenho tentado aprender sobre o equilíbrio entre a renúncia e a insistência, basicamente entre a felicidade do outro e a minha.

Esta madrugada, 3h30 da manhã, eu estava insone. O desespero me atravancava qualquer centímetro de sono. Há três dias eu tentava escrever e não conseguia. Com poucas lágrimas, consegui escrever uma carta virtual que não enviei. Com muito esforço, comecei um texto e desisti também. Não me são comuns as noites em claro, somente quando as memórias ou as circunstâncias locais me impactam. Desta vez, foram as duas coisas, eu acho. Era um dia com a memória negativa ainda fresca. Relembranças me são comuns. E felizmente, com poucos meses minha memória vai se desfazendo.

Hoje quando eu acordei, com o corpo dolorido, sem querer acordar, atrasado para uma reunião que eu sequer tinha conseguido me preparar, tomei banho e prostrei-me sob lágrimas. Esbravejei: a minha felicidade também conta! Por outro lado, tentei me convencer de que estava sendo egoísta. Sem chance de dar certo. Narcisista como eu sou, por vezes muito egoísta e ensimesmado, dar o braço a torcer não é nunca a primeira opção.

Mas o fato é que nas poucas vezes que eu precisei fazer escolhas entre a minha compensativa felicidade e a possível felicidade alheia, eu não devo ter escolhido muitas vezes a minha felicidade.

Não sou infeliz, mas percebo que às vezes eu sempre deixo as coisas grandes esvaírem-se com tanta facilidade que parece que eu nem as quero quando, na maior parte das vezes, eu quero tanto que me torno obcecado. Porém, quando é pra me impor mesmo e bater o pé, eu sou covarde. Tenho visto isso se acumular em várias das minhas experiências decisórias, algumas vezes no trabalho, algumas vezes nos romances. Quanto às coisas pequenas, sou sempre muito decidido. Parece energia gasta em situações desnecessárias. Talvez seja. E eu não sei como mudar isso.

Renunciar ou insistir? Todas as variáveis importam. Mas o que prevalece são os valores e a autoconfiança. A gente renuncia do que acha que não dá conta, ou que não é pra gente.

A gente insiste na maior parte das vezes pelas razões erradas: ego, ciúme, controle e cegueira mesmo. Vejo isso acontecendo com frequência em minhas vivências. Tudo que veio depois de uma demissão foi algo que me abria os olhos para a situação anterior. Na verdade, estava diante de mim por meses a insustentabilidade de uma situação A ou B naquele lugar, mas minha insistência por ego, por medo de perder e por ser bastante incrédulo me fazia estressar. Também vi isso acontecer quando diante de alguém que usava todos os meus estoques de paciência, meus talentos e às vezes até meus recursos, resolvi insistir mesmo tendo detectado a personalidade utilitarista daquela pessoa. Quando esgotei-me e dei um basta, por alguns meses fiquei mal, mas tudo floresceu outra vez e eu pude reabrir-me.

A gente insiste porque acha, no fundo, que vai dar certo. O que não é fácil de entender é que insistir em algo que produz efeitos negativos é como se automutilar. É ir perdendo, diariamente um pouco de brilho. É dizer pra si mesmo que você não é merecedor de felicidade nenhuma e que tem que sofrer mesmo. Mas isto é uma mentira deslavada e sem noção que não dá nem pra medir. Nós merecemos e podemos ser felizes. Ou pelo menos contentes. Ou pelo menos não sermos infelizes. Essa noção de que precisamos viver infelizes é instrumento de coerção, de medo, de controle. Opostos do amor e da liberdade.

Mudando o foco, a insistência também pode ser benéfica. Se uma situação lhe pede um posicionamento, assumir posição e fundamental. E logo. Um projeto que não deu certo na primeira vez pode dar na segunda. Um namoro que não funcionou na primeira vez pode funcionar na segunda. Um sonho que foi frustrado na primeira vez pode ser realizado na segunda. A insistência, neste sentido, é benéfica, bem-vinda, e significa que estamos tentando ser felizes e estamos considerando que a nossa felicidade individual importa.

Gosto sempre de lembrar a quem diz que Jesus era um cara que só vivia renunciando as coisas: o milagre da transformação da água em vinho no casamento só aconteceu porque Jesus estava ali. Jesus. Numa festa. Aleluia! Descansar, divertir, ter momentos felizes, também faz parte de uma vida de renúncias.

E sobre renúncias, é sempre importante uma avaliação honesta sobre os pesos das renúncias. Recentemente, fiz uma coisa que até agora não sei se foi o melhor pra mim. E talvez não tenha sido mesmo. Mas aparentemente é o caminho mais frutífero, mesmo que nesse caminho o meu tipo de felicidade não seja a que sonhava, mas pelo menos não será reservada a infelicidade.

As ponderações em nossas renúncias são necessárias, principalmente, para que equilibremos as nossas vidas. Uma vida vivida para o outro, em função do outro, na verdade, torna-se uma vida não vivida. É a tragédia da dependência emocional, da carência afetiva que prende suas vítimas a instrumentos de manipulação e coerção. Por outro lado, ponderar as nossas renúncias nos caracteriza como seres pensantes, que avaliam antes de tomar a decisão. Nem toda renúncia leva à edificação. Às vezes uma renúncia reforça um comportamento que causa morte, seja ela em vida (psicológica) ou a física (violenta). Contudo, renúncias que produzem edificação podem e devem ser consideradas sempre que possível. É possível termos felicidade a partir da felicidade do outro.

Por enquanto, de mim, espero ter que renunciar menos e insistir o suficiente pra que valha a pena. É a minha hora de praticar que “a minha felicidade também conta”.

*** Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Comente! Aqui é o lugar!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: