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O que aprendi assistindo IT ‘A coisa’

Um filme de terror que me encoraja.

É o filme de terror mais sofisticado da história, na minha visão. Porque ele tem uma pegada de Psicologia comportamental e filosofia existencialista, dois dos campos dos quais sou afeto. Mesmo que você nunca tenha assistido a um filme de terror ou não goste, eu insisto que ele vale a pena pela mensagem e pela sutileza.

O personagem central de IT é o palhaço assassino, Pennywise. Em outras palavras, o personagem central é o medo. E os personagens protagonistas são as pessoas, cada uma com seus traumas e com aquilo que lhe dão medo.

Os medos dos protagonistas são explorados diuturnamente por Pennywise. E a mágica começa na possibilidade de transfiguração: o palhaço se torna aquilo que a pessoa mais tem medo ou tem memórias ruins ou que tenha traumas.

Assisti IT pela primeira vez em setembro de 2017 em Belo Horizonte, numa das três melhores viagens que fiz na minha vida. Lembro que ao sair do cinema, estava apavorado. Sou grato a quem segurava minha mão naquele momento. Na madrugada, apavorado e em má postura, acordei num dos engasgos mais sufocantes que já tive na vida. Me controlar e me acalmar foi tarefa para duas pessoas.

Na segunda vez, também em setembro, mas agora de 2019, tive a oportunidade de assistir a continuação do filme em pré-estreia numa sessão exclusiva para os campuseiros da Campus Party Goiás. Sozinho e dormindo na barraca, a noite foi também enérgica. Mas dessa vez, sem engasgos, somente pensamentos pilhados.
IT tem uma mensagem muito clara e forte: o medo é um instrumento de coerção, de limitação e de morte. Enfrentar o medo é a única forma de viver. Porém o medo nunca está fora, sempre está dentro de nós. É uma situação aqui e ali que, por ser traumática, escondemos debaixo do tapete e trancamos a sete chaves no cofre de nossas memórias ruins.

Todos os medos são prisão. E a libertação dos medos passa pelo enfrentamento nu de cada medo, pelo condicionamento mental, pela revisitação honesta ao passado, pelo abandono de métodos inúteis e pela insubserviência aos escravagistas, abusadores e chacoteiros de plantão.

Uma cena desapercebida, mas muito importante, é a que um dos valentões do colégio local que fazia bullying com os protagonistas do filme é envergonhado, por seu pai, na frente de seus companheiros valentões. Um clássico da masculinidade, o homem valentão fora de casa, mas que é de toda uma finese dentro dela porque tem uma conservadora e violenta administração de sua relação com seu pai. Naquele caso, o diálogo não foi sequer cogitado. A violência imperou e, como sempre, violência gera violência a menos que alguém pare a corrente.

Outra cena interessante, esta já mais evidente, é a que um dos protagonistas descobre que todos os remédios que toma são, na verdade, placebos. Pior: a sua bombinha de oxigênio que em algum momento foi importante virou um vício (contraditório, parece). Ao descobrir a verdade sobre sua saúde, ele questiona sua mãe e descobre que ela, ensimesmada na superproteção que queria dar ao garoto, estava manipulando-o com a mentira. Foi vencendo a mentira dentro de casa que ele conseguiu vencer o seu principal medo: ficar sem a bomba de ar, ficar impossibilitado de respirar.

Pennywise, o palhaço do mal, no segundo filme tem um protagonismo maior. Os protagonistas são adultos. 27 anos se passaram desde o primeiro enredo. Constantemente, o segundo filme explora o sangue e a confusão mental. Até mesmo a ancestralidade agora é mais imponente. Mas o enredo continua o mesmo: um show de psicologia comportamental e de existencialismo.

Ao final, IT nos deixa abalados. Talvez pela mensagem clara demais, encorajadora demais ou pelos efeitos especiais de alta qualidade. Talvez IT nos deixe mais abalados por mostrar que a vida que temos certeza de viver é uma só e não dá pra conviver com o medo, é preciso enfrentá-lo como inimigo. Mas certamente, a subliminaridade da mensagem mais forte do filme, é que por mais que uma pessoa A ou B se manifeste como um monstro, é sempre importante lembrar que tem um humano ali e o que se aparece como monstro são as atitudes, dissociadas do ser, mas por ele praticadas.

Pode parecer estranho, mas reassistir IT para mim significa receber um pouquinho de coragem investida para enfrentar os medos. Por isso, para iniciar esse ano, buscando motivação externa, foi IT o primeiro filme que assisti. IT, um filme de terror, me encoraja. Estranho, né? Até você assistir. Bom filme!

*** Foto de Capa: Jovem Nerd/Reprodução

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